Prazeres da mesa

Reportagem, Viagens

Clássico e sofisticado

O Hotel Principe di Savoia, em Milão, na Itália, é a definição de requinte, atendimento impecável e gastronomia contemporânea com base nos clássicos do país

Por: Prazeres Da Mesa | 28.sep.2017

Por Carolina Esquilante

Fotos Carolina Esquilante e Divulgação

Parte do seleto grupo Dorchester Collection – formado por hotéis de luxo, cinco estrelas, no mundo todo –, o Principe di Savoia, em Milão, na Itália, faz jus ao rótulo e recebe os hóspedes de um jeito único. Não à toa, o ex-jogador do futebol inglês David Beckham morou no hotel durante o ano em que jogou pela equipe do Milan. Os quartos, recém-reformados, são amplos, aconchegantes e com decoração inspirada nos estilos neoclássico, veneziano e florentino. A suíte presidencial é uma atração à parte e pudemos tomar alguns drinques no local em nossa estada. Ela chega a custar 18.000 euros a diária e é ocupada por famosos, como o ator George Clooney. O espaço conta com uma enorme piscina privativa, piscina de hidromassagem e decoração com toques franceses e italianos, peças de ouro e muitos detalhes de veludo, três quartos e uma varanda com vista maravilhosa para a Praça da República. Verdadeira definição de luxo e conforto. Para os que vão a negócios, o hotel oferece salas de conferência e espaço para eventos. Para relaxar, o spa é o lugar ideal, com massagem e tratamento facial incrível.

Gastronomia de Milão 

No Il Salotto, que fica no lobby do hotel, com algumas opções de almoço e café da tarde, tivemos o primeiro contato com a culinária local, que nos conquistou e nos fez desejar ficar na Itália por muito mais tempo. O prato escolhido foi o espaguete com lagosta e salsinha desidratada. As massas italianas são simplesmente maravilhosas e acreditamos ser missão impossível experimentar alguma que não seja incrível. A sobremesa também mostrou o que nos aguardava nos próximos dias, o melhor tiramisù que já provamos. O local segue o estilo de decoração dos quartos, muito veludo, tapetes coloridos, grandes lustres, com muito charme e elegância.

Em um rápido passeio depois do almoço, deparamos com um brunch, oferecido aos domingos no restaurante principal, o Acanto, até mesmo para quem não está hospedado. Regado a boa música e ingredientes selecionadíssimos, como uma variedade de queijos, presunto di Parma, pães e bebidas, o menu fica em torno de 85 euros, com direito a taças de champanhe. O restaurante tem uma pegada chique, com área externa para os dias mais quentes e cozinha aberta para o salão. É nele também que é servido o café da manhã. São tantas as opções que é difícil escolher. A começar pelos sucos – o de morango é imperdível, bem concentrado, e o de laranja não fica atrás. Com as burratas, presuntos crus, embutidos, seleção de queijos, tomatinhos e manjericão frescos, não precisava de mais nada, mas tem ainda os pães artesanais, produzidos no restaurante, a mesa de cereais, com iogurte de todos os tipos, e as tradicionais opções de ovos – mexidos, fritos, benedicts –, do jeito que você preferir.

O menu do restaurante muda a cada estação, o do almoço nunca é o mesmo ao do jantar. Importante frisar que a ordem para cozinheiros e chefs é valorizar os produtos da estação. Visitamos o hotel no outono, e o ingrediente que estava em alta era o cogumelo. Não à toa, ele apareceu em quatro versões, em uma das entradas, durante o jantar. Foi servido em pedaços, com lascas de parmesão; grelhado sobre folhas verdes; empanado e frito; e cortado em brunoise dentro de um creme de cogumelos. Uma deliciosa combinação, que explora as diferentes possibilidades com um mesmo insumo e aproveita todas as suas propriedades e sabores.

Depois, o tradicional cacio e pepe, revisitado, com a massa extremamente al dente, e bolinha de queijo frita, em lugar de parmesão. O prato preferido do chef da casa, Alessandro Buffolino. Não bastasse escolher a sobremesa, o chef manda também uma prévia, mousse de mojito, muito delicada, na qual a acidez do limão sobressai ao doce de maneira harmoniosa para limpar o paladar. Se você é apaixonado por doces e não consegue escolher um só, pode pedir a degustação de sobremesas, que vem em miniporções. A mousse de chocolate branco com maracujá, sorbet de manga e farofinha crocante encerrou divinamente o jantar.

01/12

Almoço no mesmo padrão

No almoço, a ideia é servir pratos mais rápidos, mas não menos saborosos. O ovo orgânico, que consta no menu de entradas, é dessas coisas que ficam na memória e dão vontade de pedir bis. Ele vem com a gema bem mole, acompanhado de creme delicado de mussarela de búfala e chips de batata. Daqueles pratos que trazem felicidade. Em seguida, foi a vez de outra massa italiana icônica, o rigatoni alla amatriciana, no qual o bacon recebe a companhia de tomate, pimenta e queijo. A simplicidade perfeita. Para fechar nossa estada com chave de ouro, uma torta com geleia e sorvete de frutas vermelhas, creme de chocolate branco, farofinha e framboesa, simples e deliciosa.

