Prazeres da mesa

Reportagem, Vinhos

ITÁLIA ESTELAR

Em um impecável jantar, a Importadora Clarets reuniu uma série de grandes vinhos italianos que podem ser considerados, sem falsa pretensão, algumas das maiores estrelas do país

Por: Prazeres Da Mesa | 3.nov.2017

Por Marcel Miwa

Fotos Nil Fabio e Divulgação

Imagine um amador convidado para uma clínica de tênis em que poderá trocar raquetadas com Djokovic, Federer e Nadal. Ou para um test-drive em uma pista de automobilismo com os principais modelos de Ferrari, Lamborghini e Maserati. Ao trasladarmos para o mundo do vinho italiano, essa foi a sensação da degustação que reuniu em uma mesma noite alguns dos maiores nomes de Toscana, Piemonte e Vêneto. A constelação formada por Brunello de Biondi-Santi e Soldera, os supertoscanos Sassicaia, Solaia e Masseto, os Amarone de Romano dal Forno e Quintarelli, e os piemonteses Barbaresco de Gaja e Barolo de Aldo e Giacomo Conterno é algo raro de provar no decorrer de um ano, e os participantes puderam, em uma só noite, degustá-los no evento promovido pela Clarets. Aliás, o evento está perto de se tornar uma confraria, pois boa parte do grupo presente na degustação de Bordeaux, realizada em outubro de 2016, também participou dessa degustação de italianos. Como qualquer grande vinho, esses ícones são longevos e pedem algum tempo em garrafa, fator também levado em consideração por contemplar apenas safras da década de 1990.

A degustação, realizada no restaurante Fasano, foi conduzida por Manoel Beato e precedida pelo espumante Giulio Ferrari Riserva dal Fondatore 2001. Este, feito na região de Trento, não fica nada atrás de grandes champanhes, tem complexidade, nervo e finesse para ficar à frente de muitas cuvées prestiges. Trata-se de um blanc de blancs, assim chamados os espumantes feitos apenas com variedades brancas, no caso a Chardonnay, maturado por dez anos na garrafa com as leveduras (método tradicional). Após esse longo período, a textura densa e cremosa ganha vivacidade com o contraponto da acidez e os aromas de avelãs, noz e pão tostados, cogumelo e frutas brancas cristalizadas envolvidos no sabor umami e ácido (extra-brut, cerca de 6 gramas por litro de açúcar residual) que dão o tom sofisticado ao espumante.

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 Os Brunello

A degustação teve início com os Brunello Biondi-Santi Riserva 1999 e Soldera Riserva 1999, dois nomes unânimes de Montalcino, uma parte especial da Toscana, onde o clima tem extremos de frio e calor mais amplos que nas demais zonas, e o solo ganha proporção maior de calcário. A propriedade Il Greppo de Biondi-Santi é a expressão tradicional da parte central e mais elevada de Montalcino; enquanto Casse Basse de Soldera é referência da parte sul (quase irônico que esse tradicionalista seja quase vizinho de Banfi, exemplo clássico da escola moderna). Jancis Robinson,  Master of Wine e colunista de Prazeres da Mesa, comentou à época do lançamento dos Brunello 1999 que se tratava da melhor safra que já havia provado até então (em 2004). Na taça, dois estilos distintos: Biondi-Santi ótimo para tomar hoje, rico em aromas de frutas frescas, especiarias e ervas (erva-doce, sândalo e flores secas), com taninos numerosos mas bem amaciados pelo tempo; enquanto o Soldera mostra fruta vermelha madura, toques de alcaçuz, terra e tabaco. Impressiona pela nitidez do conjunto, mas tem taninos e intensidade para evoluir por mais tempo.

