Prazeres da mesa

A educação do paladar

Por: Prazeres Da Mesa | 26.sep.2016

O garotinho cola o nariz na vitrine de chocolates e, com o dedo indicador esticado, começa a apontar: quero esse, quero aquele ali e também quero aquele em formato de folha. Ele está em uma loja de chocolates finos na cidade serrana de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo.

Junto ao menino, a mãe recomenda à balconista que atenda ao filho enquanto ela mesma se afasta, falando animada ao celular. O pacote de doces – bem cheio – é entregue à criança e a conta à mãe, que enfia o cartão de crédito na máquina, alheia ao filho. Ao sair da loja, com o menino seguindo atrás, finalmente desliga o telefone e estica os olhos para o cupom fiscal que a vendedora lhe entregou. Grita: 78 reais por esse saquinho de chocolate??? E o filho responde: já acabou!

A cena não levou mais do que 5 minutos. Aconteceu dentro de uma loja de chocolates confeccionados com cacau a 40%… 50%… e recheios inusitados. Lamentavelmente os bombons foram devorados sem qualquer solenidade.

Veja, não estou dizendo que criança pequena não mereça provar o créme de la créme da pâtisserie. É justamente o contrário.

Aos 7 ou 8 anos, meu filho visitou a cozinha do restaurante Le Pre Catelan, no Rio de Janeiro, onde conheceu o chef-pâtissier e foi presenteado com um saquinho de macarons. Mas não levou os docinhos sem “pagar pedágio”. Antes, ouviu a explicação sobre como eram feitos, de onde vinham as amêndoas, durante quanto tempo precisavam ser assados. Teve de aguardar que o chef retirasse a bandeja do forno, soltasse os macarons com a fina espátula… Respirou até que eles fossem delicadamente deslocados para o prato. Aí, conhecendo sobre o que iria provar, recebeu alguns doces e a recomendação de leva-los com cuidado para que não esfarelassem. Carregou como a própria vida.

O pequeno devorador de chocolates de Campos do Jordão não teve a mesma sorte. Os chocolates que ele mandou para dentro foram finamente preparados, mas poderiam ser oriundos de uma linha de produção industrial qualquer e isso não teria feito a menor diferença.

Nesta semana, estamos às voltas com a discussão do currículo escolar para o ensino médio. Entra mais matemática? Sai a filosofia? Fica a educação física ou incorpora mais a língua portuguesa?

Volto uma década na vida dos filhos, onde a educação formal realmente tem início. Que nós, pais, façamos a nossa parte. Vamos nos empenhar na missão de educar os sentidos? Antes de deglutir, que os mais jovens aprendam a olhar, sentir os aromas, tocar a comida (horror de tantas mães) e, então, pousar o alimento sobre a língua para deixar derreter com suavidade e mastigar sem pressa.

Um pouco de cerimônia faz bem ao paladar.

 

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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