Prazeres da mesa

Vinhos

A VERDE E VIBRANTE MONTALCINO

Uma das mais célebres regiões vitivinícolas do mundo comemora as grandes safras e incorpora de vez a filosofia orgânica

Por: Prazeres Da Mesa | 15.aug.2016

Por Carlos Marcondes

Fotos Divulgação 

Em dez anos, todas as 208 vinícolas deverão conquistar a certificação de produção orgânica.” A surpreendente afirmação, feita com exclusividade a Prazeres da Mesa, é de Francesco Ripaccioli, vice-presidente do Consórcio dos Vinhos Brunello de Montalcino, um dos ícones italianos e símbolo da Toscana. Enólogo e proprietário da cantina familiar Canalicchio di Sopra, Francesco conta que mais de 80% de seus 17 hectares de vinhas são conduzidos por meio de práticas recomendadas pelas certificadoras e que, em dois anos, ele terá concluído todo o projeto. Esse status tornou-se tendência espontânea em dezenas de cantinas. “Montalcino quer estar à frente das mudanças e mostrar que respeitamos esse terroir premiado. Não será uma ação de marketing, mesmo porque muitos nem querem colocar a conquista nos rótulos. É uma questão de filosofia compartilhada”, afirma.

Produtores não escondem que promover a agricultura orgânica no entorno dessa fascinante cidade medieval é razoa-velmente simples, uma vez que não ocorrem muitas pragas devido ao baixo índice de chuvas – cerca de 300 milímetros por ano. Contudo, o exemplo de Montalcino pode inspirar muitas regiões no mundo, afinal, são decisões voluntárias de viticultores de um dos mais caros terroirs da Itália, em que os hectares de terras demarcadas de Brunello custam em média 700.000 euros e, ainda assim, quase não há propriedades à venda. O custo desses vinhedos está abaixo apenas de alguns piemonteses, berço de importantes Barolo.

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 Anos dourados

A notícia desse “movimento ecológico” que agrada à natureza e aos fãs de orgânicos, coincide com o ótimo momento da imagem dos Brunello no mercado, que parece ter superado de vez os impactos negativos do final da década passada, quando surgiram escândalos envolvendo fraudes com alguns importantes produtores.

O brilho atual deve-se principalmente pelos reconhecimentos estampados por críticos renomados sobre a safra 2010 (corrente) e, mais recentemente, pelos resultados preliminares da colheita de 2015, que, segundo enólogos, gerou valiosas uvas, com excelentes condições climáticas durante a colheita, em setembro e outubro. A comprovação se o vinho estará incrível só acontecerá, de fato, após ao menos quatro anos e três meses, tempo mínimo para que o vinho evolua antes de ir ao mercado (sendo dois deles em barricas de carvalho), segundo as regras estipuladas pelo consórcio.

Giacomo Neri

Giacomo Neri

Para Francesco, o Canalicchio di Sopra Riserva 2010 foi o melhor vinho elaborado pela cantina fundada por seu avô. “Foi um ano com a receita climática ideal para uma safra, com chuva adequada no momento certo e com elevada amplitude térmica, de noites frescas e dias ensolarados. A natureza foi generosa com todos por aqui”, diz o enólogo, que também elabora um ótimo Rosso de Montalcino, feito com a Sangiovese de vinhedos de Brunello.

Outro produtor que tem bons motivos para celebrar a consagrada safra é Giacomo Neri, responsável pela Tenuta Casa Nova di Neri. Seu Brunello Tenuta Nuova 2010 recebeu 100 pontos do aclamado crítico americano Robert Parker. “Foi um grande ano, que gerou vinhos elegantes, de intenso perfume e alta acidez. Sou um homem de sorte, e defino meu estilo como um tradicional atualizado”, disse Giacomo, em recente visita ao Brasil a convite da importadora Expand. Em Montalcino, apenas a família Marroneto recebeu a mesma pontuação.

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Terroir milenar

Em 2016, a invenção Brunello de Montalcino, criada pela tradicional família Biondi Santi, completará meio século de existência e este ano é o 35o desde que ela se transformou na primeira Denominação de Origem Controlada e Garantida (DOCG) da Itália. Parece pouco quando o assunto é vinho, mas a realidade não é bem assim. Até a Segunda Guerra Mundial, a região era conhecida principalmente pela branca Moscatel. E há relatos de séculos de produção vitivinícola nesse cantinho toscano. Uma das cantinas que respiram essa tradição é a Castelli Martinozzi (representada pela Verdemar), que elabora cerca de 30.000 garrafas de ótimos Brunello por safra e 30.000 de Rosso. A residência em que vive Federico Martinozzi, com seu avô quase centenário, fica em uma vila ancestral que está nas mãos da família há mais de 300 anos. Algumas partes da magnífica casa central têm meio milênio de história e ela conta com um pequeno museu, aberto a visitas programadas.

