Prazeres da mesa

Vinhos

A CAPITAL EUROPEIA DO VINHO

Em Viena, tudo serve de pretexto para beber taças e taças de brancos, produzidos há séculos em quantidade e qualidade expressivas

Por: Prazeres Da Mesa | 12.sep.2016

Por Marion Frank

Fotos Divulgação

Memória, na Europa, é outra história. Em 2015, Viena celebrou 150 anos de Ringstrasse, a mais emblemática avenida da época imperial, moldura de edifícios monumentais (o da Ópera, entre eles) e de parques. Quando o imperador Francisco José desfilou pela primeira vez de carruagem por seu trajeto circular, em maio de 1865, dava de fato início a um ambicioso projeto urbanístico que uniria os subúrbios ao centro da mais poderosa cidade de seu império – e que a passagem do tempo só lapidou, outorgando hoje a Viena o status de capital do mundo.

Naturalmente, a data foi aproveitada pelas autoridades vienenses para preparar uma programação artística caprichada no decorrer do ano, com exposições de pintura e arquitetura, concertos, bailes, ópera, festivais musicais e mesmo apresentações especiais dos Lippizaners, os cavalos brancos de Viena. “Now or never”, diz o bordão do turismo local (wien.info), como se fosse necessário acabar com a dúvida de ser o melhor momento de conhecer a capital austríaca – ou a ela voltar. E, se não for pelo calendário festivo, que seja pelo vinho!

Eis aí a grande diferença ainda pouco conhecida dos brasileiros: Viena é a única capital do mundo a produzir quantidades expressivas de vinho, cerca de 2,4 milhões de litros por ano, a partir das vindimas cultivadas em uma área de 700 hectares (a título de comparação: em Paris, o 18ème, ou seja, Montmartre, também produz vinho todo ano, mas apenas 2.000 garrafas…). O vienense, como se sabe, está habituado a ouvir o melhor de valsa e de ópera, a gastar horas perambulando por jardins e parques e a ir a cafés comer um bom pedaço de torta (de preferência, a sacher, de chocolate, iguaria do estabelecimento de mesmo nome). O que se desconhece, ao menos neste lado do Atlântico, é que ele também há séculos tem o costume de beber o vinho feito no quintal! Pesquisas documentam que o consumo da bebida pela população vienense, na Idade Média, era seis vezes maior do que o atual, algo em torno de 120 litros per capita (século XVI). Um ritual que continua em voga nas “heurigen”, as tabernas de vinho – montadas ao ar livre, elas têm bancos e mesas de madeira dispostos entre as parreiras e de frente para a cidade (e o Rio Danúbio). Salvo nos meses de inverno, claro, quando a prática é feita entre quatro paredes.

Essa fabulosa história começou a ser escrita pelos celtas, em 500 a.C., que deixaram os primeiros vestígios de sementes de uvas nos arredores do que seria hoje a capital da Áustria. Sob o domínio de Roma, as vindimas ganharam impulso e excelência com a introdução de castas italianas – entre os vienenses, já era motivo de distinção produzir vinho no terreno da própria casa, nos séculos XII e XIII. A narrativa só deixou de ser exitosa a partir do século XIX, quando a filoxera, que fazia estragos calamitosos, sobretudo na França, também corroeu o que havia de uva Áustria afora – e o consumo de vinho entrou em decadência, amplamente suplantado pelo da cerveja.

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Porém, nada como a persistência e a disciplina austríacas para recuperar o prestígio antigo. A criação de uma associação de produtores vienenses, a WienWein (wienwein.at), em 2006, é apenas um dos indícios de um projeto de recuperação do que há de autêntico na produção do vinho local, no caso, o célebre Wiener Gemischter Satz – desde abril de 2011, uma legislação que deve ser seguida à risca regulamenta castas e técnicas, todas elas resultado de séculos de cultivo e experiência. Assim, o Wiener Gemischter Satz é o resultado de uma mistura de uvas brancas (entre elas a Grüner Veltliner, uma das pérolas do reino austríaco de vinhos), acrescida de um toque de Rhein Riesling (para dar acidez) e outro tanto de Gelber Muskateller e de Traminer (para acentuar os aromas). Atenção: nenhuma variedade pode dominar mais de 50% ou menos de 10% na composição do blend. Naturalmente, cada um dos 300 produtores de Wiener Gemischter Satz – que exploram, às vezes, o cultivo de mais de 20 castas na área de cerca de 70 hectares espalhados pelas colinas da capital – capricha na mistura que faz no próprio vinhedo, tentando realçar sua assinatura. O resultado é um vinho fresco, mineral e ácido, com notas de frutas amarelas – imbatível nos dias de calor.