Um viva aos supertoscanos

Em seguida, e ainda na Toscana, foi a vez dos supertoscanos em uma degustação horizontal (diferentes vinhos da mesma safra) de 1996. A história já é bem conhecida e remete à iniciativa de utilizar variedades de uvas francesas, especialmente as de Bordeaux, para fazer grandes vinhos. A legislação das apelações de origem italianas não contemplava essa hipótese, e os vinhos tiveram de ser rotulados como Vino da Tavola ou IGT, níveis teoricamente inferiores. À medida que os críticos provavam e admiravam esses vinhos, surgiu a informal nomenclatura de “supertuscan” para descrever os rótulos que seguiam essa receita. O primeiro a ser servido e que pode ser considerado o primogênito da categoria foi o Sassicaia 1996, formalmente lançado em 1968 por Mario Incisa della Rocchetta. O vinho já era produzido há algumas décadas, mas apenas em 1968 saiu ao mercado e pôde comprovar o ótimo potencial da Cabernet Sauvignon no quente, mas ventilado, litoral toscano (onde a Sangiovese não alcança a excelência). Hoje, a propriedade tem uma DOC própria chamada Bolgheri Sassicaia e a composição permanece inalterada desde a safra inaugural: 85% Cabernet Sauvignon (mudas trazidas do Château Lafite-Rothschild) e 15% Cabernet Franc. Na taça, o vinho está em ótima fase, com taninos polidos e macios, fruta fresca e discretas notas de evolução (café e couro). Os 22 meses em barricas (metade novas) não marcam demasiadamente o vinho, e a acidez faz com que seja o primeiro entre os três a se esgotar na taça. O segundo vinho, o Solaia 1996, é feito pela família Antinori, mas foi desenvolvido pelo mesmo idealizador de Sassicaia, o enólogo Giacomo Tachis. Apesar de também apresentar predomínio da Cabernet Sauvignon (cerca de 75%, com 20% de Sangiovese e 5% de Cabernet Franc), expressa o terroir da região do Chianti. Solaia (a ensolarada) corresponde a uma parcela de 10 hectares de vinhedos com exposição sudeste que está na propriedade Tignanello, onde também nasce o famoso vinho homônimo. A safra inaugural foi em 1978, quando sobrou boa quantidade de Cabernet Sauvignon que não entraria no corte de Tignanello. Além de proporções inversas das variedades, outra grande diferença de Solaia em relação à Tignanello é o uso exclusivo de barricas francesas novas, nas quais o vinho repousa por cerca de 14 meses. A safra 1996 ainda se mostra fechada, embora a expressão da Cabernet Sauvignon, nessa situação mais continental, já se mostre sedutora, com taninos firmes e acetinados, ótimo frescor e fruta pura envolta por notas minerais (giz e grafite). É verdade que, hoje, ainda está um pouco austero – nada que não se resolva na companhia da gastronomia. Para fechar o trio de supertoscanos foi servido o Masseto 1996. Produzido pela Tenuta dell’Ornellaia, desde 1986, em Bolgheri (vizinho de Sassicaia), teve como consultor técnico o enólogo russo Andre Tchelistcheff, que moldou os vinhos californianos como os conhecemos hoje. Tchelistcheff notou que a encosta em que ficaria Masseto era rica em argila e propôs a Ludovico Antinori plantar os quase 7 hectares apenas com Merlot. Após diversas trocas de comando, com a participação de Mondavi e de Constellation Brands, hoje o controle está nas mãos da família Frescobaldi. A mudança aqui foi como da margem esquerda de Bordeaux (domínio da Cabernet) para a margem direita, onde a Merlot tem a supremacia. A tipicidade se manifesta com as frutas negras maduras (cereja e ameixa), violeta cristalizada, taninos finíssimos e abundantes, ótimo frescor. A madeira se apresenta pela tosta alta (cacau) e quase não são percebidas notas de evolução na garrafa.

 Meditando com os Amarone

ITÁLIA ESTELAR - claretsAo sair da Toscana, o próximo destino foi Vêneto com seus Amarone. A potência e a complexidade desse tinto feito com predominância da Corvina é resultado do processo de parcial desidratação das uvas, depois de colhidas maduras. Com a evaporação da água, as frutas se tornam mais concentradas e resultam em tintos que facilmente ultrapassam 15% de álcool. Encontrar as estrelas da DOCG Amarone della Valpolicella não é complicado e são conhecidas pelos nomes de Giuseppe Quintarelli e Dal Forno Romano. O primeiro na linha tradicional, o que significa secar as uvas em esteiras de junco, permitir algum desenvolvimento de botrytis, fermentação espontânea e estágio dos vinhos em grandes tonéis de carvalho da Eslavônia. Dal Forno, por outro lado, apesar de ter como mentor o próprio Giuseppe Quintarelli, seguiu a linha moderna, com o uso de barricas de carvalho francesas novas. E conforme pôde ser comprovado na degustação do Amarone Classico 1997, de Quintarelli, e do Amarone 1997, de Dal Forno Romano (a propriedade está fora da zona clássica), a questão é puramente estilística, pois ambos estão no mais alto nível a que se pode chegar com esses vinhos. O Amarone de Quintarelli mostrou elegância, com frutas negras (ameixa e cereja maduras), cacau e xarope de ervas (vermouth). A acidez consegue se destacar mais que os taninos e apaga qualquer sensação adicional de peso ou de álcool. O Amarone de Dal Forno Romano tem construção diferente: é concentrado, com frutas negras secas, chocolate, madeira tostada e alcaçuz. Os taninos são muito finos e ainda marcam presença, mas sem agressividade. O álcool dá a textura glicerinada e a acidez é suficiente para equilibrar o conjunto.

