Prazeres da mesa

Bordeaux em grande nível

Uma prova com tintos da nobre região francesa mostra que a célebre classificação de 1855 não reflete a realidade

Por: Prazeres Da Mesa | 16.nov.2010

 

Para promover os vinhos da região de Bordeaux, na França, a importadora Mistral realizou recentemente no Hotel Hyatt, em São Paulo, uma degustação de tintos de sua importação. O painel reuniu nove exemplares do Medoc; sete deles Grand Cru Classé, na classificação oficial do lugar, que ordena em níveis, de um (première cru) a cinco (cinquième), a elite dos goles daquele canto gaulês.

A prova trouxe à tona novamente dois pontos. Um é que a classificação, cuja origem remonta a 1855, hoje não reflete necessariamente a qualidade dos vinhos que a integram. Alguns, em postos mais modestos, superam, ano após ano, outros em degraus superiores. Exemplos, na  prova, foram o Château Lynch-Bages e o Phélan Segur, este, aliás, um Cru Bourgeois, que nem sequer faz parte do grupo. Outro é o dos valores pedidos por eles (ainda pior por aqui por causa das distorções de nosso mercado). Impulsionados pelos países emergentes, os preços dos Bordeaux têm disparado, descolando-se da performance deles no copo, como fica também refletido nas avaliações de alguns dos vinhos das quatro comunas servidos no evento.

SAINT-JULIEN
Château Lagrange 2005 – 3ème Cru Classé –  Cerejas no nariz e na boca moldam um vinho saboroso.Taninos muito evidentes, porém, dão leve rusticidade ao paladar, que mostra toque de álcool no final (88/100, US$ 248).

Château Branaire-Ducru 2005 – 4ème Cru Classé – Bom equilíbrio, taninos firmes. Frutas vermelhas e toques de couro marcam aroma e sabor, elementos que se prolongam num final de boa persistência (90/100, US$ 299,50).

Château Léoville-Barton 2006 – 2ème Cru Classé – Mostrou perfil simples no nariz e no paladar, onde surge fruta agradável mas curta, com taninos um pouco rudes que tiram brilho ao final (88/100, US$ 299).

Château Langoa-Barton 2004 – 2ème Cru Classé –  Rico no aroma (groselhas, geleias, tons tostados, tabaco) e no sabor, com o conjunto embrulhado em taninos finos, que lhe dão boa textura (91/100, US$ 246,50).

MARGAUX
Château Kirwan 2006 – 3ème Cru Classé  – Um dos melhores Kirwan que já provei. Fruta e tons de chocolate moldam o paladar e suavizam os taninos jovens que aportam uma pincelada áspera ao final (89/100, US$ 195,50).

PAUILLAC
Château Lynch-Bages 2005 – 5ème Cru Classé – O cru do quinto escalão exibiu força de segundo. Tons tostados e de especiaria; frutas vermelhas e baunilha dão um paladar rico, equilibrado e redondo, com taninos macios (91/100, US$ 432,50).  

SAINT-ESTÈPHE
Château Les Ormes de Pez 2006
– Cru Bourgeois – Austero, com fruta limpa, mas discreta, e sabor com pouca complexidade, marcado por boa acidez. Taninos secos dão leve tom amargo ao final (87/100, US$ 129,50).

Château Phélan-Segur 2005 – Cru Bourgeois  – Nessa safra, a altura de um Grand Cru. Aromas tostados e de café por cima de frutas vermelhas dominam seu paladar, harmônico e redondo, sem arestas (90/100, US$ 132).

Château Cós d’Estournel 2001 – 2ème Cru Classé – Faz tempo que mereceria estar no topo da lista junto a monstros sagrados como Latour ou Mouton. Ameixas maduras, compota, torrefação e cacau se mesclam no sabor, amplo e persistente (93/100). Pena é o preço (US$ 645,50), considerado “muito caro” até pela representante da propriedade, com quem tive a sorte de compartilhar a mesa.

* Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S.Paulo e do site Basilico.

 

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*Escreve também para o site Basilico

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