Prazeres da mesa

Aqui não tem senha de wi-fi, conversem!

Por: Prazeres Da Mesa | 4.sep.2017

Ines de Castro

Semana passada saí para jantar. Assim que me sentei, tirei o celular da bolsa e o coloquei em cima da mesa, com a tela virada para baixo. Tomei o cuidado de ajustar o som em volume baixo para que, caso o aparelho tocasse, eu não virasse o centro das atrações.

O celular ainda me constrange, mas não posso negar que seja uma tremenda mão na roda para manter contato com o filho. Não são poucos os artigos que condenam os pais-helicóptero, que cercam suas crias o tempo todo de cuidados. Mas, me diga você, que vive em cidades violentas e inseguras como São Paulo, Rio de Janeiro ou outra capital desse Brasil gigante: ficaria em paz, com o celular desligado e o filho zanzando sabe-se lá por onde no meio da madrugada?

Eu sou “mãe-solo”, não tenho com quem dividir os cuidados e as preocupações com meu filho, e não fico tranquila quando perco o acesso a ele. Assim, não tenho a menor vergonha de dizer que mantenho o celular por perto ainda que esteja num jantar romântico. E se o acompanhante esboçar desagrado, logo me ocorre que talvez seja melhor trocar de namorado.

Mas eu admito. A galera está exagerando. Celular tem, sim, a sua serventia e ela não é pequena. Mas não vejo quem esteja puxando o freio de mão; ao contrário. Super frequente ver casais que saem para jantar e, de repente, estão entretidos em seus mundinhos particulares. Cada qual interagindo com seu próprio celular. Vale para todo tipo de casal, inclusive os madurões, os chamados migrantes digitais, que não nasceram na era do computador, dos tablets e celulares, mas se deixaram seduzir irremediavelmente.

Há alguns meses, fui jantar num restaurante em Natal (RN) e uma gentil recepcionista me trouxe uma caixinha artesanalmente forrada. Olhei com cara de interrogação e ela explicou: “quer colocar seu celular aqui para ter um jantar tranquilo?”. Descobri, então, que essa já é prática frequente em muitos estabelecimentos.

Veja a que ponto chegamos. Assim como as escolas estão determinando aos pais o momento “certo” de tirar a fralda dos filhos, os restaurantes estão tentando disciplinar o uso dos celulares por seus clientes para que eles próprios possam desfrutar da refeição pela qual estão pagando.

Vou frequentemente a Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. Muitos dos restaurantes da cidade têm, sim, wi-fi. Mas não contam a senha aos clientes. Um deles chegou a pregar um cartaz simpático na parede: “aqui não tem senha de wi-fi. Conversem!”.

O International Journal of Neuropsychotherapy, publicou um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália. Este trabalho investigava o impacto dos computadores e celulares sobre o relacionamento dos casais e mostrou que o uso do celular à mesa pode ser interpretado como uma fuga, uma tentativa de escapar à conversa e à interação. Não precisava de pesquisa para a gente constatar o fato. O celular virou um recurso fácil. A conversa tá chata? Apela para o celular. A comida está demorando? Recorre ao celular. Deu branco na conversa? Celular.

E vamos nos embrenhando num mundo onde todo mundo fala, mas ninguém interage. Todo mundo curte, mas ninguém te olha no olho. É um desafio, concordo, mas é também um esforço, ainda que seja pelo breve espaço de um jantar que, com entrada, prato principal e sobremesa, raramente leva mais do que duas horas. A gente sobrevive!

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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