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A dama do vinho

Inglesa que mais entende de bebida no mundo, Jancis Robinson defende o retorno à vinificação pré-industrial e comemora a expansão mapa-múndia vinícola

Por: Prazeres Da Mesa | 4.mar.2016

Por Marta Barbosa Stephens, de Londres

Fotos: divulgação e Charlie Bibby/Financial Times

Jancis RobinsonEm um ano de trabalho, Jancis Robinson degusta cerca de 10.000 vinhos. Nascida em Carlisle, norte da Inglaterra, e residente em Londres, ela faz e desfaz malas todos os meses, somando entre 15 e 18 viagens internacionais ao ano. Uma das mais respeitadas especialistas na bebida do mundo, Jancis é editora de The Oxford Companion to Wine (cuja quarta edição foi lançada em setembro), coautora de The World Atlas of Wine  (sétima edição lançada em 2013) e colunista no Brasil da revista Prazeres da Mesa. Da Síria ao leste canadense, da França ao México, não há território com produção de vinho em destaque que Jancis não finque os pés e o paladar. O forte dela não é pontuar rótulos, mas descrever de forma precisa e apaixonada as nuances que uma taça é capaz de despertar. Entusiasta da moda dos vinhos naturais e das novas regiões produtoras beneficiadas pelo aquecimento global, Jancis fala na entrevista a seguir sobre suas apostas no mapa-múndi da bebida. Reclama do excesso de ênfase na harmonização com comida, diz que o Chile anda oferecendo melhores taças do que a Argentina e até demonstra entusiasmo com as vinhas brasileiras. E não faz segredo sobre a casta do coração: em casa, quando pensa em abrir uma garrafa que lhe traga conforto, é um Riesling que lhe ganha.

Mesa Tendências – Onde estão os melhores vinhos, os com mais personalidade: Chile ou Argentina?

Jancis Robinson – Que pergunta política! Tendo visitado os dois países recentemente, senti-me mais entusiasmada no Chile do que na Argentina – mas isso pode ter sido, em parte, em razão das diferentes perspectivas econômicas gerais dos dois países. 
O que é particularmente emocionante sobre o momento do Chile 
é que o mapa está se expandindo tão rápido, incluindo regiões mais frias, ou porque estão no sul do país, ou fortemente influenciadas pelo Pacífico, ou (talvez com o maior potencial 
de todos) no alto dos Andes. Ao mesmo tempo, uma nova geração 
de produtores está aproveitando as vinhas velhas em Maule 
e Itata, produzindo vinhos muito diferentes daqueles já feitos 
com as variedades Cinsault, Carignan e Pais, utilizando 
o conhecimento de vinificação moderna. Claro que existem problemas em algumas regiões onde eles estão ficando sem água, por isso não são apenas boas notícias.

E sobre a Argentina?

Na Argentina, há um enorme potencial, mas provavelmente há mais para realizar. A indústria do vinho talvez tenha sido um pouco protegida da necessidade de se reinventar devido ao grande sucesso que foi o Malbec argentino nos Estados Unidos e no no Canadá. Mas isso vem mudando um pouco e provavelmente eles precisam evoluir a uma taxa ligeiramente mais rápida. Os Malbec estão iluminados, o que é bom, e provei alguns Petit Verdot particularmente bons, para minha surpresa. 
Sou fã do Chardonnay argentino também, embora ambos – Chile e Argentina – pareçam valorizar o Sauvignon Blanc mais do que Chardonnay. Um erro, em minha opinião.

O estilo americano de vinho ainda dita as regras no mercado?

Acho que não. Como editora do The Oxford Companion to Wine e coautora do The World Atlas of Wine, estou bem ciente das tendências ao redor do mundo e posso informar que a orientação global é quase uma reação contra os vinhos muito alcoólicos, com carvalho em demasia e alta concentração. Hoje em dia, os consumidores e os produtores estão procurando mais frescor e transparência, os vinhos que expressem mais a vinha do que a vinificação técnica – criações que realmente mostrem distinção geográfica. Também considero impreciso lançar o velho paradigma de “fruta bomba” como americano. Robert Parker e Wine Spectator parecem favorecer esse estilo, mas há um forte novo movimento de profissionais americanos e entusiastas que comemora positivamente o estilo de vinho mais fresco.

Há uma tendência de retomada de métodos de vinificação clássicos, principalmente os franceses?

