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Jantar beneficente reúne 22 estrelas da gastronomia em prol das vítimas da tragédia da serra fluminense

Por: Prazeres Da Mesa | 21.feb.2011

Por Constance Escobar, do Rio de Janeiro, RJ 

Fotos Alexander Landau

Nas primeiras horas da noite do último domingo (20), os salões do Le Pré Catelan ainda dormiam, mas já se ouvia, ao longe, o sotaque francês do mâitre Jean-Pierre Fivria. A firmeza no tom com que se dirigia à sua equipe deixava claro que aquela não era uma noite qualquer. Poucos passos adiante, nada menos que 22 chefs preparavam-se para entrar em ação. Entre eles, alguns dos mais importantes nomes da gastronomia brasileira. Definitivamente, não era uma noite comum. E o motivo que os unia naquela cozinha era nobre. 

No início de janeiro, um volume de chuvas sem precedentes destruía parte da serra fluminense, em cenas que chocaram o país e que, certamente, permanecerão na memória de todos aqueles que guardam laços afetivos com a região. Era o caso do chef carioca Felipe Bronze, que viu uma família inteira de pessoas amigas desaparecer nas águas. E vislumbrou no seu ofício uma forma de sair do torpor em que se viu mergulhado por alguns dias. Pegou o telefone, começou a convocar chefs amigos, como Claude Troisgros e Roland Villard e, horas depois, viu nascer um grande projeto.  

Em poucos dias, tinha uma tropa de chefs a postos para organizar um jantar beneficente, com renda inteiramente revertida para as vítimas da tragédia. “Me impressionou como conseguimos reunir esse time rapidamente. Ninguém pensou duas vezes. Para cada um que eu ligava, a resposta era sim. Foram tantas pessoas querendo ajudar, participar, que muita gente acabou ficando de fora, por pura falta de espaço na cozinha do restaurante. Mas a ideia é fazer outros jantares como esse, pelo menos um por ano”, conta Bronze.  

Os chefs envolvidos concentraram-se na elaboração de um cardápio único, fruto de um trabalho coletivo, sem assinaturas individuais. Todos participaram de sua concepção e o mesmo se daria na execução daqueles pratos: 44 mãos em sintonia, como numa espécie de orquestra que, em vez de violinos e violoncelos, empunhasse facas e panelas. Esse era o espírito daquele jantar: as individualidades cedendo espaço ao coletivo.  

E, assim, ali estavam 22 mentes unidas na intenção de ajudar. Cada um dos chefs doou, não apenas seu tempo e sua dedicação, mas todos os insumos necessários à execução de sua participação no jantar. A seu lado, contariam com uma equipe de cozinheiros, auxiliares e garçons, igualmente comprometidos, engrossando as fileiras da solidariedade. Toda a colaboração era necessária para que aquele projeto se concretizasse.  

Sob o comando do anfitrião Roland Villard, o time de peso parecia voltar aos bancos escolares. Olhares atentos no mestre e nas orientações que deixava na lousa. As feições revelavam a tensão dos primeiros minutos, tal como nos momentos das grandes estreias. Embora não houvesse ali principiantes, aquele jantar era para todos eles, em certa medida, uma primeira vez. Nunca antes haviam estado todos juntos, tantas gerações, em uma mesma cozinha. E, no entanto, cada um assumia seu posto com naturalidade, revelando uma intimidade digna de velhos parceiros de trabalho. Não houve espaço para mãos vazias ou egos inflados. Um verdadeiro mutirão tomou corpo nas bancadas do Le Pré Catelan.  

Aos poucos, a tensão do início da noite dava lugar à curiosidade com que cada um observava o trabalho do outro, ao entusiasmo da troca de ideias e à evidente satisfação de poder fazer parte daquela engrenagem. Jun Sakamoto, conhecido por seu jeito um tanto introspectivo, surpreendia os parceiros ao estampar um largo sorriso no rosto, não escondendo a felicidade em estar ali: “Vivemos enfurnados em nossas cozinhas, correndo atrás dos próprios problemas e um motivo forte como esse acabou nos reunindo aqui, permitindo esse intercâmbio fantástico. Sem egos, todos unidos.”  

No salão, refletia-se o espírito de grupo que tomou conta da cozinha. Entre os comensais, era palpável a sensação de testemunhar um encontro ímpar, como sintetizou o empresário José Mário Osório: “Tivemos um jantar sensacional, mas o mais impressionante pra quem esteve aqui foi sentir a união entre esses chefs, os maiores do Brasil, e o carinho com que tudo isso foi realizado”. 

Ao final do jantar, a cozinha estava em festa. Entre risos e abraços, os chefs se entreolhavam na certeza de terem presenciado um acontecimento único. “Tantos chefs trabalhando felizes, como uma grande família. Confesso que, com toda a minha experiência na gastronomia, eu nunca vi nada parecido. Foi uma noite emocionante, que acredito que ninguém vai esquecer”.  O mesmo sentimento dava o tom da fala de Roland Villard: “A gastronomia é feita de emoção. Emoção da descoberta, do encontro, de compartilhar uma mesma paixão e de, às vezes, realizar coisas que transcendem a própria gastronomia. Foi o que aconteceu aqui hoje. Há alguns poucos momentos excepcionais na vida de um cozinheiro. Esse jantar, certamente, foi um desses momentos na minha vida”. 

Certamente, ali escreveram uma importante página, não apenas nas suas histórias, mas também na história da gastronomia brasileira. Nas palavras de Alex Atala, a tradução do significado daquela noite: “Uma das tendências da gastronomia mundial hoje é não mais trabalhar sozinho, é trabalhar em coletivo. Isso levou países como a Espanha e a França a serem o que são. Acho que esse esforço de sair do lugar da gente, se deslocar, ir até outra cidade, como alguns de nós estamos fazendo hoje, também faz parte disso. Na noite de hoje, há uma causa nobre a nos reunir. Mas enxergo uma outra motivação dentro dessa motivação primeira. Sinto que toda a gastronomia brasileira está caminhando para um ponto convergente.” 

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