Prazeres da mesa

A Tasca dos bons vinhos

Além de comida saborosa, a nova casa do chef Vítor Sobral também brilha quando o assunto são as boas taças

Por: Prazeres Da Mesa | 8.apr.2010

Lisboa está cada vez mais charmosa. As colinas em volta do vale que abriga a Cidade Baixa mostram um mar de edifícios reluzentes e bem cuidados. O trecho do Tejo, que vai das novas docas de Santo Amaro à Torre de Belém, abriga um lindo calçadão, flanqueado por jardins bem arrumados. Fato igualmente importante: a enogastronomia da bela metrópole lusitana está cada vez melhor. Apreciador de bons goles – e de comida à altura –, um amigo, que teria tempo apenas para fazer uma refeição em Lisboa, me pediu meses atrás que indicasse um lugar para aproveitar a oportunidade. Não demorei muito para responder: a Tasca da Esquina (leia a reportagem na página 92).
A casa, inaugurada em junho de 2009, é um novo empreendimento do chef Vítor Sobral. São dois pequenos salões, que dão forma a um espaço gostoso e aconchegante. Um, na entrada, abriga à esquerda um balcão, cuja frente está lotada de caixas de vinho. Por trás dele está a cozinha, aberta, onde um par de chefs pilota o fogão, berço dos pratos quentes da casa. No lado oposto, três mesas altas com cadeiras idem, que abrigam até cinco pessoas e podem funcionar como espaço comunitário. A outra sala, com ares de bistrô, mantém o ar descontraído que envolve o lugar.
O cardápio e a lista de vinhos têm também esse perfil: apenas uma prancheta, com três folhas de papel que chegam aos clientes trazidas por garçonetes atentas e simpáticas. Visitei a Tasca pela primeira vez em outubro do ano passado, com minha mulher, Silávia. Sentamos numas das mesas da entrada, bem em frente da cozinha. Tabuletas em mãos, fizemos as escolhas. A salada do casal alentejano com o qual dividíamos a mesa nos tentou (tomates, alface, brotos de beterraba, exuberante, um item pouco habitual na terrinha). Pedimos a salada e um bacalhau. O pedido do bacalhau durou pouco. De repente uma travessa de camarões (salteados com malagueta) saiu da cozinha e nos atropelou com seu perfume irresistível. Mudamos para eles. Chegaram vermelhos e crocantes, no ponto certo, deliciosos. Quanto ao bacalhau que cancelamos, provei-o na minha segunda expedição ao reduto, em dezembro, bárbaro, escoltado por batatas, ovos e azeitonas.
Bom, mas e os vinhos? Conto. Na última folha da prancheta aparecem nada mais nada menos que 45 vinhos, vendidos em taça. Nela dominam, claro, os goles da terrinha, mas aparecem também alguns importados. Na ala de espumantes, há o champanhe Henriot junto a bons brut do país, como o Touriga Nacional do Luis Pato ou o Quinta do Cabriz. Nos brancos, boas opções também não faltam. Entre elas estão o Muros Antigos Loureiro, um Vinho Verde do enólogo Anselmo Mendes, o Cova da Ursa Chardonnay ou o intenso e elegante Casa de Santar Reserva, da Dão Sul, os dois boas pedidas para aquele bacalhau. Quem prefere os tintos pode escolher os vinhos mais leves, como o Dão Quinta de Cabriz e outros mais carnudos, caso do alentejano Monte do Cal Reserva ou estruturados, como o saboroso Churchill Estate, do Douro. Vinhos de sobremesa são também servidos em doses. A Churchill retorna aqui com o Crusted Port, ótima escolta para os queijos Serpa, São Jorge ou Serra da Estrela. Depois, é simples. Basta (se conseguir) sair da Tasca, andar uns três quarteirões e passear pelo lindo Jardim da Estrela, visitar seu coreto, de ferro batido, e sentar num dos bancos da praça, para meditar, feliz, a respeito de como é boa a vida e como se pode comer e beber bem em Lisboa.

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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