Prazeres da mesa

A DICOTOMIA DOS VINHOS

Por: Prazeres Da Mesa | 11.jun.2018

Imagino que você se interesse por vinho. Se sim, você deve ter notado que, nos dias de hoje, ele pode ter dois estilos.

Um deles é concentrado, vem com tudo, e impressiona pela massa. É muito provável que ele tenha sido produzido para se parecer com o tipo de vinho preferido na década de 1990. Fruta madura é sua característica mais marcante.

Esse estilo de vinho pode ter envelhecido em carvalho, muito possivelmente em novas barricas, e pode muito bem ter sido produzido com uma das famosas varietais internacionais, como Cabernet ou Chardonnay.

O outro estilo de vinho que encontramos nos dias de hoje é o que poderíamos chamar de “vinho do século XXI”: um vinho que é menos obviamente maduro, com maior acidez, mais baixo teor alcoólico, cor mais clara e peso mais leve, feito com uvas provavelmente colhidas mais cedo. O resultado é que, em vez de ser dominado por fruta, ele pode ter uma leve textura, algo como pedras molhadas ou grãos.

Diferentemente da década de 1990, é muito mais provável que um vinho do século XXI tenha sido produzido com varietais mais obscuras,  muito possivelmente indígenas da região na qual foi produzido, em vez das internacionais conhecidas e bem viajadas. Uma subseção desses novos vinhos é o natural, com um mínimo de elementos adicionais, com pouquíssimos sulfitos para mantê-lo estável, sem adição de açúcares para tornar o vinho mais alcoólico (uma prática de vinificação já conhecida como chaptalização). Nenhum ácido foi adicionado a esses vinhos para que seu sabor fique mais fresco, apesar de originários de clima quente. Tampouco nenhum tanino foi adicionado para dar estrutura à bebida etc.

Como experimento milhares de vinhos por ano e participo de várias degustações profissionais todas as semanas, estou intrigada com esse novo fenômeno do duopólio na produção no mundo. Apesar disso, muitos vinhos no momento ocupam uma posição intermediária entre os dois estilos, o que parece ser a escolha mais confortável. Os produtores em praticamente todas as regiões estão se afastando em um ritmo constante dos excessos dos vinhos antigos e da moda com menos álcool e madeira, e com um pouco mais de definição e frescura. Pense, por exemplo, na diferença entre um típico St. Émilion da década de 1990 e seu equivalente hoje. Ou a maneira como o Meursault foi colocado nas dietas mais rigorosas. E essa tendência se espalhou por todo o mundo. Qual foi a última vez que você experimentou um Chardonnay australiano completamente gordo? Mesmo o Malbec argentino e o Cabernet chileno estão mais frescos e mais claramente influenciados pelo vinhedo do que pelas técnicas de adega, como acontecia no passado.

Na Itália, Brunello di Montalcino é um exemplo particularmente óbvio de um vinho que foi remodelado a partir dos rótulos de grande sucesso e seguidores das tendências mundiais no final da década de 1990. Mas, hoje, Brunello di Montalcino é uma expressão muito mais pura da varietal local, a Sangiovese, e do terroir.

Em minha perspectiva, muitas vezes trabalhando em um livro de referência sobre os vinhos do planeta em meu escritório, parece-me que existe uma parte muito importante do mundo dos vinhos que, em grande parte, resistiu à tendência do século XXI. Napa Valley e algumas de suas regiões satélites no norte da Califórnia ainda produzem vinhos muito semelhantes àqueles produzidos há 20 anos especialmente concentrados, com colheita tardia, de modo que o álcool muitas vezes tem de ser reduzido. Não posso culpá-los por continuar a seguir a receita que provou ser tão bem-sucedida. O culto dos Cabernet tem seguidores devotos bem informados, muitos dos quais têm trabalhado obstinadamente para criar uma mailing list e aumentar sua cartela anual de clientes VIP no mesmo ritmo que a alta de preços dos vinhos. E uma miríade de marcas menos conhecidas encontram um mercado com preços ligeiramente mais baixos, mas ainda altos, que fazem inveja à maioria dos produtores de vinho do mundo.

Mas estou particularmente intrigada com os profissionais do vinho que agora comercializam ao mesmo tempo dois estilos. O grupo americano Jackson Family Wines é um exemplo especialmente claro disso. Ele se tornou um produtor de vinhos muito importante, bem estabelecido em todo o mundo, principalmente na Califórnia, onde o grupo foi fundado. Ele se desenvolveu na esteira do sucesso de Kendall Jackson Vintners Reserve Chardonnay, o protótipo do grande e doce Chardonnay à moda antiga. Hoje, a JFW tem produtores admiravelmente ambiciosos, não apenas na Califórnia, mas em Oregon (onde desempenha papel importante), Chile, África do Sul e Austrália (pasmem…).

Não poderia ser mais marcado o contraste entre alguns dos projetos mais bem finalizados no portfólio da família Jackson na Califórnia e os vinhos produzidos pela Yangarra Estate Vineyard, a filial de McLaren Vale, da Kendall Jackson, para mim, um dos produtores australianos mais originais que conheço, o qual desde 2012 mantém uma certificação biodinâmica, utilizando ovos de concreto na fermentação.

Hoje, o império inteiro é administrado por Barbara Banke, viúva de Jess Jackson. Perguntei a ela como se sentia por oferecer tanta diversidade de estilos e intenções, citando as palavras de Mike Bennie, o porta-voz mais eloquente da nova onda de vinhos na Austrália. Ela riu imediatamente e respondeu que basta deixá-los continuar a fazer o trabalho deles. Ela dá uma clara impressão de ser uma mulher de negócios (e famosa criadora de cavalos) inteligente o bastante para conseguir enxergar, e financiar, o grande panorama, ao mesmo tempo em que passa os olhos rapidamente pelos pequenos detalhes. Aliás, ela estava no Reino Unido em outubro passado, para descobrir as maravilhas da cena dos espumantes ingleses. Produtores ingleses, tomem nota.

Mas a maioria das centenas de importadores de vinho do Reino Unido está com pés bem firmes em um lado ou no outro. Na verdade, a proeminente Caves de Pyrène, com base fora de Londres, provavelmente deve parte de seu sucesso aos vinhos pioneiros do lado natural do espectro. No entanto, ao provar recentemente os produtos do especialista português Raymond Reynolds, não pude deixar de notar o vasto contraste estilístico entre os vinhos de Dirk Niepoort (para quem frescor é agora tudo o que importa) e os bastante admirados, mas muito mais tradicionais vinhos da Quinta do Vale Meão e Casa de Mouraz. Como Reynolds concilia tudo isso? Qual estilo apoia?

Ele pareceu claramente confuso com minha pergunta. Talvez eu esteja me preocupando de modo indevido. Simplesmente deveria me concentrar em tentar assinalar mais às claras aos meus leitores a qual lado pertence cada vinho que descrevo.

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Jancis Robinson_site

*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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