Prazeres da mesa

A (falta de) cultura do vinho

Por: Prazeres Da Mesa | 11.jan.2016

Não é o preço da garrafa que afasta o consumidor das boas taças. Ao brasileiro falta o costume de brindar às refeições

Há duas coisas das quais tenho total certeza quanto ao mercado vinícola no Brasil:

1) Falta a cultura do vinho para que seja consistente.

2) Não é o preço da bebida que mais inibe o consumo, mas a falta de conhecimento.

Embora a burocracia do governo e os mais de 22 tributos que afetam de forma indecorosa o custo do vinho no Brasil, além de muitos que vivem desse negócio pretender ganhos acima do razoável, não considero o preço o principal problema para o parco consumo. O que realmente prejudica é a falta de cultura. A prova disso é que o mercado de cerveja “gourmet”, por ter o consumo como hábito, já tem volume dez vezes maior que o de vinhos finos consumidos no país.

Porém, a cultura é algo que pode ser construído pela comunicação. O mercado americano, hoje o maior do mundo com mais de 10 litros per capita ao ano, é o melhor exemplo disso. Depois de financiar os estudos do conhecidíssimo “paradoxo francês”, o assunto foi mais que repisado, a produção do vinho estourou e o consumo idem. O que não existia há poucas décadas.

Esses são fatos, não utopia. Houve uma ação por trás deles. As cervejas “gourmet” acordaram há cerca de cinco anos com o sucesso do vinho fino. Até jantar harmonizado com chef do exterior elas fizeram, tinha cerveja até para combinar com sobremesa… Fui jurado de um evento, em Campos do Jordão, São Paulo. Viram ali a oportunidade de explorar o que tinham a oferecer em diversidade e charme e o fizeram em campo fértil, o consumidor habitué. É claro que hoje pedir uma cerveja premium num restaurante é legal, mas há cinco anos era cafona. A cultura já existia, o que não existia era a oferta de produtos com aquele nível. Deu no que deu.

No mercado de vinhos nos Estados Unidos, houve fortíssima campanha de comunicação. Não estou falando de propaganda apenas, mas de comunicação mesmo. Inúmeras ações de divulgação do paradoxo francês foram providenciadas, reportagens, programas de TV, ação com médicos etc.. O americano, que não tem a mais saudável das alimentações, entrou com tudo no vinho. A cultura, portanto, foi construída.

Aqui, estamos na dependência de um canal de televisão. Agora, finalmente, a TV Globo tem como enredo em uma novela a produção de vinho. Mas ainda não está claro se é um interesse verdadeiramente comercial da emissora ou apenas pano de fundo. Se o intuito for o comercial, o mercado dará, certamente, um grande salto – afinal, quem é do ramo bem sabe do que a TV Globo é capaz quando se trata de incentivar um setor e torná-lo anunciante. Eu tenho exemplos de sobra. Esperemos.

 

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*É fundador da Confraria dos Sommeliers

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