Prazeres da mesa

A saudade e o marron-glacé

Por: Prazeres Da Mesa | 17.feb.2017

Por muitas razões, pessoas entram e saem das nossas vidas. Algumas saem definitivamente; são nossos afetos perdidos. Outras voltam esporadicamente, porque dentro delas – e de nós – habita a saudade que fica ali chamando. Tem gente que surge – e ressurge – na nossa vida quando a ocasião se molda àquela convivência. São bem-vindos, mas não são propriamente queridos. E há, por fim, as pessoas que sentíamos perdidas para sempre mas, por surpresa, necessidade ou saudade reaparecem no cenário da nossa existência. Considero que essas criaturas deveriam ser preservadas no coração, ainda que sua passagem possa ser fulgurante, meteórica, muito rápida.

Nas viagens que fiz nos últimos anos, nunca retornei com as malas vazias.Não sou do tipo que traz souvenirs. Também não compro presente caro.Eu compro comida. Faço isso pra ser lembrada muitas e muitas vezes depois do reencontro na minha volta. De Aveiro, em Portugal, trouxe as trombolhudas barriquinhas de ovos moles; de Austin, nos Estados Unidos, molho barbecue caseiro; e de Lyon, na França, queijos comprados no Mercado Gastronômico Halles.

Trazer comida, na mala, é um desconforto. O cheiro da comida entranha na roupa, as embalagens não podem ser amassadas, ocupam espaço, pesam na bagagem… E a gente ainda corre o risco de algum agente da polícia federal encrencar, vai saber? Lembro dos meus sobrinhos pequeninos – com 7 e 5 anos – quando se mudaram para os Estados Unidos. Querendo me fazer presente, enviei a eles alguns ovos de Páscoa. Sabe quem comeu? Os agentes federais. Não sem antes chamarem meu irmão e minha cunhada para lhes passar uma reprimenda: “Como não informaram ao remetente que não se pode mandar comida para os Estados Unidos? Da próxima vez, que fossem mais criteriosos e coisa e tal…” E o chocolate comprado com desvelo e carinho ficou, pra sempre, na saudade dos sobrinhos.

Há alguns dias, uma dessas pessoas que eu considerava perdida para sempre foi encontrar-se comigo. Estava retornando da França e marcamos um chope em um fim de tarde. O que prometia ser uma reunião breve, para tratar questões práticas, revelou-se um encontro surpreendentemente afetuoso. Entre um gole e outro, recebi uma caixa de marrons glacés, o docinho de castanha glaceada que ganhou popularidade na corte do Rei Luis XIV e que eu sempre adorei. Esse alguém teve o carinho da lembrança. De mim e do meu gosto pelos marrons glacés.
Não sei como foram transportados, como resistiram intactos desde o gélido inverno francês até o calor senegalesco que estamos enfrentando esses dias aqui no Brasil. Fato é que estavam impecáveis e estou comendo um por dia. Uma espécie de desfrute da presença… Ainda que na ausência.

Coluna Inês  -  Marron-glacé

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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