Prazeres da mesa

A QUINTA DA BOA VISTA

Por: Prazeres Da Mesa | 27.sep.2016

Um tinto do Douro que já nasce vencedor

Por séculos a vitivinicultura do Douro viveu (com méritos, sem dúvida) em função do vinho do Porto. Por meio do mítico Barca Velha, lançado em 1952, a região já havia dado provas de que tinha potencial para brilhar no segmento de vinhos de mesa, entretanto, foi somente na segunda metade da década de 1990 que o movimento ganhou força. O interesse em produzir tintos e brancos foi aumentando até por influência do sucesso alcançado pelos rótulos do Alentejo – os vinhos alentejanos mudaram o panorama vinícola de Portugal – e, em especial, pela abertura oferecida com a mudança em certas regras (haja regras) que regiam o vinho do Porto.

Fundamentalmente, isso ocorreu em 1986, quando foi alterada a legislação que obrigava a exportação de vinho do Porto a ter de sair dos armazéns de Vila Nova de Gaia, a cerca de 120 quilômetros do Douro vinhateiro, rio abaixo, na margem oposta à cidade do Porto. Havia, assim, uma divisão clara entre produtores e negociantes. O fato de uns cultivarem as vinhas e elaborarem o Porto, vendendo-o às grandes casas para que mesclassem e comercializassem, não contribuía para o desenvolvimento qualitativo. Com a liberação, abriu-se a possibilidade de engarrafar e comercializar os vinhos diretamente na zona de produção, o que encorajou os produtores a se tornar independentes e a se aprimorar para poder conquistar espaço (mesmo as grandes casas passaram a investir em vinhedos próprios).

Os vinhos de mesa no Douro sempre foram tratados como subproduto, na medida em que eram elaborados com as uvas que sobravam do vinho do Porto – o produtor não podia, ainda que quisesse, elaborar apenas vinho do Porto: por meio de um certificado (a “autorização de benefício”), emitido pelos órgãos oficiais, só lhe era permitido transformar parte das uvas colhidas. As quintas privadas precisavam se fortalecer e criar projetos que fossem economicamente rentáveis, e uma forma de fazê-lo era avançar com os vinhos de mesa, não só pelo momento propício e pela vocação demonstrada anteriormente pela região (o citado Barca Velha) mas também para dar algum aproveitamento à enorme quantidade de uvas de boa qualidade que era desperdiçada – até então, serviam para fazer vinhos imbebíveis ou transformados em aguardente de baixa qualidade.

Aos poucos, e cada vez mais, foi-se conseguindo encontrar o ponto de equilíbrio entre o que é possível e desejável produzir em termos de vinho de mesa e de Porto. Com o tempo houve melhor noção das parcelas com maior propensão para um ou para outro, assim como de eventuais redirecionamentos em razão das particularidades de safra. A rigor, a flexibilidade de poder trabalhar os dois é uma bênção que só o Douro tem.

O crescente interesse dos mercados internacionais pelos vinhos de mesa do Douro tem despertado a atenção de investidores de fora e das principais casas de vinho do Porto, fazendo com que estas investissem também no gênero. Um bom exemplo é a Quinta do Noval, assim como o grupo Symignton, que até já produzia o Quinta de Roriz e se associou ao renomado francês Bruno Prats (ex-proprietário do Château Cos d’Estournel) para lançar o Chryseia. Por uma questão de princípios, praticamente o único grupo que até agora se mantém inflexível é o Fladgate Partnership, detentor das renomadas marcas Taylor’s e Fonseca, além da Croft. Houve também, por outro lado, casas que preferiram dedicar algumas de suas quintas integralmente a vinho do Porto, caso da Sogrape, que, já tendo várias marcas consagradas de tintos de mesa no mercado (os diversos rótulos da Casa Ferreirinha), utilizava a lendária Quinta da Boa Vista para compor a linha Offley.

A necessidade de fazer caixa para comprar a incômoda participação que o controvertido multiempresário português Joe Berardo detinha no grupo Sogrape fez com que a família Guedes, majoritária de fato no negócio, resolvesse se desfazer de alguns ativos, começando pela Quinta da Boa Vista e pela Offley, marca com menos visibilidade que suas duas outras de Porto, a Ferreira e a Sandeman. A venda da Offley não foi em frente, mas para a Quinta da Boa Vista houve interessados firmes, tendo finalmente sido comprada pelo empresário brasileiro Marcelo Lima e o britânico Tony Smith – ambos se conheciam desde o início da década de 2000, quando este era correspondente do jornal The New York Times em São Paulo e para cá havia retornado, depois de um tempo em Lisboa, para reorganizar a Condé Nast, renomado grupo internacional de edições de revistas; durante um bom tempo desenvolveram a ideia de fazer parceria num projeto vitivinícola fora do Brasil.

