Prazeres da mesa

Vinhos

CLASSICO DE TORO

Os vinhos de Numanthia, empresa do grupo LVMH, ajudam a fazer a fama da região espanhola

Por: Prazeres Da Mesa | 27.jun.2017

Por Marcel Miwa

Fotos Divulgação 

Entender os vinhos de Toro se mostra razoavelmente simples, pois eles, grande maioria tintos com o protagonismo da Tinta de Toro (Tempranillo), remetem ao animal quase homófono. Como um touro, os vinhos são robustos, potentes e com taninos musculares. Como o diretor técnico de Numanthia, Lucas Löwi, explica: “Somos vizinhos de Ribera del Duero, mas com um clima mais extremo e continental, com verão curto e forte e inverno rigoroso”.

As vinhas que resultarão em vinhos com denominação de origem não podem receber irrigação, o que força as vinícolas a baixar os rendimentos nas videiras mais jovens. A Bodega Numanthia pertence ao grupo LVMH e hoje divide o pódio com Mauro e Pintia entre os grandes nomes da região. O nome foi inspirado na história de luta do povoado de Numancia, que resistiu até a morte à invasão dos romanos em 134 a.C. Apesar da fama recente da região (a D.O. data de 1987), em especial nos anos 2000, quando se buscavam vinhos potentes e concentrados, a vitivinicultura vem sendo praticada há cerca de 2.000 anos. “No planejamento da viagem de Colombo à América, listaram os vinhos de Toro para embarcar por serem longevos”, diz Löwi. Numanthia foi fundada em 1998 pela família Eguren (conhecida por Sierra Cantabria em Rioja e mais recentemente por Teso La Monja em Toro) e, em 2008, o grupo francês LVMH assumiu o controle da vinícola e dos vinhedos. Desde 2015, o argentino Lucas Löwi é o responsável pelos vinhos, depois de comandar a Terrazas de los Andes, em Mendoza, na Argentina.

vertical - Numanthia - Clássicos de Toro

Dos atuais 83 hectares de vinhedos saem as frutas para as três linhas de vinho: Termes, Numanthia e Termanthia. O primeiro é feito com as vinhas mais jovens da propriedade, entre 30 e 50 anos de idade; Numanthia é emblemático e produzido com vinhas entre 70 e 100 anos, plantadas em pé-franco, com rendimento médio de 2.000 quilos de uva por hectare. A região não foi atacada pela filoxera por ter solo de areia e calcário, no qual o inseto não consegue completar seu ciclo de desenvolvimento. A tipicidade do vinho é dada pelo blend das 100 parcelas em que estão divididos os vinhedos na propriedade. E Termanthia, o vinho mais ambicioso da vinícola, estreou na safra 2000. É feito de apenas uma parcela de vinhedo com 4,8 hectares, situada em Teso de los Carriles, uma das partes mais elevadas da região, a 850 metros. Ali estão plantadas videiras com mais de 140 anos de idade de Tinta de Toro, pré-filoxéricas, que não rendem mais que 700 gramas de uva por planta. Os poucos e concentrados cachos são colhidos e desengaçados à mão e colocados para fermentar em barris de carvalho abertos, nos quais ocorre a pisa. O vinho é transferido para barricas novas de carvalho francês, em que fica cerca de seis meses (até terminar a malolática), antes de ser transferido para um novo conjunto de barricas novas, nas quais fica mais 16 meses (o tal 200% de carvalho novo). As trasfegas a cada quatro meses dispensam qualquer filtração antes do engarrafamento. Em um encontro exclusivo com Marcel Miwa e Ricardo Castilho, de Prazeres da Mesa, Lucas Löwi apresentou três safras de Termanthia, o mais importante vinho feito na vinícola Numanthia. São vinhos elaborados exclusivamente com Tinta de Toro, inegavelmente potentes, mas com álcool bem integrado e taninos musculares. Enquanto hoje se fala muito de sutilezas e na acidez como ponto de partida, Termanthia apresenta outra forma de construção de vinho, em que a concentração e a fruta se apoiam nos taninos. Vamos à vertical e às particularidades de cada safra:

01/12

Termanthia 2010

Fruta negra intensa e madura (cereja, licor de cereja e ameixa) parece, no nariz, com pão tostado e baunilha. O ataque na boca é bastante macio e concentrado, com sensação de textura cremosa, com muitos taninos, mas muito finos e polidos, que ganham vigor no final. A acidez é correta e suficiente para não deixar o conjunto cansativo. No final, aparecem mais especiarias da madeira e de tosta (cacau, erva-doce e cravo) com fruta madura (sem sobrematuração). Os componentes estão em equilíbrio e permitem antever um grande futuro para essa safra. Assim que os taninos amaciarem e aparecerem alguns aromas de evolução, deve figurar entre os melhores Termanthia já produzidos. 95 pontos

Termanthia 2009

Nessa safra a fruta está em fase retraída, fechada. O licor de cereja e de ameixa madura está presente, mas em intensidade menor, o que dá espaço para as especiarias se mostrarem (cravo, baunilha e erva-doce) com um toque de café com leite. Na boca, o vinho se mostra sedutor, com taninos começando a amaciar, textura levemente untuosa, menor concentração que o de 2010 e um pouco mais de acidez. Álcool, concentração e fruta se mostram mais comportados, o que deixa o conjunto mais fácil de beber, mas menos típico da região. 92 pontos

Termanthia 2007

O vinho começa a entrar em sua melhor fase. Os aromas mostram boa intensidade e a fruta negra começa a dividir espaço com os aromas de evolução na garrafa (couro e alcaçuz) e a madeira bem fundida no conjunto. Na boca, os taninos ainda estão firmes e potentes, mas servem de suporte a tanta exuberância aromática. A acidez é suficiente, no mesmo padrão de 2010. No final, os aromas de licor de cereja, tinta, alcaçuz, cravo, erva-doce e cappuccino dão noção da boa complexidade e perduram na boca por um bom tempo. 94 pontos

vertical - Numanthia - Clássicos de Toro

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