Outras castas brancas, nem todas autóctones (Sauvi-gnon Blanc, por exemplo), são cultivadas nas vizinhanças de Viena, que tem, assim, 80% de sua área centrada na produção de brancos – talvez, daí se explique certo alheamento do brasileiro que gosta de vinho, mas é bastante reticente ao que não é tinto (leia o quadro). A esse respeito, a propósito, produtores vienenses vêm se mostrando interessados em também investir na produção de rotwein, servindo-se de uvas nacionais (e de reconhecido valor, como Zweigelt e Sankt Laurent), associadas a outras apreciadas internacionalmente, caso de Merlot, Pinot Noir e Syrah. Sim, o vinho produzido na capital da Áustria é bastante marcado pelo solo rico de calcário das conchas e pelo clima afetado pelas correntes de ar da planície panônica, com temperaturas altas durante o verão e frio e pouca neve no inverno. Um tesouro para a vinicultura, na Europa Central.

E por ser um povo de grande afeição à natureza, a produção vinícola segue o receituário orgânico – basta dizer que o uso do que é geneticamente modificado é proibido em qualquer atividade agrícola do país. Mais: com o apoio do governo austríaco (e da União Europeia), a maioria das viniculturas participa de um programa de intervenção mínima, o que faz com que as uvas sejam colhidas manualmente, custe o que custar. Na capital, grandes nomes da produção do Wiener Gemischter Satz, caso de Fritz Wieninger e Jutta Kalchbrenner, entre outros, fazem uso de técnicas da biodinâmica em seus vinhedos – como usar extratos de plantas em lugar de fertilizantes e fórmulas tradicionais da homeopatia para fortalecer as diferentes espécies.

Os dias de verão estão cada vez mais próximos no calendário vienense. É quando as heurigen, de frente para a mais bonita paisagem, vivem apinhadas de uma gente que faz questão de celebrar a vida com um copo de vinho à mão. Se as tavernas estiverem lotadas, não faz mal: no centro de Viena, há escolha farta de bares a vinho, sob a direção da nata dos produtores locais. Para sorver esse prazer e pedir mais. Prost!

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Para provar por aqui

Vinhos da Áustria continuam a ser uma raridade à venda no comércio especializado de São Paulo. Os brancos, produzidos em Viena, mais ainda, infelizmente. “O mercado de vinhos austríacos é ainda muito restrito no Brasil”, diz Rodrigo Mainardi, da importadora Mistral. “São rótulos excelentes, mas que acabam sendo mais comentados do que adquiridos.” Esse comportamento pode ser explicado porque o brasileiro não está habituado, na opinião do especialista, a apreciar o vinho branco – exatamente, o produto de excelência reconhecida ao redor do mundo, que leva rótulo austríaco. “A invasão de bebidas de valor duvidoso, como o do branco Liebfraumilch, nos anos 1980 e 1990, ainda hoje influencia negativamente o consumidor brasileiro na hora de comprar uma garrafa que não seja de tinto”, afirma. Na Mistral, porém, a filosofia em curso há anos é bater o pé contra esse comportamento, apostando na qualidade da produção austríaca – há ótimos exemplos de custo-benefício, segundo a seleção de Rodrigo, de brancos produzidos em Kamptal, a noroeste de Viena, uma das regiões vinícolas mais conhecidas da Áustria. “São vinhos frescos, aromáticos, cuja estrela é a casta Grüner Veltliner, com certeza a mais importante do país”, diz. Também há oferta requintada, no gabarito “colheita tardia”, originária de outra área vinícola (Burgenland), a mais oriental. “Estamos lutando para formar o paladar do brasileiro.” Oremos!

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