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A majestosa Setúbal

Licorosos deliciosos, brancos cheios de frescor e tintos com grande potencial de guarda são o cartão de visita dessa linda região de grandes vinhos

Por: Prazeres Da Mesa | 20.mar.2017

Por Maurice Bibas, de Portugal
Fotos Bruno da Motta Salles Barreto e divulgação

Setúbal

Pouco conhecida pelos brasileiros, a Península de Setúbal tem, além dos encantos naturais das regiões costeiras – com praias de areias brancas e finas –, tesouros gastronômicos nos pratos e nos vinhos. As iguarias vindas do mar, por exemplo, como o choco – lula de corpo gordo, mas com tentáculos pequenos – e a sapateira, um caranguejo enorme que chega a pesar mais de 2 quilos, iguarias deliciosas. A Península de Setúbal está localizada a cerca de 50 quilômetros ao sul de Lisboa, tendo como limite ao norte o estuário do Rio Tejo, e ao sul, Cercal. O Rio Sado, por sua vez, banha o Porto de Setúbal. Além da excelência de seus peixes e pescados, a região tem forte tradição vitivinícola. Ela acolheu as primeiras vinhas da Península Ibérica cerca de 2.000 a.C. Mas foi com a chegada dos fenícios e dos gregos, após o século VIII a.C., que a arte de fazer vinho e de bebê-lo ganhou outras perspectivas.

A romanização da Península Ibérica contribuiu para a modernização da cultura de vinhas e suas técnicas. Com a ocupação muçulmana no século VIII, apesar de o Alcorão proibir o consumo de álcool, as autoridades permitiam a cultura da vinha e a produção de vinhos que serviam para importantes trocas comerciais, na época, uma de suas principais fontes de exportação. A partir do século XV, com os descobrimentos portugueses, alargou-se o âmbito das exportações e sua produção ganhou o mundo. A aliança comercial de exportação de rótulos portugueses para a Inglaterra em 1381 foi a alavanca decisiva para que o vinho fortificado Moscatel de Setubal ganhasse fama internacional.

Hoje, a Península de Setubal representa 8% da produção total de vinhos em Portugal, atrás do Douro (23%), Alentejo (20%), Lisboa (14%), Beiras (12%) e Minho (11%).

Terroir especial

O clima na região é misto, subtropical e mediterrâneo. Em seu subsolo predominam materiais argilo-calcários e a proximidade do mar vai imprimir sua personalidade não só nos vinhos generosos, mas também nos excelentes brancos e tintos de mesa. Seus vinhos de qualidade se enquadram em duas categorias:

• Denominação de Origem (DO), quando os vinhos estão ligados a uma determinada região, local, ou denominação tradicional.

• D.O. Setubal, aplicada exclusivamente ao vinho fortificado branco, produzido com pelo menos 67% da casta Moscatel de Setúbal. E, nos tintos, com pelo menos 67% da casta Moscatel de Setúbal Roxo.

A D.O. Palmela, regulamentada em 1989, engloba a mesma área geográfica da D.O. Setubal, mas se aplica aos vinhos tranquilos, tintos elaborados com um mínimo de 67% da casta Castelão e os brancos em que predominam as castas Fernão Pires, Moscatel de Setúbal e Arinto.

Uvas emblemáticas

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Moscatel – É uma das uvas mais antigas. Sua origem vem da Moscato de Alexandria, encontrada no Egito ou na Grécia. Resulta em vinhos extremamente aromáticos, principalmente de pêssegos, damascos e cítricos, além de notas florais. Em Portugal, o Moscatel é o ícone da Península de Setúbal, responsável pelo Moscatel de Setúbal branco e o Moscatel Roxo, ambos vinhos fortificados com adição de álcool vínico.

Castelão – Trata-se de uma uva tinta, autóctone, conhecida no passado como Periquita, nome que tem origem na propriedade Cova da Periquita, localizada em Azeitão, onde a José Maria da Fonseca a plantou por volta de 1830. Durante muitos anos, a Castelão resultava em um vinho popular, de qualidade mediana. Ela representa 52% da área plantada na Península. Porém, nos últimos anos, com o aperfeiçoamento das técnicas de cultivo e maior conhecimento dos terroirs, muitos viticultores optaram por elaborar vinhos de qualidade superior usando parreirais de Castelão com clones modificados para fornecer a qualidade exigida. E a qualidade chegou. Fiquei impressionado com o porte de alguns vinhos tintos elaborados com a Castelão, que não ficam devendo nada aos melhores tintos do Douro ou do Alentejo. Na visita às vinicolas, destaquei alguns tesouros que valem a pena.