No caminho para os 12 hectares de vinhedos estão eternizados rastros do que foi uma estrada etrusca com mais de 3.000 anos de história. As vinhas ficam a uma altitude média de 450 metros, têm cerca de 20 anos e produtividade de 6 toneladas por hectare, no caso dos Brunello. O 2010 é outro bom exemplo do que essa safra concebeu na região, com aromas de cerejas frescas e com ótima concentração em boca. Segundo Federico, 2015 foi ainda melhor que a safra corrente, próxima à perfeição.

 Raios do oriente

A crise de 2008 que atingiu também o mercado de vinhos só não causou mais danos em razão dos novos enófilos que surgiram com potencial comprador de rótulos valiosos. Foi a China que aliviou os anos difíceis. O cenário incentivou a prestigiada Castiglion del Bosco a focar os holofotes em Hong Kong, reservando a ela, com exclusividade, a melhor parcela de seu principal vinhedo: o Campo del Drago.

São produzidas apenas 880 garrafas por safra, ilustradas por artistas renomados, e vendidas a 800 euros cada uma. “Queríamos mostrar que estamos comprometidos com esse mercado e a forma mais impactante é oferecendo o que temos de melhor”, afirma Roberto Ruscito, responsável pela comunicação da cantina, que também caminha para a certificação orgânica. No Brasil, ela é representada pelas importadoras Oba, Angeloni e Via Vini.

A Castiglion del Bosco, também no caminho da certificação orgânica, é famosa não só por ser o quinto principal produtor de Brunello em hectares mas também por sua vila histórica, que conta com um dos mais luxuosos hotéis do interior da Toscana, chancelada pela exclusiva rede Rosewood. Da magnífica piscina tem-se uma das vistas mais espetaculares do Vale de Orsia, onde Montalcino e outras medievais de sonhos estão preservadas como Patrimônio Mundial da Unesco.

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Gastronomia e refúgio

Drogheria Franci – Um dos mais descolados endereços de Montalcino é excelente opção para quem busca uma experiência de harmonização regional. São cerca de 1.000 rótulos, sendo mais da metade de toscanos, compatibilizados por uma cozinha à base de produtos orgânicos. Recentemente, o proprietário, Fabio Tassi, também produtor de vinhos sem agrotóxico, inaugurou cinco quartos pitorescos para quem busca hospedagem no coração da cidade e ao lado de uma incrível adega. locandafranci.com

Boccon di Vino – O equilíbrio da rusticidade da gastronomia local com toques delicados impressos pelas mãos da simpática família Fiorani. A experiência imperdível é ampliada com o charme do local e uma magnífica vista do Vale de Orsia. boccondivinomontalcino.it

Canalicchio di Sopra – A vinícola também oferece confortáveis hospedagens aos pés da cidade, em um conceito que eles chamam de Wine Relais. A pousada já recebeu mais de 200 brasileiros apenas neste ano. canalicchiodisopra.com

Castiglion del Bosco – Em 2010, a suntuosa propriedade inaugurou o primeiro campo de golfe privado da Itália. A hospedagem oferece suítes e vilas, todas suntuosas, mas não para todos os bolsos. castigliondelbosco.com

Terra de Sangiovese

Ela é símbolo da Toscana. São mais de 1.000 clones, e o consórcio
de Montalcino não impõe limites, mas uma das mais usadas é a BBS11, variedade que se adequa a vários micro-terroirs da emblemática região. As principais regras para fazer um Brunello é respeitar os limites liberados para o plantio de Sangiovese e apenas soltá-lo ao mercado envelhecido por pelo menos quatro anos e três meses de evolução.

A DOCG reserva 2.000 hectares para Brunello e 500 para Rosso. Estudos apontam que há potencial para o cultivo em 27.000 hectares, mas desde o ano 2000 o consórcio mantém o mesmo limite geográfico, como forma de manter a qualidade desse ícone italiano.

 A VERDE E VIBRANTE MONTALCINO

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