Prazeres da mesa

A Tita tinha razão

Por: Prazeres Da Mesa | 20.may.2016

Aos 12 anos provei, pela primeira vez, uma fondue.

Isso nos anos 1970 – quando a moda na cozinha era servir estrogonofe, sopa de cebola e coquetel de camarão – meu pai, recém-chegado de uma viagem à Suíça, cismou de fazer fondue.

Durante toda a semana ouvi sobre os queijos emmenthal e gruyère, sobre licor de kirsch… Então, no glorioso sábado de inverno, voilá: la fondue!

Ao redor da mesa, começamos os trabalhos com certa solenidade que, junto com a fondue, foi derretida em menos de 5 minutos.

A refeição foi das mais caóticas e divertidas de que tenho lembrança dos breves 18 anos de vida que pude partilhar com meu pai.

Lembro do rosto dele (sizudo que era), sorridente com a arte gastronômica que havia preparado para nós.

Semana passada, fui ao La Florina, restaurante suíço no bairro do Campo Belo, em São Paulo, agora para um jantar a dois. “Raclette?” sugeriu meu companheiro. Assenti e voltei no tempo.

Prima de segundo grau da fondue, a raclette é também um pouco mais complicadinha na degustação, porque, diferente de como é servida na Suíça (onde se raspa a peça gigante de queijo), por aqui a gente precisa de certa habilidade no manejo daquelas pazinhas. Mas o mesmo gosto bom do queijo derretido voltou à boca.

A noite foi tão mágica que voltei ao La Florina na semana seguinte, agora com meu fiel escudeiro, meu filho. “Vamos comer raclette?”, convidei. Bom de garfo, Leo esfregou as mãos: “Não conheço… mas já gostei”.

Ao final de mais este jantar, fiquei me perguntando o que faz com que algumas comidas acalentem mais do que outras. Por que alguns pratos fazem com que a gente coma em comunhão com nossos parceiros de mesa? Por qual motivo a gente levanta da mesa, depois do jantar, com vontade de abraçar, beijar e nunca mais se separar daqueles com quem partilhamos a refeição?

Talvez exista alguma pesquisa feita em Harvard para explicar o fato. Talvez as neurociências tenham dados precisos para nos convencer sobre comida e proximidade afetiva.

Não conheço os estudos que caminham nessa direção. Mas tenho certeza de que partilhar a mesa com quem a gente ama faz o amor sentar ali, numa cadeira ao nosso lado. E nos dar a certeza de que é ele quem costura aquela história.

A Tita, personagem vivida pela atriz Lumi Cavazos, no filme Como Água Para Chocolate, tinha razão ao dizer: “Todos nacemos con una caja de fósforos adentro, pero que no podemos encenderlos solos, necesitamos la ayuda del oxígeno y una vela. En este caso el oxígeno, por ejemplo, vendría del aliento de la persona que amamos“.

E o amor, nessas noites frias em São Paulo, ganhou forma, cor, cheiro e o sabor incomparável da raclette.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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