A Lima Smith foi constituída em junho de 2011 com a compra da Quinta da Covela, vinícola belíssima junto ao Rio Douro, dentro da Denominação de Origem Vinhos Verdes, no Minho, quase divisa com o Douro, o que explica sua vocação para vinhos brancos e o prestígio adquirido no gênero. Depois de dois anos dedicados a repor nos eixos a Covela, a dupla, pensando na necessidade de desenvolver uma gama de tintos para compor um projeto economicamente viável no longo prazo, começou a procurar propriedades na região do Douro, o que acabou se consumando com a compra da Quinta da Boa Vista em 2013.

Dos 40 hectares de vinhas da Boa Vista, a ideia era utilizar, ao menos num primeiro momento, apenas os 10 hectares de vinhas velhas, parcelas com mais de 80 anos, contemplando tintos na categoria ultra-premium. Para atingir esse objetivo em alto estilo foi contratado como consultor o irretorquível Jean-Claude Berrouet, enólogo que durante 44 anos comandou o aclamado Château Petrus, assim como outros vinhos bordaleses de ponta do grupo Moueix (Trotanoy e La Fleur Petrus, em Pomerol; Dominus, na Califórnia, e outros mais), de onde se aposentou ao final da safra de 2007.

A colheita de 2013, assim como a de 2014, foi conduzida pelo enólogo Rui Cunha, que já cuidava da Quinta da Covela desde o início, nos anos 1990, e a acompanha nessa nova fase da vinícola do Minho. A participação de Jean-Claude Berrouet na Boa Vista teve início efetivamente logo após a colheita de 2014, fazendo algumas primeiras recomendações no que estava sendo vinificado, assim como nos vinhos de 2013 que estavam estagiando em barricas, tendo depois acompanhado as provas, blends e decisões até o engarrafamento deles (seu filho Jeff, que cuida da parte vitícola, o acompanha sempre e se incumbe da parte de campo).

A primeira apresentação oficial da gama, reunindo Tony Smith, Berrouet e seu filho, e o enólogo Rui Cunha, foi feita no início de maio, em Londres, não só pela importância do mercado inglês mas também por reunir parte importante dos jornalistas especializados e alguns importadores de fora, presentes na capital da Inglaterra para a London Wine Fair, que se realizava concomitantemente. Nada de eventos pomposos. Foram dois dias de pequenos encontros com grupos afins, de vários dos quais tive oportunidade de participar. Da mesma forma no lançamento para a imprensa de Portugal, organizado dois dias depois, na cidade do Porto.

A expectativa positiva que cercava os vinhos se confirmou, assim como foi bem recebida a decisão de compor a linha com quatro rótulos, um monocasta, o Boa Vista Touriga Nacional (um bom e característico varietal, como entrada de gama, com preço estimado de 20 euros no varejo, em Portugal); o Boa Vista Reserva (elegante e com boa complexidade, elaborado com parte de vinhas velhas, será o carro-chefe da vinícola – cerca de 40 euros); e dois excelentes single vineyards, o Quinta da Boa Vista Vinha do Oratório e o Quinta da Boa Vista Vinha do Ujo, ambos de vinhedos plantados em 1930, com produção muito limitada – menos de 900 garrafas – e preço ao redor de 95 euros. Sem pressa e na medida em que houver um conhecimento mais preciso das características das diversas parcelas que compõem os 40 hectares de vinhedos, as quantidades vão ser aumentadas – em 2013 foram produzidas apenas 2.000 garrafas do monocasta (em 2014 há também um Tinto Cão) e 5.000 do Reserva –, com previsão de lançar no futuro (“Até por obrigação histórica que a Quinta tem com o barão de Forrester, que lá morou”, segundo Tony Smith) uma gama de vinhos do Porto, mais especificamente de tawnies.

Jorge Lucki

*É um dos maiores conhecedores de vinhos do país e colunista do jornal Valor Econômico

Colunas recentes

Colunas