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Barolo é Barolo

O derradeiro flight da noite foi dedicado ao Piemonte. A fama de Borgonha italiana antecipa que não é tarefa fácil escolher ícones dessa região em uma década. Com toda a subjetividade do tema, é fato que a região foi muito bem representada na década de 1990 com os vinhos Gaja Sorì Tildin 1998, Aldo Conterno Barolo Granbussia Riserva 1999 e Giacomo Conterno Barolo Monfortino Riserva 1998. O primeiro, feito por Angelo Gaja, líder de Barbaresco, que desde 1996 decidiu sair da denominação de origem Barbaresco para fazer os vinhos da região como antigamente, com participação da Barbera (até 15%), refletiu a fama do cru de combinar precisão e profundidade. Curiosamente, desde a safra 2013, sua filha, Gaia Gaja, decidiu retornar à DOP Barbaresco. Sorì significa, literalmente, colina com exposição sul no dialeto local, e Tildin era o apelido da avó de Angelo. Comparado aos dois Barolo, este é nitidamente mais fresco e elegante, um sentido de elegância diverso dos exemplares toscanos, pois apesar dos aromas frescos (herbais e florais), os taninos são mais angulares e firmes que os da zona central da Itália. A acidez ajuda a lavar esses taninos e, no final, os aromas de fruta vermelha ácida, flor e folhas secas e toffee permanecem. Os dois Barolo seguintes têm o mesmo DNA. Não pelo vinho, mas pela família: com o falecimento de Giacomo Conterno, em 1961, seus dois filhos, Goivanni e Aldo, assumiram a produção dos vinhos da família. Giovanni, como primogênito, seguiu no comando da vinícola que viveu nova fase a partir de 1978, quando saíram ao mercado os primeiros vinhos dos recém-comprados 14 hectares do Vinhedo Cascina Francia, em Serralunga d’Alba. Até então, os vinhos eram feitos com uvas compradas de terceiros (mas com ótima reputação). O Barolo Monfortino corresponde a uma seleção das melhores uvas do Vinhedo Cascina Francia e, assim como boa parte dos vinhos da noite, é produzido apenas em anos de qualidade excepcional. O tradicionalismo se expressa pela maceração prolongada com as cascas, que pode chegar a cinco semanas, sem controle de temperatura, seguido de sete anos em botti (grandes tonéis de carvalho da Eslavônia). A fama de um dos vinhos mais longevos com que alguém pode se deparar está mantida. A safra 1998 mostrou intensidade e força superior às de seus vizinhos, com fruta vermelha madura discreta, curioso damasco e mais especiarias (cravo e pimenta-da-jamaica) e balsâmico. A estrutura é bem potente e disfarça a força dos taninos, ainda vivos e muito finos. A acidez aparece como ótimo contraponto a tanto músculo. No final, as especiarias prevalecem com ligeiro trufado.

Depois de assumir a vinícola, G. Conterno e seu irmão, Aldo, o caçula, após muitos conflitos sobre qual estilo os vinhos deveriam seguir, decidiram fundar a própria vinícola em 1969. Ali poderiam aplicar algumas ideias tidas como modernistas (macerações mais curtas e uso de barricas francesas – esta, ideia de seus filhos). Seu Riserva Granbussia também é feito apenas nas melhores safras e faz referência ao vinhedo do qual compraram suas parcelas (Bussia, em Monforte d’Alba). A proporção de Nebbiolo que serve como referência é 70% da parcela Romirasco, 15% Cicala e 15% Colonnello. O vinho costuma passar três anos em botti de carvalho da Eslavônia (tradicional), em seguida, mais dois anos em tanques de aço inox (moderno) e um na garrafa antes de ir ao mercado. Na taça, o estilo se distancia de Monfortino, igualmente sedutor, mas com fruta fresca no primeiro plano, com giz e folha seca. Na boca, os taninos trazem a marca do calcário, com textura acetinada e levemente angular, ainda jovem. Há ótimo frescor e (relativa) delicadeza. Um grande final.

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