Prazeres da mesa

Almoço Au Bon Climat

Por: Prazeres Da Mesa | 5.nov.2015

Este ano realizei um desejo muito antigo: finalmente, consegui visitar o vinhedo de Jim Clendenen e provar sua comida

Au Bon Climat é uma vinícola que foge à regras vigentes nos demais produtores de vinhos da Califórnia. A começar por sua fundação antiga, que data de 1982, quando Clendenen era um rapaz de 21 anos moldados pelos vinhos da Borgonha. A localização do terreno também é diversa: está fora da rota turística, e até pouco tempo atrás, longe de todas as demais vinícolas da região. Au Bon Climat se situa em uma coluna sem placas de sinalização, acima do vasto vinhedo de Bien. Fundado no início da década de 1970 pela família Miller, a vinícola foi pioneira ao apostar nas varietais de Central Coast que vieram a se tornar castas bem estabelecidas na produção vinícola atual.

Por mais de três décadas Clendenen e sua equipe vêm produzindo Pinot Noir e Chardonnay nos moldes de Borgonha, na contramão do apreço da Califórnia pelo alto teor alcóolico, madeira, dulçor e corpo. Por alguns anos, a escolha de Clendenen lhe custou pontos e aprovação, especialmente por parte do expert Robert Parker que foi bem explícito em suas críticas à Au Bon Climat no passado. Mas, no final, Clendenen deu a volta por cima, a se julgar pela paixão dos novos produtores californianos por vinhos mais leves e frescos.

Santa Maria Valley é uma colcha de retalhos bem costurada de Napa Valley. Fileira após fileira de videiras avançam no horizonte até chegarem graciosamente em colinas ocupadas por trabalhadores rurais que cultivam morangos ou brócolis em uma estação, e uvas na seguinte. O vinhedo de 800 hectares de Bien Nascido se estende por boas duas milhas ao sul da entrada do vinhedo de Au Bon Climat, sinalizada por uma plaquinha com a sigla “CLV”, que corresponde respectivamente aos nomes de Jim Clendenen, Bob Lindquist e Vintners.

Por incrível que pareça, esta foi minha primeira visita a este lado criativo do mundo de vinhos, ou pelo menos, minha primeira visita desde que a região começou a se dedicar massivamente à produção vinícola. Mas faz muito tempo que ouço falar dos famosos almoços preparados por Clendenen em seu vinhedo. Depois de ter passado um tempo na companhia deste homem exuberante e festeiro de cabelos longos na Nova Zelândia, Londres, Oregon e ao redor dos Estados Unidos, eu estava bem curiosa em vê-lo trabalhar in loco. Mas ele viaja tanto (ele é um veterano nos eventos enogastronômicos e no circuito dos festivais de vinho), que precisei esperar durante quase 30 anos para conseguir marcar nosso encontro. (Aliás, fui eu quem o apelidou de “garoto selvagem” pela primeira vez, apelido que figura nos típicos rótulos triangulares de Au Bon Climat, ilustrados pelas próprias mãos criativas de Clendenen).

Em parte, graças ao isolamento geográfico, em parte graças à filosofia praticada por Clendenen, o almoço é preparado e servido no vinhedo todos os dias, renovando a energia dos trabalhadores de Au Bon Climat. Nos dias em que Clendenen está viajando, a responsabilidade do almoço cai nas mãos de Enrique Rodriguez, mestre de adega e primeiro funcionário de Clendenen. Rodriguez trabalha em Au Bon Climat desde que chegou aos Estados Unidos vindo do México, com 16 anos de idade. Hoje Rodriguez tem 43 anos. Outro ingrediente fundamental na receita de Au Bon Climat é outro Jim, Jim Adelman, que estudou com Bob Lindquist. Enquanto Clendenen determina o estilo da vinícola e viaja para participar de eventos e dar palestras no mundo todo, Adelman está presente todos os dias na vinícola, supervisionando a produção e todas as atividades no geral. “Todo mundo tenta convencê-lo a sair um pouco da vinícola”, conta um visitante veterano de Au Bon Climat, “mas ele não quer viajar”.

