Prazeres da mesa

A Bíblia do Vinho

Por: Prazeres Da Mesa | 11.jan.2016

Está chegando ao mercado a nova edição do Oxford Companion to Wine, obra obrigatória para os amantes da bebida

Caro leitor desta coluna, talvez você saiba que publiquei um livro há um tempo atrás, o Oxford Companion to Wine ou “meu quarto filho”, como é chamado por minha família com uma pitada de amargor. De fato, o Oxford Companion to Wine é um membro de nossa família. A prova disso é que sua primeira edição ocorreu três anos após o nascimento de nosso filho mais novo. Mas sua gestação foi de seis anos, muito mais longa do que a gestação de um bebê.

Relembro que meu contrato foi assinado em novembro de 1988, mas o livro só foi publicado em 1994. Na verdade, todo esse tempo não chegou a ser uma surpresa: só o primeiro esboço tinha 800.000 verbetes sobre enologia no formato de um Oxford Companion. A coleção reverenciada de livros de referência da Oxford University Press começou com um volume dedicado à língua e literatura inglesas da década de 1930 e, desde então, tem publicado tomos exaustivos sobre temas como arte, música e medicina. O conteúdo desses livros é sempre uma coleção de verbetes organizados em ordem alfabética, redigidos por especialistas da área.

Preparar essa primeira edição do Oxford Companion to Wine foi o período mais estranho em minha vida profissional. Os primeiros anos da extraordinária década das ombreiras, os anos 1980, foram os mais agitados e os mais públicos de todos. Naquele tempo, eu apresentava o primeiro programa de TV do mundo sobre vinhos, The Wine Programme, da nova emissora britânica na época, a Channel 4. Gravamos, em seguida, duas outras temporadas ao redor do mundo e, por causa disso, comecei a ser reconhecida na rua. Também fui correspondente de vinhos do The Sunday Times, o periódico de maior circulação na Grã-Bretanha. Olhando para trás, não sei como consegui publicar oito livros na década de 1980, dentre os quais: Vines, Grapes & Wines, livro precursor do Wine Grapes, escrito em coautoria com Jose Vouillamoz e Julia Harding, em 2012; e Vintage Timecharts, obra dedicada ao estudo de como os diferentes tipos de vinho envelhecem. Ah, sim, eu estava quase me esquecendo: também gerei nossos primeiros dois filhos, construí uma nova casa e obtive a qualificação de Master of Wine. Enquanto isso, meu marido, Nick Lander, gerenciava L’Escargot, um dos restaurantes mais badalados e lotados de Londres. Hoje me pergunto, espantada, como conseguimos fazer tudo isso. Talvez o fato de, naquela época, não ter de verificar e-mails constantemente tenha ajudado muito.

Mas daí veio a recessão, e meu amigo Hugh Johnson passou a distrair os telespectadores do Channel 4 com sua série sobre a História do Vinho. A vida, de repente, passou a ser muito tranquila. Fiquei de 1988 a 1993 (a Oxford University Press precisa de um ano para editar e imprimir um livro ou o Companion) em isolamento solitário, debruçada sobre um computador completamente rudimentar e uma máquina de fax, esperando que ela soltasse algum verbete de um dos vários colaboradores do livro, de modo que eu pudesse só fazer a edição em vez de ter de redigir os meus verbetes. (Naquela época, estabeleci para mim mesma uma meta de 1.000 apontamentos finalizados por dia). Os colaboradores traziam seus textos escritos à mão em folhas de papel e, depois da edição, esses verbetes deveriam ser digitados um por um meticulosamente. Foi realmente assustadora a perspectiva de ter de preencher as colunas duplas de 1.000 páginas em branco do Companion com palavras suficientemente precisas para uma obra de referência ao nível da Oxford University Press.

O trabalho durante dois sólidos anos para a redação da quarta edição do Oxford Companion to Wine (foi publicado em 17 de setembro de 2015) foi uma brisa se comparado ao da primeira edição, graças à existência dos e-mails, de um assistente de edição, da então revisora e hoje conhecida Master of Wine, Julia Harding. Mas o Companion é uma responsabilidade enorme que pesa muito sobre nossos ombros.

Diferentemente da primeira edição, hoje o Companion tem uma reputação e um lugar bem estabelecidos nas estantes e nos corações dos amantes de vinho e dos estudantes ao redor do globo. Sei bem quantos candidatos fizeram provas teóricas sobre vinhos com pelo menos uma cópia bem manuseada do Companion ao lado. Por isso é que temos de trabalhar muito para deixar tudo perfeito, principalmente em uma época em que os bebedores de vinho são muito, mas muito mais sofisticados e bem informados. Eles também são mais curiosos, o que significa que temos de fornecer informações bem mais detalhadas.

O problema é que existe um limite físico para o número de páginas de um livro em razão da espessura do papel e da resistência das amarrações na encadernação. Assim, uma vez que o Companion é publicado em uma edição impressa, seu número de páginas é restrito (a quarta edição será a primeira a ter também uma versão digital – diferentemente do que foi publicado em JancisRobinson.com anteriormente).

Uma vez que o mundo do vinho tem mudado em uma velocidade impressionante, cada edição tem exigido um trabalho cirúrgico gigantesco. Relutamos muito, mas na terceira edição, tivemos de abandonar todos os verbetes dedicados aos destilados de vinhos. E como estávamos limitados a 1 milhão para a quarta edição, tivemos de ser muito seletivos na edição dos verbetes existentes na edição anterior.

Esta nova quarta edição é a mais radicalmente diferente das publicadas. A primeira edição teve 3.000 verbetes. Esta quarta tem 4.000, dos quais 500 são absolutamente novos. Cada palavra foi examinada cuidadosamente para termos certeza de merecer constar da edição de 2015. Muito mais do que a maioria dos verbetes – quase dois terços deles – foi revista e atualizada muitas vezes cirurgicamente. De fato, alguns tópicos foram completamente reescritos, como o longo e importante verbete sobre as origens do que seu autor, Patrick McGovern, chama de vinicultura. Eu sabia do grande número de novas e importantes descobertas sobre a história do vinho desde que a primeira edição foi redigida há bem mais de 20 anos, então tive de atentar para que todos os historiadores, assim como todos os outros colaboradores, tivessem a oportunidade de atualizar seus verbetes. (É uma grande emoção ser a editora de acadêmicos tão eminentes como os professores Barry Cunliffe e Denis Dubourdieu, editor de enologia desta nova publicação, efetivamente.)

A quarta edição se beneficiou do trabalho árduo de mais de 180 colaboradores em todo o mundo, entre eles 50 novos. Nomes como Michael Broadbent MW, Stephen Brook, Bob Campbell MW, Huon Hooke, Hugh Johnson, Jasper Morris MW, Linda Murphy, David Schildknecht, Victor de la Serna, o editor em viticultura dr. Richard Smart, Walter Speller e dr. José Vouillamoz são nomes que vão soar familiares a muitos dos amantes de vinho. (Bem mais do que 20 colaboradores em nossa equipe são Master of Wine.)

Meu maior desejo é que ninguém me diga alegremente, como eles costumavam fazer no passado, que não precisa da quarta edição, porque tem a primeira.

Leia mais em oxfordcompaniontowine.com e JancisRobinson.com

Jancis Robinson_site

*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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