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Abençoada pelos monges

Sorver uma taça da belga Chimay é um dos grandes prazeres etílicos. Quando envelhecem ficam ainda mais ricas e complexas, como mostra essa degustação vertical

Por: Prazeres Da Mesa | 28.nov.2016

Por André Clemente e Edu Passarelli
Fotos RJ Castilho

Mundo de espuma_Abençoada pelos monges

Apesar de a maioria das cervejas ser melhor quando mais jovem, existem alguns tipos e marcas que permitem a guarda e podem evoluir no período de estocagem. Em regras gerais, para mudar de paladar com a guarda, de forma benéfica, a cerveja deve ter volume alcoólico maior ou igual a 7%, usar maltes de coloração escura e preferencialmente ser refermentada na garrafa (o fermento ajuda a diminuir os impactos de oxidação) e armazenada com tampa de rolha. Os maltes escuros, por apresentarem sabores e aromas mais intensos, podem mascarar eventuais off-flavors surgidos durante o envelhecimento, assim como a força alcoólica age como um conservante para a bebida.

A belga Chimay Grande Reserve, uma das melhores cervejas do mundo, está nessa categoria. Para conferir toda essa teoria na taça, Mundo de Espuma organizou uma degustação com dez safras de cerveja, vindas da adega do colunista Edu Passarelli, que comemora 10 anos de vida de seu blog cervejeiro Edu Passarelli Recomenda. As escolhidas foram as das safras 2001, 2003, 2004, 2008, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Começamos pelas mais jovens até chegar à edição mais longeva.

Um time de apreciadores e especialistas foi chamado para ajudar na tarefa: Marcel Miwa e André Clemente (Prazeres da Mesa), Rodrigo Kimura (sommelier de cervejas e só cio da Quark Sports), Luiza Tolosa (Cervejaria Dádiva), Norberto D’Oliveira (Frangó), Marcio Cimatti (Blog A Janela Laranja). O palco do encontro foi o restaurante português A bela Sintra.

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A safra 2015 apresentou a coloração marrom-acastanhado, com espuma de boa formação e durabilidade, um clássico do estilo. No aroma, destacavam-se notas de caramelo, bala toffee, frutas secas e banana-passa, com algo que remete a passas ao rum. O paladar era condizente com o aroma, trazendo aquecimento alcoólico no retrogosto. A edição 2014 trazia notas semelhantes às da safra anterior, porém, com nuances frutadas mais intensas, como destacou Luiza Tolosa. O ano de 2013 apresentou álcool mais destacado no aroma, além de notas intensas de frutas secas. Rodrigo Kimura citou em sua avaliação a presença de aroma remetendo a guaraná, na edição de 2012, além de álcool bem inserido e toffee. Para Marcel Miwa, a Grande Reserve 2011 tinha presença de algo láctico, apresentava frescor, notas untuosas, textura delicada e frutas vermelhas. A garrafa de 2010 repetia o aroma e o sabor da 2011, porém, com notas mais intensas de oxidação remetendo a papelão. A partir da edição 2008, a oxidação se mostrou mais presente, e a cerveja passou a apresentar notas que remetiam a Jerez, com percepção de sabor e aroma bem diferentes da edição mais jovem. Norberto d’Oliveira destacou a baixa carbonatação, oxidação e notas intensas de frutas vermelhas na edição 2008, enquanto Edu Passarelli notou semelhança com vinho do Porto, groselha e pouco gás na edição 2004, sua predileta na degustação. André Clemente classificou a edição 2003 como a “mais cansada”  entre as provadas, com oxidação intensa e poucos sabores remetentes à receita original. Surpreendeu a todos a edição 2001, que trazia notas florais, de caramelo, frescor, toffee, frutas vermelhas e oxidação.

Ficou claro para o grupo de degustadores que as Chimay de guarda se dividiram em dois grupos: os cinco primeiros anos, com sabor mais associado ao da cerveja em sua apresentação jovem – mais traços de oxidação, e as com mais de 5 anos de vida, que já apresentavam oxidação intensa, porém, demonstrando as notas benéficas que essa oxidação pode trazer para as cervejas do estilo.

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 Estilo trapista

A cervejaria belga Chimay é a mais conhecida entre as cervejarias trapistas espalhadas pelo mundo. Seu rótulo Grande Reserve, nome dado à versão em garrafas arrolhadas de 750 mililitros de sua Belgian Strong Dark Ale, inicialmente foi produzida como edição comemorativa de Natal, e essa é a razão de vir gravado no rótulo o ano de fabricação. Atualmente, é fabricada durante todo o ano, porém, a tradição de grafar o ano de produção no rótulo continua, mais em virtude de sua capacidade de envelhecimento. Tem 9% de teor alcoólico e quando jovem tem notas que remetem a vinho do Porto, toffee, caramelo, frutas vermelhas e frutas secas.

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