Prazeres da mesa

Reportagem

A COZINHA DE JORGE AMADO

Em seus livros e na vida, a boa mesa sempre esteve presente na trajetória do escritor baiano, que retratou a cultura do estado como ninguém

Por: Prazeres Da Mesa | 30.jan.2017

Por Ricardo Castilho, de Salvador

Fotos RJ Castilho

As recordações são fortes, eu amo esse espaço, gosto de vir com meus netos, eles agem como se ainda fosse a casa dos avós, e não um museu”, diz, emocionada, Paloma Amado, filha dos escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, ao começar a entrevista na Casa do Rio Vermelho, onde seus pais viveram. A casa foi restaurada pela prefeitura de Salvador e se tornou um novo ponto turístico, um museu com pertences e a história da dupla que marcou nossa literatura. O visitante tem acesso a documentos e a cartas escritas por Jorge Amado, várias para personalidades internacionais, como o chileno Pablo Neruda; a vídeos que apresentam trechos da obra do casal e objetos diversos. São 15 ambientes, espalhados por 1.000 metros quadrados.

Além da cultura literária, o espaço também tem presente a cultura gastronômica. Na “Cozinha de Dona Flor”, os visitantes podem aprender por meio de vídeos algumas das receitas que marcam a culinária da Bahia. Mas, se der sorte, pode encontrar a própria Paloma fazendo uma visita e descobrir ainda mais sobre os pratos preferidos dos escritores e suas histórias da boa mesa. As receitas que ilustram esta reportagem foram retiradas do livro de Paloma, A Comida Baiana de Jorge Amado, e executadas pela chef Tereza Paim, dos restaurantes Casa de Tereza e do Convento. “A gastronomia é muito forte para o turismo de Salvador e entendemos que precisamos fortalecer isso cada vez mais”, afirma Érico Mendonça, secretário municipal de Cultura e Turismo de Salvador. “Esse espaço nos deixa muito alegres por unir a cultura de dois de nossos ícones com a gastronomia.”

01/12

 Gênio das letras e gourmet

Jorge Amado não cozinhava, mas era um grande conhecedor de pratos. Gostava de comer. E não era apenas comida baiana ou brasileira. Era fã de coq au vin, por exemplo, e sempre fazia questão de pegar um bom vinho para usar na receita. Com isso, sempre falava que o sucesso da preparação era dele, pois tinha escolhido o vinho. Já Zélia Gattai era cozinheira de mão-cheia, arte que assimilou das tias Vanda e Vera. Zélia aprendeu pratos baianos, mas cozinhou mesmo para valer na época em que o casal morou em Paris e precisava cozinhar diariamente.

Por tudo isso, a Casa do Rio Vermelho foi palco de refeições memoráveis. “Aos domingos os amigos iam chegando, a casa ficava aberta e apareciam o Caribé, o João Ubaldo e outros amigos”, diz Paloma. “Eram dias de comida gostosa e muita conversa boa, sobre cultura, política, tudo em alto nível.” Tinha sempre uma baiana fazendo acarajé; sanduíches de pernil de porco, uma das paixões de Jorge e, especialmente, depois de alguma viagem para o exterior, vinha um monte de delícias dos países visitados, como pata negra espanhol, presuntos italianos, queijos e vinhos. Aqui vale lembrar um fato curioso: enquanto existiu o bloco comunista no Leste Europeu, os dois escritores não recebiam os pagamentos em dólar, já que não existia câmbio. Como a moeda local não valia muita coisa fora de lá, o melhor era comprar mercadorias locais. Com isso, as malas voltavam repletas de caviar e vodca, por exemplo. “Meu irmão comia sanduíche de caviar”, afirma Paloma. “Nessas voltas aconteciam domingueiras familiares e com poucos amigos, regadas a champanhe, caviar e vodca.” Os vinhos eram guardados para ocasiões especiais e os grandes tintos eram apreciados com classe.

01/12

Pratos baianos

Mas nem só desse requinte importado vivia a mesa da casa. Sarapatel, efó e vatapá não podiam faltar. Frigideiras das mais diversas, como a de maturi (castanha-de-caju-verde), as moquecas, o xinxim de galinha, o frito de capote e a reconfortante canja de galinha faziam parte do cardápio semanal da casa. Na doçaria, a ambrosia, a cocada branca e os doces de banana finalizavam as refeições com classe. Mas não era só isso. Ao redor da piscina, Jorge Amado adorava tomar sorvete e, ao contemplar a natureza, planejar um próximo livro.

Mas outro fato bem interessante da casa que virou museu é notar a visita de pessoas de diversos países, lugares do Brasil e faixas de idade. É possível os fãs verem como viveram e se inspiraram dois de nossos mais celebrados escritores, parte de nossa história e da rica Bahia. Ali, nos quartos, na cozinha, na varanda ou na sala e pelos jardins, é só relaxar e se sentir dentro de um romance que só baianos como esses sabem escrever.

01/12

Confira as receitas de doce de banana de rodinha, sarapatel e bolo de tapioca.

Matérias Relacionadas