Prazeres da mesa

“Assim é fácil trabalhar”. Desculpa aí... mas é bem isso

Por: Prazeres Da Mesa | 5.mar.2018

Os grupos do Facebook são chatos. Na maioria das vezes é isso que eles são: chatos. Mas é impossível fugir deles. Se você não escolhe participar, alguém vai lá, acha que você vai gostar e, pronto, você já virou parte do grupo.

Assim eu fui parar num grupo da Chácara Santo Antonio, bairro nas proximidades de onde moro, em São Paulo. E em uma dessas entradas na rede social, dou de cara com uma postagem “de babar”. Alguém falando sobre uma certa queijaria, recém-inaugurada na região, a Bonanza.

Como assim? Temos uma queijaria no pedaço e eu não tinha a menor ideia? Fui no Google Maps e, quer saber?, a queijaria não é na região. É minha vizinha.

Não vou dizer que perdi o sono, mas acordei no sábado com os queijos na minha cabeça: preciso conhecer, preciso conhecer. Pisei na Bonanza e logo de cara ganhei um sorrisão daqueles que quase mais ninguém dá de graça. O Fábio Costa é o dono do lugar, um sujeito apaixonado, pesquisador e descobridor de queijos. Me disse que não delega o prazer que ele tem de apresentar os seus “filhinhos” e começou a aula. O tropeirinho, irmão caçula do tropeiro, tem semelhança em sabor e textura com seus irmão mais velho. Só que esse matura por mais tempo.

“Agora vem aqui, Inês, esse é o simental, um queijo de massa semi-crua e casca lavada. Não vai estranhar quando eu cortar. Ele é laranja por dentro porque eles usam corante vegetal de urucum… Hum… mas tem um sabor suave”… e tome mais um pedaço de queijo.

Eu estava me divertindo com aquele food-show queijeiro em um sábado calorento e o Fábio, dizia: “O garnizé é lá, incansável. É feito com massa semi-cozida, curado por um mês, tem nome de galinha, eu sei, mas é porque ele tem essas manchinhas causadas pelas ervas que são usadas para temperá-lo, como: tomilho, manjerona.”.

Passamos para o braukäse, um maturadão em câmara subterrânea, para o carijó, em que colocam kümel (ou alcarávia, para nós, descendentes de portugueses), o queijo minas do cerrado até chegarmos à estrela da companhia do Fábio, os da Serra da Canastra Real que o produtor tinha acabado de deixar ali, junto com algumas pegadas de terra da fazenda.

Eu vivo dizendo que para a vida ficar boa, a gente não precisa ir longe. Se puder rodar o mundo, é ótimo. Mas se não puder também… a vida pode ter graça. Só precisa ajustar o olhar. É tudo uma questão de foco, de como olhar e como sentir. Estar com o Fábio e com os seus queijos (com preços surpreendentemente bons) nas primeiras horas do fim de semana fizeram meu tempo de descanso começar muito melhor. Era para ser trabalho, mas como é bom trabalhar assim; conhecendo gente apaixonada, descobrindo trabalho de gente dedicada. Mas, você sabe, essa é uma questão de escolha. Nossa escolha.

 

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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