Herdade de Gâmbia

A pequena vinícola com apenas 34 hectares de vinhedos se insere em uma grande propriedade em plena reserva natural do estuário do Rio Sado, que aloja um dos mais importantes santuários de aves migratórias. A empresa familiar desenvolve atividade agroflorestal desde 1917 e em sua área encontram-se principalmente Sobreros (a árvore que fornece a casca da qual é extraída a cortiça para a confecção de rolhas), pinheiros de pinhão comestível e pastos de bovinos e ovelhas, cujo leite serve para a confecção do maravilhoso queijo de Azeitão. Fui recebido pelo enólogo Nuno d’Orey Cancela de Abreu, que, após uma breve visita, nos convidou para uma degustação de quatro vinhos – todos levam no rótulo a foto de uma ave migratória (flamingo, cegonha, colhereiro, garça ou pato). O branco elaborado com Moscatel Graúdo e Fernão Pires mostrou bom equilíbrio, acidez e persistência.

Venâncio da Costa Lima

A adega localiza-se na Quinta do Anjo, em Palmela. Em 2014, a propriedade celebrou 100 anos de existência e está atualmente em um processo de reformas para modernização e ampliação das instalações. Joana Vida é a enóloga da casa e trabalha em parceria com o enólogo Fausto Lourenço. A vinícola produz aproximadamente 3 milhões de litros de vinho por ano em uma gama que vai desde mesa aos D.O. Setubal e Palmela.

Destaque para o D.O. Moscatel de Setubal Reserva 2011, que ganhou o prêmio de ouro no concurso Muscats du Monde. Esse Moscatel estagiou dois anos em depósito e cinco anos em pipas de carvalho francês e revelou aromas intensos de uvas-passas, frutas secas e mel.

Quinta do Piloto

No início do século XX, Humberto da Silva Cardoso comprou três grandes propriedades em Palmela e construiu as adegas Quinta do Piloto e da Serra, chegando a produzir 4 milhões de litros de vinho, que vendia a granel. Hoje, na quarta geração dos Cardoso, o enólogo Filipe toca o negócio e só faz vinhos de uvas próprias oriundas de aproximadamente 200 hectares de vinhas, destacando 35 hectares de vinhas velhas com 40 a 70 anos. Usam os métodos tradicionais de vinificação da região, com base na utilização de recursos naturais, preservando o ambiente e minimizando os gastos de energia. Assim, a iluminação é natural, as grossas paredes asseguram a temperatura interna amena e o conceito da gravidade é utilizado para os deslocamentos das uvas e a transfega dos líquidos. A Quinta do Piloto é guardiã da tradição de Palmela. É nela, com o primeiro mosto de cada colheita, que é feito o vinho que será servido na missa das paróquias da região. Ela também produz o primeiro vinho do ano, oficializando a temporada no primeiro domingo de setembro. Degustei cinco rótulos:

• Piloto Collection Roxo 2014, vinificado em branco, foi elaborado com a casta Moscatel Roxo, que, após a fermentação, passou por filtros de carvão ativo para a retirada da cor. Mostrou aromas florais, notas minerais intensas e leve salgado.

• Piloto Reserva 2014, elaborado com Arinto e Antão Vaz e Roupeiro, fermentado em barricas de carvalho francês com batonnage e afinamento de seis meses em barricas.

• Piloto Collection Touriga Nacional 2013, prensado em lagares com pisa automática.

• Piloto Cabernet Sauvignon 2013, prensado também em lagares com pisa automática e estágio em carvalho francês por 12 meses.

• Piloto Reserva Tinto 2012, elaborado com uvas Castelão de vinhas velhas, com estágio de 14 meses em barricas de carvalho. Mostrou aromas de ameixa, frutos silvestres, pimentas verdes e pretas e notas sutis de lavanda. Na boca, os taninos são macios e de excelente qualidade.

