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A BRASA É DELAS

Mulheres do mundo da carne e apaixonadas por fogo se unem para fazer churrasco e provar que também mandam muito bem nesse segmento

Por: Prazeres Da Mesa | 3.jul.2017

Por Beatriz Albertoni
Fotos Ricardo D’angelo

Por muito tempo acreditou-se que o domínio do fogo cabia exclusivamente ao ofício masculino, seja em atividades profissionais ou de lazer, como o churrasco. No entanto, há uma parcela feminina que se fascina pelo fogo e faz da brasa e da carne uma opção de vida.

No Brasil, mulheres experientes e corajosas despontam como grandes profissionais na área e provam que o universo feminino é muito mais abrangente do que se imagina. Por esse e por outros motivos surgiu o grupo As Braseiras, que reúne 11 mulheres de diferentes partes do país com o intuito de realizar eventos ao longo do ano.

O principal objetivo do movimento é incentivar outras mulheres a sair do fogão e se aventurar em diferentes vertentes da gastronomia até então dominadas por homens, como a dos assados. Carolina Barretto, idealizadora do projeto e profissional da indústria da carne, vai mais longe ao associar o fogo com a mulher. “A brasa é um substantivo feminino e remete ao fogo, um elemento sagrado”, diz.

Resultado da reação química de oxidação entre substância combustível e gás oxigênio, o fogo é essencial ao ser humano e é marco do início da civilização. Sempre é bom lembrar que, na pré-história, ele foi o responsável por oferecer luz, calor e proteção aos nossos antepassados.

Hoje, além de atribuir mais sabor e nutrientes aos alimentos, as chamas são um convite à convivência, sendo protagonistas em bons momentos entre família e amigos. Essa ideia de união é um dos principais motes do projeto que, além de atuar como fortalecimento feminino no mundo da carne, será pretexto para descontraídos encontros com foco em troca de conhecimento e bate-papo.

“É uma honra participar dessa equipe”, diz Tatiana Bassi, do Templo da Carne. “Acredito ser o começo de uma nova fase do mercado. As mulheres estão entrando para o jogo.” Filha de um dos maiores especialistas em carne no Brasil, Marcos Bassi, Tati foi a primeira convidada a participar do movimento, e abriu as portas da churrascaria em São Paulo para os dois primeiros encontros do grupo. Segundo a organizadora, a ideia foi reunir mulheres com diferentes currículos e propostas, mas que caminhassem com o mesmo objetivo. “Gratidão é a palavra para descrever o que elas sentiram”, diz Carolina. “Temos aqui um mix de experiências e técnicas para compartilhar o máximo de conhecimento com o público.”

Além de Carolina e Tatiana, fazem parte do grupo Ana Maria Graef Fornari e sua filha Tatiana Fornari Busato, do Restaurante Vermelho Grill, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, com filial em Porto Alegre, Rio Grande do Sul; Clarice Chwartzmann, de A Churrasqueira, também de Porto Alegre; Caroline Barbosa, da Carne & Sabor, de Belém, Pará; Aline Marinho e Joana Angélica, do projeto itinerante ChurrasDelas, em São Paulo capital; Ligia Karazawa, do Eataly, também em São Paulo capital; e Elisabeth Schreiner e Sandra Carvalho, sócias no Meat Shop, de Florianópolis, Santa Catarina.

ARTESÃS DA CARNE

Para mostrar do que realmente são capazes, no segundo encontro, que antecedeu o grande evento realizado no dia 8 de março, as Braseiras colocaram a mão na massa e prepararam na churrasqueira diferentes tipos de carne. Além do talento nato, elas reforçam que trabalhar em frente ao fogo demanda técnica e, acima de tudo, paixão.

Conhecer o produto que se utiliza também é primordial para um resultado de sucesso. Lígia é chef do Brace Bar e Griglia, do Eataly, e acredita que carne na brasa não engana ninguém. “O churrasco é uma cozinha de produto. É preciso carne de qualidade e técnica afiada”, afirma. Decidida a impressionar, ela levou uma peça de tomahawk de black angus, um bife ancho com osso, de sabor e maciez impressionantes. Ela afirma ainda que é a primeira vez que um evento desse tipo agrega conhecimentos de toda a cadeia, do campo ao prato. “É incrível poder trocar ideias com gente que entende de várias áreas”, diz.

As catarinenses Beth Schreiner e Sandra Carvalho são bom exemplo. Dedicadas em promover o manejo correto dos animais, as sócias do Meat Shop possuem experiência para além da grelha. De formação, Beth é médica veterinária e Sandra tem diploma de zootecnista – aplicam a competência de cada graduação na cozinha do restaurante. “Sou totalmente contra o desperdício”, afirma Beth. “Respeitar o animal é consumir com consciência.”

Para o encontro, Beth apresentou uma linguiça artesanal, assim como todos os embutidos da loja, enquanto Sandra resolveu preparar costela suína com polenta, para representar sua região. “A carne de porco não pode queimar, pois amarga. E, por ser próxima do osso, ela é bastante saborosa, porém nada macia. Por isso, deve ficar 30 minutos ao fogo enrolada em papel-alumínio”, diz Sandra.

Caroline Barbosa veio diretamente do Pará para participar do projeto. Proprietária do açougue Carne & Sabor, ela diz que ser reconhecida pelo que faz é gratificante. Por ser uma profissão predominantemente masculina, Carol conta que as pessoas têm admiração pelo seu trabalho. “Elas se impressionam ao ver uma mulher açougueira, mas no fim acham incrível.” O corte porterhouse, a famosa bisteca, foi sua escolha para preparar no evento. “É minha peça preferida, por ser única. É possível provar três tipos de carne em um só corte”, afirma.

ESTILO DE VIDA

Enquanto para alguns a brasa não passa de passatempo, para essas mulheres é um divisor de águas. Aline Marinho e Joana Angélica gostavam de preparar churrasco em casa durante os encontros de família. Ao se conhecerem em um programa de TV, decidiram abrir uma empresa de eventos, o ChurrasDelas, com o propósito de incentivar a ida de mulheres para o comando da churrasqueira.

A dupla divide seus conhecimentos técnicos no preparo das carnes, caso da defumação. “É um processo que exige paciência e muita técnica. Isso é para provar que mulher é capaz de fazer o que ela quiser”, afirma Aline. A carne de pescoço que levaram foi temperada com rub (mistura de especiarias, como açúcar mascavo, mostarda e alho em pó) e defumada por 18 horas em lenha de laranjeira e de goiabeira.

Quem também busca mudar a realidade da opinião sobre a mulher é Clarice Chwartzmann. À frente da iniciativa A Churrasqueira, que promove cursos somente para o público feminino, Clarice ressalta que sua causa é tirar as mulheres do fogão. “Acredito muito que o modelo ‘tradicional’ dos churrascos em casa é uma questão cultural. Há um tempo tive uma crise existencial e decidi que churrasco era o que eu queria para mim. E minha ideia é mostrar para as mulheres que elas também podem mudar de vida e fazer o que gostam.”

Clarice diz que As Braseiras é uma união de talentos, em que cada uma das participantes traz sua abordagem, criando uma força que possibilita avançar. “Acabamos formando uma confraria que inspira outras mulheres”, afirma. “Vamos resgatar a ideia do fogo, ancestral e místico, para disseminar essa cultura.”

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