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Birita fina

Reverenciada por uma legião de cachaciers, o americano Steve Luttmann fala sobre a branquinha que está ensinando os americanos a cultura da "kuai-pur-een-ya"

Por: Prazeres Da Mesa | 17.apr.2009

POR: ROBERTA MALTA
FOTOS: DIVULGAÇÃO

Engraçado pensar que um americano produza cachaça. Mais engraçado ainda saber que o produto está entre os mais festejados pelos cachaciers (profissionais especializados no destilado de cana e no serviço da bebida) gabaritados da área. Mineira de nascimento e com nome de bairro carioca, parece que a cachaça Leblon veio mesmo para ficar. Há quatro anos no mercado norte-americano e um, apenas, no Brasil, a bebida produzida em Patos, no interior de Minas, é destilada em alambiques de cobre e tem direito a repouso em barris de carvalho francês. Em passagem pelo país, Steve Luttmann, o CEO (Chief Executive Officer) da empresa, conversou com a reportagem de Prazeres da Mesa.

Que imagem o povo norte-americano tem do Brasil?
Ainda a de um lugar exótico. Eles acham, por exemplo, que a capital do Brasil é Buenos Aires. Mas sabem que aqui estão as mulheres mais bonitas e a melhor festa do mundo – o carnaval.

E como eles receberam a cachaça?
Uma vantagem do americano é que ele gosta de experimentar coisas novas. Além disso, o drinque mais vendido nos Estados Unidos é a margarita, clássico cubano que leva suco de limão, tequila e cointreau, e lembra muito a caipirinha. Esta é, na minha opinião, a chave da inovação. Para ganhar ainda mais força na preferência dos copos é preciso um pé de familiaridade.

E o brasileiro? Aceita que a bebida mais emblemática do país seja produzida por um americano?
O problema é que o próprio brasileiro tem preconceito em relação à cachaça, pois a vê como uma bebida de pouca qualidade. Uma boa cachaça pode ser tão nobre quanto um vinho – ela é o champanhe nacional! E é preciso que o consumidor entenda isso. Nossa equipe está fazendo um trabalho de formiguinha. Estamos nos hotéis mais elegantes de São Paulo e do Rio de Janeiro e em restaurantes como os de Alex Atala, Claude Troisgros, Roberta Sudbrack e do grupo Fasano.

O mestre alambiqueiro de vocês é o francês Gilles Merlet, responsável entre outros destilados pelo conhaque Hennessy. Ele vem ao Brasil ou trabalha a distância?
Gilles passa de três a quatro meses no Brasil, acompanhando a safra. Fora isso, quase que diariamente são mandadas amostras da cachaça para ele não perder nem um passo do processo. É uma honra, para nós, tê-lo conosco. No mercado mundial, Gilles é para os destilados o que Michel Rolland é para os vinhos.

Em sua opinião, qual o diferencial da Leblon?
O método de destilação e a “blendagem” (preparação das misturas), que resultam em um produto bastante complexo em aromas e sabores.

Afinal, o americano sabe, ou não, fazer uma boa caipirinha?
A receita tradicional da “kuai-pur-een-ya” (ou caipirinha, como os americanos a pronunciam com seu sotaque característico) foi reproduzida em vídeos de campanha para o consumidor. Mas adaptações já estão sendo colocadas em prática. Como o americano está sempre com pressa e costuma buscar atalhos para tudo, ele também mistura a Leblon com refrigerante de limão ou suco de caixinha. Mas os barmen de lá fazem drinques fantásticos de morango com manjericão ou pepino com pimenta jalapenho e tâmaras, por exemplo.

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