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Casa agrícola Horácio Simões

Vinícola centenária, gerida pela terceira geração da família, situa-se na Quinta do Anjo, em Palmela. Os enólogos são Horácio Reis Simões e Luis Camacho. A vinícola é a responsável por preservar o Moscatel Roxo na região. Possui 35 hectares dessa casta, com rendimentos muito baixos. Produz dois vinhos regionais tintos e brancos e três D.O.C., Moscatel de Setúbal, Moscatel Roxo e Tinto Palmela. Destaque para o Excellent, um Moscatel Roxo, blend dos melhores vinhos das safras de 2001, 2003 e 2005. Impressiona pela potência e qualidade aromática, revelando aromas evoluídos de frutas secas e mel. Na boca, a excelente acidez atenuou a sensação de elevada doçura e revelou persistência gustativa muito longa.

Casa Hermelinda Freitas 

Iniciou suas atividades em 1920, dedicando-se exclusivamente à produção e à comercialização de vinhos a granel. Uma curiosidade é que sempre foi gerida por mulheres. A atual gestora, Leonor Freitas, da quarta geração, assumiu o negócio nos anos 1990 e seu empreendedorismo, liderança e visão de futuro, catapultou a empresa com a produção de vinhos com marca própria, a Terras do Pó. Foi a empresa que mais cresceu na região nos últimos dez anos. Quando Leonor assumiu, a vinícola detinha apenas 60 hectares de terras; hoje,  possui 420 hectares de vinhas. São 25 castas e uma produção de 13,5 milhões de litros anuais. O enólogo Jaime Quendera nos ciceroneou e coordenou uma degustação de 13 rótulos de uma vasta gama de vinhos, com espumantes, brancos, tintos e Moscatel de Setúbal.

Destaques para os varietais Syrah 2012 e o Alicante Bouschet 2012. Outro que faz bonito é o Dona Ermelinda tinto 2013,  com 70% de Castelão, mais Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, cheio de potência aromática, equilibrado e com final de boca muito limpa.

José Maria da Fonseca

Fundada em 1834 foi a primeira empresa da região a registrar uma marca de vinho e a rotular garrafas, com a famosa marca Periquita, cujo nome se deve à produção feita na Casa da Periquita. Seus vinhos são vendidos no Brasil desde o século XVI. Com 650 hectares de vinhas, produz 6,5 milhões de litros por ano. A gama dos rótulos é muito extensa e tem vinhos da Península de Setúbal, Alentejo e Douro. Em 1998, um dos proprietários e enólogo, Domingos Soares Franco iniciou cinco anos de ensaios para testar a melhor aguardente vínica a ser usada para inibir a fermentação do Moscatel. Ele usou quatro tipos de aguardente: uma neutra, outra de origem da região do Cognac, outra da região do Armagnac e um quarto lote com 50% dessas últimas. Depois de cinco anos de provas, prevaleceu a do Armagnac pela sutileza, complexidade e harmonia. Destaque para o Periquita Reserva, o Hexagon, composto das castas Touriga Nacional, Syrah, Trincadeira, Tinta Cão, Touriga Francesa e Tannat; e Moscatéis Domingos Soares Franco Coleção Privada.

Adega Cooperativa de Palmela 

Fundada em 1955, reúne 300 cooperados, que plantam vinhas em 1.000 hectares que produzem entre 7 e 8 milhões de litros por ano. Como toda cooperativa, as uvas chegam em caminhões e antes de ser despejadas no lagar, passam por uma balança e por uma recepção nas quais um braço articulado pesca uma amostra das uvas e analisa o teor de açúcar e outras características. O peso das uvas e a qualidade delas são processados pelo computador que avalia o preço que será atribuído àquela entrega, o que garante a busca constante por qualidade. Destaque para o Vale dos Barris branco 2014, elaborado com Moscatel de Setúbal, e extremamente aromático, com notas de lichia e rosa.

