Prazeres da mesa

Antes tarde?

Por: Prazeres Da Mesa | 11.aug.2015

Com mais de cem anos de existência e quando já não representa um referência absoluta da qualidade de restaurantes, o Guia Michelin chega ao Brasil

 

Com seu lançamento previsto para o dia 8 de abril, mas com seus resultados divulgados, através do site, já em março, o Guia Michelin de restaurantes chegou ao Brasil.

Com mais de cem anos de vida, o guia já foi a referência absoluta da qualidade de restaurantes na Europa. Nos últimos tempos, algo mudou — por um lado, ele se expandiu para outros continentes, obrigando-se a uma visão mais ampla; e por outro, passou a conviver com outros guias e listas cuja influência é crescente.

Sua chegada à América Latina se deu pelo Brasil. Em parte pela importância do país no quadro da gastronomia do mundo, mas também, é bom lembrar, porque é neste país que a empresa que o edita (os pneus Michelin) tem maior presença no continente — e onde, portanto, o marketing da companhia é mais importante.

Alguns se queixaram da magra distribuição de estrelas — ninguém levou a cotação máxima (três estrelas), somente um recebeu duas estrelas (o D.O.M., de Alex Atala), e apenas 16 ficaram com uma estrela, dez em São Paulo e seis no Rio. Mas não me parece um problema.

Um guia brasileiro tem que balizar sua cotação máxima pelos melhores restaurantes do país, e sair classificando daí para baixo. Mas um guia mundial como o Michelin tem que tomar como referência, para as três estrelas, o topo do mundo; e num mundo com os grandes restaurantes da França, da Espanha, do Japão (entre outros), a verdade é que o Brasil não tem ainda como se equiparar aos melhores.

Há também queixas de que o guia só premiou restaurantes do eixo Rio-São Paulo. Também aí acho compreensível. Aliás, o guia, como se vê por sua capa, não é um “guia Brasil”, é o guia “Michelin Rio de Janeiro & São Paulo”. Foi o mesmo que fizeram quando chegaram aos Estados Unidos ou ao Japão (começaram por poucas e principais cidades, e foram ampliando).

O mais interessante será ver, daqui para frente, que impacto terá o Michelin em sua chegada tão tardia ao Brasil. Quando foram para os Estados Unidos, pareceu uma reação ao fato de que o guia americano Zagat havia começado a avaliar países na Europa. Da mesma forma, a expansão para novas fronteiras parece corresponder à crescente importância global da lista da revista inglesa Restaurant (dos 50 melhores restaurantes do mundo, com versões para Ásia e América Latina).

Os métodos e critérios de cada um são bem diferentes. Mas também o público é composto por pessoas diferentes, que podem gostar de outros pontos de vista que não apenas o do tradicional Michelin. Por um século, este reinou quase absoluto. Diante de novas referências como Zagat, World’s 50 Best e outros, seu espaço já não é o mesmo. Como será a recepção no Brasil?

Sergio Castro, Gabriel Bialystocki, Josimar Melo_Ed.90Fotos carol Gherardi

*Um dos maiores críticos gastronômicos da América Latina e autor da coluna Bom de mesa, de PDM

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