O chef 

Alessandro Buffolino é a nova aposta do Principe di Savoia e tem mostrado a que veio. No comando do Acanto há pouco mais de um ano, o chef já imprimiu sua marca, colocou o Acanto no Guia Michelin e define sua cozinha como mediterrânea e rica em técnicas. Técnicas essas que adquiriu ao longo da carreira, com passagem por restaurantes estrelados, em diversos países e no convívio com chefs de renome, como o francês Michel Bras.

Para Alessandro, uma cozinha completa não tem por base apenas um país, mas assimila o que há de melhor em cada um e imprime as melhores técnicas. “Eu me inspiro nos ingredientes italianos, mas procuro colocar toques de outras cozinhas em minhas criações. Para desenvolver os menus, gosto de ir ao supermercado  para ver o que teremos de mais fresco na estação. Depois sento para degustar uma boa cerveja e vou tendo as ideias.”

Por estar na Itália, ele sempre precisa colocar massas e risotos – o prato mais típico de Milão –, mas, quando questionado sobre qual o segredo da massa italiana, o chef ri: “É uma questão cultural, isso é nosso, são os primeiros pratos com os quais temos contato na infância. Ao mesmo tempo que você não achará um restaurante japonês na Itália melhor do que os do Japão. Acho que é algo natural”.

A massa pacchero cacio e pepe, servida no jantar, é a escolhida de Alessandro, quando peço um prato que o represente. “Ela reúne a Itália e suas especialidades regionais e inclui minhas experiências de vida e trabalho. O prato tem três ingredientes principais: pasta pacchero, típica da região da Campânia, onde nasci; queijo e pimenta, típico de Roma, onde vivi muitos anos; e caldo de ossobuco, típico de Milão.”

Quanto ao fato de o restaurante Acanto estar localizado em um hotel conceituado, não intimida o chef: “Recebo pessoas do mundo inteiro, mas acredito que, quando se preza por insumos de qualidade e comida bem-feita, é impossível não agradar”.

01/12

Lugares imperdíveis em Milão

O Hotel Principe di Savoia é tão aconchegante e oferece tantas opções que não dá vontade de sair de lá. Mas Milão, a capital mundial da moda, entre outras coisas, também não fica atrás e tem pontos belíssimos para ser explorados e gastronomia única, que tira qualquer um da dieta.

Para os amantes de história, Milão é uma rica fonte. A igreja Santa Maria delle Grazie foi construída no século XV, por ordem do duque Francesco Sforza, e no refeitório está A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Após a Segunda Guerra Mundial, parte da igreja teve de ser reconstruída, utilizando pedaços que haviam sobrado, para tentar manter a decoração original.

Em frente à igreja está a Casa Degli Atellani, que pertencia a uma das famílias mais importantes da corte de Ludovico e onde está a vigna de Leonardo da Vinci. Um lindo jardim, muito verde, que Leonardo ganhou de Ludovico, enquanto pintava A Última Ceia. Originalmente, a vigna tinha mais de 8.000 metros quadrados. Parte do local foi destruído durante a guerra e a vigna foi queimada em um incêndio. Por meio de fotos e do estudo do solo, ela foi reformada e reaberta para visita em 2015.

O Castelo Sforzesco é lindo e fica há cerca de 10 minutos, andando, da Igreja Santa Maria Delle Grazie. Datado do século XV, hoje abriga museus e bibliotecas. Sua construção é magnífica.

Um marco em Milão, a catedral Duomo, construída em 1386, é de tirar o fôlego de quem a visita pela primeira vez. Localizada na praça central de Milão, tem estilo gótico, que dá vontade de admirar por horas a fio. Não deixe que as filas imensas o façam desistir de entrar e, se tiver oportunidade, suba até a torre e aprecie a vista incrível! São 157 metros de comprimento por 109 metros de largura.

01/12

Terrazza la rinascente 

Esse complexo que fica no último andar de um prédio pequeno, ao lado do Duomo, conta com uma varanda incrível, cheia de restaurantes, com boa comida e vinhos melhores ainda. O preço é incrível e a vista para o Duomo abrilhanta as refeições. É possível fazer compras de ingredientes típicos italianos no empório que fica na parte interna. Estandes de doces e da Moët Chandon fazem o maior sucesso!

Cantina Piemontese 

Tivemos uma ótima experiência na Cantina Piemontese, casa tradicional de 1908. A filosofia do restaurante é receber mesas familiares, com muito bom humor e um estilo de cozinha que respeita o meio ambiente. A casa é aconchegante, com pouca luz à noite, sofás aveludados vermelhos e verdes, decorado com alguns livros e objetos antigos. Fazem questão de ingredientes da estação, da seleção de queijos locais, de carnes compradas apenas de fazendas certificadas, de peixes frescos, nunca congelados, e de frutas e verduras escolhidas a dedo. Os pratos são simples, mas com muito sabor.