Rumamos para a estrada subindo a lateral do vale e, chegando lá em cima, nos juntamos com um grupo de todo tipo de caminhonetes e carros antigos estacionados do lado de fora da adega, sob um grande galpão cuja beleza arquitetônica não podia ser diferente da arquitetura típica das vinícolas californianas da atualidade. Do vinhedo saíam os vapores perfumados e sedutores de peixe assado.

Na adega mal iluminada, Clendenen estava ocupado em seu fogão. Por isso, dirigi-me a Bob Lindquist, o sócio perfeito, co-proprietário da vinícola, responsável pela escolha cuidadosa dos lotes de Bien Nacido e pelo rótulo Qupé dedicado às varietais do Rhône, complementando o empenho de Au Bon Climat em seus Borgonhas. Pedi a Lindquist para dar uma volta comigo nos terrenos de Bien Nacido. Pegamos a estrada para subir a colina acima da vinícola, abrindo portões a partir das cercas que protegem as videiras das mordiscadas dos cervos e do gado que pastam na área de 2.000 hectares que pertencem à família Miller.

À medida que íamos subindo a colina, logo atrás do horizonte oeste, começamos a avistar o Oceano Pacífico tão vital para manter o Santa Maria Valley fresco e prolongar a temporada de cultivo. Vimos também afloramentos brancos sobre os gramados: “calcário dolomítico”, explicou Bob, indicando ainda a região vinícola logo ao Norte, a formação “San Luis Obispo”.

Primeiramente, a família Miller começou a plantar videiras nos fáceis terrenos planos, mas em 1992, os Miller passaram também a cultivar videiras nas colinas, áreas que eram ainda mais interessantes para os vinhos do estilo de Au Bon Climat, Sina Qua Non, Ojai e Jaffers, assim como para os maiores comerciantes de vinho. Ainda que a colheita nas colinas se faça manualmente, essas videiras foram plantadas para serem colhidas por máquinas, pois não há mão-de-obra disponível para fazer esse trabalho. Hoje 60 pessoas trabalham em período integral em Bien Nascido, mas eles precisam de um contingente maior de pessoas para se juntarem aos trabalhadores temporários contratados para a vindima. Chris Hammel é o gerente da vinícola e, segundo ele, é essencial falar espanhol fluentemente para trabalhar na vinícola que ele dirige, assim como nas demais instaladas na Califórnia.

Bob suspirou ao falar que este era seu quarto ano de seca. Contou também que as safras dos dois anos anteriores, 2014 e 2013, tinham sido suas colheitas mais precoces.

Ao voltar para dentro da adega, Clendenen estava mais preocupado com suas grandes assadeiras com carne, peixe e legumes assados vindos de seu jardim, do que com as vicissitudes do tempo. Nick e eu estávamos no meio de uma turnê de um mês pelos Estados Unidos em nossa eterna busca por uma máquina de lavar roupa. Por isso, tínhamos feito uma visita a Rancho La Cuna, a casa de Jim, e nos maravilhamos com sua sala e mesa de jantar para 36 hóspedes, assim como sua pista de dança para festas depois das refeições. Clendenen é nitidamente um anfitrião nato.

No momento em que nos sentamos para o almoço na adega, havia pelo menos 20 pessoas à mesa, um grupo variado de funcionários, clientes, colegas produtores de vinho e varejistas do mundo todo. Mas, sabiamente, Clendenen fez com que as estrelas fossem os vinhos e não sua deliciosa comida feita com ingredientes de qualidade e com aromas aconchegantes (sua especialidade é a maminha de alcatra suína assada). Dentre as 16 garrafas servidas durante o almoço, as estrelas foram um Sanford & Bento Chardonnay 2003 (cujo vinhedo se situa hoje na área sul de Sta. Rita Hills) e um Isabel Pinot Noir 1994. Para mim, ficou evidente que cada um dos vinhos servidos provou que Au Bon Climat é capaz de produzir vinhos que continuam cantando vivamente enquanto muitos de seus pares já estão mortos e enterrados há anos.

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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