Prazeres da mesa

Biodiversidade ameaçada

Por: Prazeres Da Mesa | 20.mar.2018

Frutos de diferentes biomas enfrentam obstáculos de comercialização de Norte a Sul do país

Por Sara Almeida Campos

01/12

Muitos desafios são enfrentados para garantir na mesa do brasileiro frutos da biodiversidade repletos de identidade cultural. Um país com dimensões continentais enfrenta constantes desafios de logística e ausência de vontade política para investimentos em infraestrutura, além do preconceito de uma parcela de consumidores. Apesar de todos os obstáculos, a demanda cada vez mais crescente por frutos resultantes do extrativismo chega ao mercado brasileiro alinhada à busca por uma alimentação saudável e consciente.

Um dos sabores marcantes do Amazonas, o tucumã, fruto da palmeira tucumanzeiro, vai muito além de um dos ingredientes do famoso sanduíche x-caboquinho – também preparado com queijo coalho e banana-da-terra (chamada popularmente de pacovã), famoso nas ruas de Manaus. A demanda manauara pelo fruto cresceu vertiginosamente nos últimos anos, o que impulsionou a necessidade da compra em outros estados.

“ A demanda é tão grande que a região de Manaus e seu entorno chegam a importar tucumã de outros estados, como Roraima. O fruto está presente no café da manhã e na merenda, mas tem sido cada vez mais integrado a outras refeições”, afirma Carlos Alexandre Demeterco, facilitador da Região Norte do Slow Food e responsável pela meta de comercialização regional do projeto Alimentos Bons, Limpos e Justos, executado pelo Slow Food, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com o apoio da Secretaria Especial de Agricultura Familiar (Sead).

Apesar da crescente demanda por ingredientes regionais, os frutos originários do extrativismo lançam desafios inerentes à natureza: a sazonalidade e as mudanças climáticas. “As transformações que impactam essas produções locais são provocadas por nós mesmos. Elas interferem no volume de produção, que fica ainda mais inconstante”, diz Demeterco. Outro ponto ressaltado pelo especialista é a falta de informação do consumidor sobre desafios impostos pela cadeia produtiva. “O público deseja demanda em nível de grandes redes de supermercado e não entende as dificuldades que envolvem todo o caminho percorrido pelo fruto até chegar às prateleiras.”

No caso da Amazônia, uma característica que deveria facilitar o escoamento, gera dificuldades. O transporte fluvial exige custos que precisam entrar na conta paga pelo consumidor. “Os custos para armazenamento dos alimentos, do combustível e da manutenção das embarcações são muito altos. A maior parte dos produtores familiares e/ou extrativistas, que somam a maioria absoluta da agricultura do Amazonas, não tem condições de comercializá-los de maneira autô-noma ou até mesmo coletiva. É aí que entram os atravessadores, que passam pelas comunidades do interior comprando a produção familiar para vendê-la nos centros urbanos. Eles costumam barganhar preços com os produtores e lucrar muito mais do que seria justo.”

Na Região Sul do país, a informalidade na comercialização de produtos artesanais carregados de história, como o queijo colonial e o pinhão, lançam a dificuldade de estatísticas que poderiam auxiliar em estratégias para o acompanhamento da produção e da comercialização de produtos. Mesmo com essa dificuldade, os frutos da biodiversidade têm atingido um longo alcance de mercados institucionais, como a merenda escolar. “Essa realidade permite a ampliação de acesso e reconhecimento por uma parte significativa de futuros consumidores, promovendo a educação para sabores e valores nutricionais muito especiais”, diz Alexandre Prada, facilitador da Região Sul do Slow Food.

Já o icônico pinhão tem escalas ascendentes de produção e passa por uma fase de crescimento no mercado. Mesmo com o cenário favorável, é preciso repensar a cadeia produtiva. “Há a necessidade de desenvolvimento de técnicas mais seguras de colheita, processos de beneficiamento mais adequados à conservação e a implementação de novos produtos com base nessa matéria-prima”, afirma o facilitador. Outro desafio na região está relacionado à especulação imobiliária, uma ameaça à sobrevivência dos butiazais, que geram o fruto butiá, que corre risco de extinção, integrante do catálogo Arca do Gosto e parte da cultura gastronômica catarinense.

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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