 Felix Lo Basso

O ambiente clean, todo em preto e branco, com ares de moderninho, do restaurante Felix Lo Basso chama a atenção dos clientes desde a chegada. Mas basta uma olhada pela janela, com a incrível vista para o Duomo, para saber que será uma experiência memorável. Precisa dizer que ele tem uma estrela Michelin? Pois é, com tudo a seu favor, o restaurante faz jus à fama que tem. Instalada no hotel Town House Duomo, a casa é comandada pelo chef Felice Lo Basso. As entradinhas – escolhidas para nosso almoço – impressionam pela beleza e pelo colorido. Uma bolinha de chocolate com recheio de foie gras, uma trouxinha de queijo e uma esfera amarela com recheio de queijo. Na sequência, pratos bem elaborados, com ingredientes que combinam perfeitamente entre si e que causam euforia e o desejo pela próxima colherada.

Destaque para o creme de feijão com escarola, o pão italiano e a anchova defumada. Supersaboroso, leve, que mistura o crocante do pão com a delicadeza do creme, o azedinho da escarola e o frescor do peixe; e para as vieiras, cobertas com crispy de bacon, creme de couve-flor e geleia de radicchio, outro prato que mescla a delicadeza com o sabor mais marcante da geleia, além da suavidade do creme de couve-flor. E, claro, para o risoto, marca registrada de Milão, servido com creme de abobrinha, pó de tomate e pó de manjericão.

Não deixe de provar as sobremesas, que seguem a mesma linha de delicadeza e exatidão dos pratos. O choco coco é composto de apenas quatro itens, que são sucesso garantido. Mousse de chocolate, sorvete de coco, coco ralado e placa de menta. Vale a pena colocar o local na lista de lugares para conhecer em Milão, pela comida delicada, saborosa e com apresentação impecável.

01/12

 Caça às trufas

É possível, se for época, agendar no Principe di Savoia uma manhã de caça às trufas, na região do Piemonte. Uma experiência divertidíssima. Confira na recepção do hotel o pacote de degustação de trufas, que muda de acordo com a estação. Ele conta com transfer, almoço, passeio pelo mercado de Alba e degustação de pratos feitos com a iguaria.

Fomos recebidos por Gian Piero Ottobrino e sua fiel companheira, a cadela Daisy. Ele conta que os cachorros que caçam trufas são treinados a partir dos três meses de vida e que demoram cerca de quatro anos para ficar prontos. Os donos deixam a grama crescer, colocam pedacinhos de trufas dentro daquelas cápsulas amarelas de Kinder Ovo e jogam-nas. O cachorro sai em busca e traz de volta. “É como se fosse uma brincadeira com bolinhas. Deixa os cachorros felizes, não é como se eles estivessem trabalhando”, diz Gian Piero. Ele conta também que, nos últimos anos, perderam 35% da área de caça a trufas brancas, pela produção de vinhos e por cortar muitas árvores. “Caçar trufas é uma tradição familiar. Geralmente o pai e o avô também têm essa profissão. E os lugares em que cada caçador encontra as suas trufas é secreto”, diz, brincando. “Nem as famílias sabem. Imagina minha mulher saindo com a mulher de outros caçadores e contando meus segredos. Se os filhos não seguem o mesmo caminho, isso morre com o caçador.”

À noite é o melhor período para caçar trufas por causa do silêncio, que faz com que os cachorros se concentrem mais, porém tivemos sorte pela manhã e nos divertimos com a Daisy em busca delas. E o melhor, seguimos para o almoço com as mãos carregadas da iguaria!

01/12

Sylla sebaste 

Depois da caça às trufas, nada mais justo do que comê-las, ainda mais acompanhadas de um bom Barolo. O Sylla Sebaste é uma vinícola que conta com um restaurante supercharmoso e aconchegante. Na decoração, um barril de vinho gigante faz as vezes de cristaleira, e as mesas seguem o padrão tradicional de toalhas brancas e guardanapos de pano.

Os pratos são delicados e bem trabalhados. Não deixe de provar o creme de cogumelos, bem aerado, com muito sabor e croûtons, para dar crocância. E o tartare de carne, fresco e saboroso. Para os pratos principais, o tradicional cacio e pepe, com massa impecável, no sabor e no ponto, e tempero delicioso. O ovo com queijo e muitas lascas de trufas não poderia faltar. É uma combinação dos deuses! Como sugestão do chef, provamos ainda o bollito, uma carne típica do Piemonte, cozida por 16 horas, que desmancha na boca. Para finalizar, a melhor panna cotta que já comi, com textura perfeita, superdelicada, com creme de avelãs. Um final para deixar a Itália e sua rica culinária definitivamente na memória.

01/12

Matérias Relacionadas