Prazeres da mesa

A CHUVA E OS DOCES DA MATHILDE

Por: Prazeres Da Mesa | 21.aug.2017

Faltavam ainda umas semanas para a viagem a Portugal e minha caixa de mensagens já estava lotada com emails de amigos me lembrando sobre os doces portugueses.

Faz parte do “currículo familiar” dos Mendes (meu sobrenome paterno). Meu pai, lá pelos anos 1940, se escondia atrás do balcão da padaria do meu avô para comer doces. Vô Joaquim era português, nascido em Freches, no Distrito da Guarda, e o seu estabelecimento, na esquina da Rua Conselheiro Brotero com a Dr. Veiga Filho, onde hoje fica a Dona Deôla, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, devia ter tudo que corresponde às autênticas padarias portuguesas que se alastraram pela cidade. Mas nunca soube quais doces meu avô vendia ali; se os mais refinados, os mais rústicos… sei, apenas, que meu pai pegava alguns e, sentado no chão, passava horas da sua infância se lambuzando com cremes e açúcar.

Vai daí que os doces portugueses povoaram meu imaginário desde sempre e, às vésperas de embarcar para a Terrinha, tinha decidido: as confeitarias seriam uma parte importante do meu roteiro turístico por lá. Confesso que não caí matando apenas porque o verão de 40ºC freou meus ímpetos. Mas cheguei bem perto do primeiro pecado capital; a gula. Não foram poucos os travesseiros de Sintra, os pastéis de nata, as queijadas, os ovos moles…haja caloria.

Último dia em Lisboa, lá estava eu na Versailles, na Avenida da República. “Daqui a pouco faz 100 anos, não posso deixar de conhecer esse lugar”, pensei. Colada na vitrine, me pus a inquirir o atendente: E este, do que é? E ele: ah, este é de ovos, açúcar e amêndoas… (com aquela delícia de sotaque que puxa os “ss”). Certo… E aquele ali?… Ora… é de amêndoas, mas tem ovos e açúcar.  Ótimo. Aquele outro lá? Bem… também leva açúcar e amêndoas… e ovos.

Repito essa história, para mim e para os amigos, toda vez que conto sobre minha viagem mais recente a Portugal. Tão pueril e saborosa quanto os doces que eu comi por lá.

Algum tempo se passou desde a viagem e tive de ir ao centro de São Paulo para consultar um advogado. Era uma tarde chuvosa, os problemas ainda não solucionados, fiz o que a gente faz quando busca um acalento, um conforto. Desculpe aí a turma dos psicólogos que trabalham para desalinhavar a comida das emoções. Às vezes, simplesmente é preciso. E nesse dia era.

Andando a esmo pela Praça Antonio Prado, estico o pescoço e dou de cara com a esquina mais charmosa com que cruzei nos últimos anos. Ué… esse lugar estava aqui? Novo com cara de antigo, pilastras azuis e arredondadas dando sustentação à fachada… uma loja toda fofa e a placa lá no alto: Casa Mathilde.

Chovia, São Paulo estava gelada, mas encolhida embaixo de um quadro do meu poeta favorito – o Fernando Pessoa – eu esqueci das horas. Quem é que se preocupa com o relógio em um lugar que vende bolinhos de “amor com canela”?

Não sei se é uma armação do destino que me arrasta para dentro da Casa Mathilde, mas todas as outras vezes que tive de voltar ao centro de São Paulo, a chuva castigava a cidade em maior ou menor intensidade. Quer indulgência melhor pra um doce?

Semana passada voltei à Casa Mathilde com o intuito de ver (só ver, eu juro) doce por doce para escrever sobre eles. Aprendi como são feitos, que também levam muitos ovos, açúcar e amêndoa (Deus é bom) e que não viram de um dia para o outro na vitrine simplesmente porque a delicadeza dos doces portugueses autênticos não suporta envelhecer.

Foi legal conhecer a parte técnica, mas não vou gastar seu tempo com esses detalhes. Apenas vou fazer com você, o que fizeram meus amigos ao insistir que eu provasse cada um dos doces portugueses: Vá se encontrar com a Mathilde muitas e muitas vezes e em cada uma delas faça uma prova diferente. Lembra da música “Se essa rua fosse minha…”? Pois é, a Mathilde não é um bosque, mas lá dentro deve morar um anjo que rouba o coração de quem pisa ali uma vez e, para sempre, fica “condenado” a voltar.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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