Não diria de métodos franceses, já que os produtores daquele país têm adotado modos de vinificação tecnológicos também. Mas, sim, podemos falar de um retorno à vinificação pré-industrial. Eu certamente concordo que a grande mudança é no sentido de uma intervenção mínima, ou pelo menos reduzida, na adega e na vinha. Muito menos agroquímicos, os níveis de enxofre mais baixos, menor uso de enzimas, nutrientes de levedura, e assim por diante. Um aumento na utilização de leveduras naturais do ambiente, em vez de cultivadas. No extremo, tem-se um vinho natural. Produtores tradicionais de todo o mundo estão tentando reduzir a interferência em vinha e na adega, como testemunha o aumento da produção de vinhos orgânicos e biodinâmicos. Mesmo os Château Latour e Château Palmer 2014 têm sabor um pouco diferente graças à adoção da viticultura biodinâmica.

Jancis Robinson

Qual foi o último vinho degustado que você não esqueceu?

Leroy 1955 Musigny: rubi muito pálido. Leve, fresco e um pouco seco, com acidez acentuada. Mineralidade maravilhosamente rica e cheia de energia. Transparente, como se estivesse na academia fazendo exercício. Mas não tão doce como energéticos. Firme e estruturado, com acidez bem marcada. 19,5/ 20 pontos. Ele foi um dos grandes vinhos servidos na celebração do 60o aniversário do vintage de Lalou Bize-Leroy, da Domaine Leroy.

A preocupação em harmonizar comida e vinho 
é realmente importante?

Sinto que se dá muita ênfase à importância disso. Claro que é maravilhoso se você sente que tem a combinação perfeita, mas se o jogo é menos do que isso, nada terrível acontece! E, se você achar por acaso que o casamento realmente não funciona, pode tomar um gole de água ou comer um pedaço de pão entre as garfadas. Meu medo é que as pessoas novas no mundo do vinho se sintam intimidadas pelo medo de começar “errado”. Precisamos fazer com que essas pessoas se sintam mais e não menos relaxada sobre o vinho. Eu também acho que, uma vez que temos um pouco de experiência, temos uma tendência 
natural para escolher rótulos e comidas que vão juntos, mesmo sem estar ciente do processo. Se você sentir vontade de comer X e beber Y, as chances são de que X vai combinar com Y. Claro, se você estiver em um restaurante com três estrelas no Michelin, o menu e a adega devem ser intimamente conhecidos pelo sommelier, que deve ser capaz de recomendar três vinhos a preços diferentes que representam combinações perfeitas – mas isso é uma circunstância especial!

Quais as novas regiões vinícolas que você aposta?

Estou muito interessada no potencial do México, que deve, eventualmente, fazer alguns vinhos muito interessantes. E é tentador pensar em todas as partes do Oriente Médio, e algumas da África do norte, que poderiam fazer grandes vinhos se o Islã não fosse a religião dominante. A Turquia tem um grande potencial, mas há certo 
movimento antiálcool lá. Provei um grande vinho proveniente da Síria 
(Bargylus vermelha). E os vinhos do leste canadense estão ficando 
cada vez melhor graças à mudança climática.

E sobre o Brasil? Concorda que temos futuro, principalmente na produção de espumantes?

Os vinhos espumantes foram o melhor que já provei até agora, mas tenho certeza de que não há razão para que o Brasil não faça muito bem com tintos e brancos se os lugares certos forem encontrados. Suponho que o mercado de vinhos brasileiro pode tirar proveito de todo o esforço de chilenos e argentinos em exportar para o Brasil. Assim, o mercado interno deve ser bastante competitivo. E, em termos de exportações, Chile, Argentina e mesmo Uruguai estão muito mais à frente.

Jancis Robinson

Qual sua opinião sobre a produção vinícola na Inglaterra?

Finalmente, estou orgulhosa do vinho inglês. Temos um pouco de espumante seco e refrescante extremamente bem-feito, produzido 
à imagem de Champagne, mas com maior acidez e sabores 
mais diretos e limpos. O espumante inglês tem um estilo próprio. Embora, infelizmente, seja feito em pequena escala em terras 
muito caras, por isso nunca vai ser barato. Entre minhas 
vinícolas inglesas preferidas estão Bride Valley, Gusbourne, Hattingley, Nyetimber e Ridgeview.

As mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global 
já refletem nas garrafas inglesas?

Definitivamente nos vinhos ingleses e também nos alemães e nos do leste canadense. E eu também já provei alguns vinhos decentes da Holanda.

Então é certo que o espumante inglês pode se tornar um dos melhores do mundo?

Acho que é necessário muito tempo até que a Inglaterra produza algo com a qualidade e a complexidade dos melhores champanhes, mas o espumante inglês tem um estilo muito distinto. Tenho certeza de que vai se estabelecer internacionalmente.

Em 2010, um texto seu contava sobre a dificuldade em produzir 
um bom vinho tinto na Inglaterra. Ainda é essa sua opinião?

Os vinhos tranquilos estão cada vez melhores por aqui e podem 
ser decentes quando nosso tempo coopera, mas vinhos tintos e brancos com bom corpo ainda são raros na Inglaterra.

Jancis Robinson

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