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Quinta da Bacalhoa

A Bacalhoa Vinhos é uma das maiores empresas do setor de Portugal, presente em sete regiões vinícolas, com um total de 1.200 hectares de vinhas e 40 quintas. Produz no total mais de 20 milhões de litros de vinho por ano e detém um patrimônio de 15.000 barricas de carvalho. Palácio e Quinta da Bacalhoa estão em Azeitão, e foram consideradas as mais belas propriedades da primeira metade do século XV. Em fins do século XVI, a propriedade foi herdada por dona Maria Mendonça de Albuquerque, casada com dom Jerônimo Manuel, conhecido pela alcunha de “Bacalhau”. É provável que o nome Bacalhoa, pelo qual veio a ficar conhecida, se deva ao fato de a mulher de dom Jerônimo Manuel ser assim designada, de forma sarcástica.

Atualmente, a Quinta da Bacalhoa pertence à fundação Berardo, cujo patrono é o comendador José Berardo, protetor das artes em Portugal. A arquitetura do prédio em forma de “L” engloba o palácio onde estão à mostra peças e azulejos autênticos da época, um lago e um pequeno parreiral de 1,5 hectare de vinhas. Na degustação, comandada pela enóloga Filipa Tomaz da Costa, destaque para o branco Quinta da Bacalhoa 2014, vinho elegante e complexo; os tintos Meia Pipa 2012, Má Partilha Merlot 2011 e Quinta da Bacalhoa 2012; e para o Moscatel Roxo.

Antonio Saramago

Antonio Saramago estudou em Bordeaux e durante muitos anos foi enólogo na J.M. da Fonseca. Em 2002, criou a própria empresa. Hoje, ainda não tem suas vinhas e produz apenas 600.000 garrafas distribuídas por meia dúzia de rótulos. Entre elas, merece atenção a do A.S. 2010, 100% Castelão com um ano e meio de madeira.

Cooperativa Santo Isidro dos Pegões                  

A cooperativa foi criada em 1958 para dar suporte financeiro e técnico aos agricultores da região. Hoje, ela agrega mais de 100 cooperados que possuem mais de 1.000 hectares de vinhedos. Os vinhos produzidos nessa vinícola exibem uma coleção impressionante de prêmios nacionais e internacionais que justificam a fama de que têm alta qualidade. Seus rótulos são moldados pela enóloga Maria Inês Pimentel, com destaque para o espumante Moscatel, elaborado pelo método tradicional, com 80% de Moscatel e 20% de Arinto, e leveduras encapsuladas, que eliminam a necessidade de congelamento do gargalo para o dégorgement. Entre os tintos o Fontanario 2013 D.O. Regional, elaborado com Castelão, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, agrada bastante, com aromas de café e chocolate e muita fruta no paladar.

Herdade da Comporta

Está localizada na Península de Troia, em um braço magro de terra que avança no Estuário do Sado, nos concelhos de Grandola e Alcácer do Sal. Essa propriedade faz parte de um projeto de desenvolvimento turístico, tendo sido a vinícola fundada no início da década de 2000. A moderna vinícola e seus parreirais empregam as melhores técnicas de cultura e vinificação.

A degustação envolveu seis brancos e seis tintos, nos quais se destacaram o Herdade da Comporta Private Selection 2014 – de Arinto e Viognier; o Parus branco 2014, de Antão Vaz, vinificado sobre as borras com notas minerais e sabor levemente salgado; o Parus tinto 2011, corte de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Aragonês; e o Comporta tinto 2010, um 100% de Alicante Bouschet.

Quinta Brejinho da Costa

Na mesma região, em Grandola, visitamos essa adega pequena que produz apenas 200.000 garrafas por ano, mas com um futuro extremamente promissor. Luis Camacho Simões é o enólogo e mostra muito entusiasmo e paixão pelo vinho. O espumante que produziu pela primeira vez mostrou-se de qualidade muito boa. O rosé e os brancos também demonstraram qualidade, mas é nos tintos que vamos encontrar suas maravilhas. Caso do Costa SW 2011 – elaborado com Alicante Bouschet e Touriga Nacional, que estava totalmente fechado, apesar dos 4 anos de vida; o Quinta do Brejinho Reserva 2009 – com Alicante Bouschet e 10% de Syrah, ficou um ano em barrica e três em garrafa. Delicioso, impressionou pelo potencial de envelhecimento – deve chegar facilmente aos 15 anos.

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* A equipe de Prazeres da Mesa visitou a região duas vezes, a convite da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, e do Turismo de Lisboa. 
** Matéria publicada na edição 149 de Prazeres da Mesa

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