Prazeres da mesa

Brancos franceses

O (grande) nome por trás do Clos Floridene, que, em degustação às cegas, levou à lona alguns vinhos que custavam até cinco vezes mais

Por: | 19.jul.2012

Por Jorge Carrara*

A coluna de hoje nasceu algum tempo atrás numa degustação às cegas, essas provas deliciosas em que se sabe o tema, mas não o vinho que se está degustando (apenas, talvez, com sorte, dê para identificar o que você mesmo trouxe). A daquela noite abordou uma pauta ampla: brancos franceses.

Apuradas as preferências e reveladas as garrafas, ficou no topo do pódio na opinião da grande maioria do grupo um exemplar de Bordeaux: o Clos Floridene, do Domaines Denis Dubourdieu, que, de quebra, sendo o de menor preço do painel, acabou levando à lona vinhos que custavam até cinco vezes mais que ele.

O resultado pode parecer surpreendente, mas há bons motivos para alavancá-lo. Por trás da empresa que elabora os Clos Floridene está precisamente quem lhe dá o nome: Denis Dubourdieu. Neto e filho de vitivinicultores bordaleses, professor de enologia desde 1987 na Universidade de Bordeaux, consultor de várias vinícolas, entre as quais alguns “Cru” do lugar, Dubourdieu atua no universo dos tintos, mas é considerado um dos grandes especialistas em brancos da região.
E com justiça: assina nessa categoria uma coleção de goles com forte expressão de fruta, elegantes na dosagem da madeira, amplos e saborosos, vinhos que não precisam de muitas explicações, falam por si no copo.
Eles têm como berço várias propriedades, todas ao sudeste da cidade de Bordeaux, no eixo Graves–Sauternes –Premières Côtes de Bordeaux. Vale, portanto, conferir algumas das últimas versões que aportaram por aqui, safra 2009, colheita, aliás, considerada excepcional por lá.

Um é o Clos Floridene, claro, oriundo de 42 hectares na região de Graves, comprados desde 1982, parcela trás parcela, por Dubourdieu e a mulher (e sócia), Florence. A edição 2009 do Floridene é um corte de Sémillon (52%), Sauvignon Blanc (47%) e Muscadelle. Fermentado em barricas novas e usadas, estagiou oito meses nelas. Intenso e elegante une frutas brancas, como pera, o clássico “xixi de gato”, típico dos Sauvignon franceses, e notas verdes (arruda) num paladar untuoso e equilibrado, com boa acidez (90/100, R$ 80,49).

O Château Doisy-Daëne, em Sauternes, um “2ème Cru Classé”, segundo a classificação de 1855, é outro dos redutos comandados pelo enólogo. Pertence a sua família desde 1924, e a maior parte de seu portfólio está dedicada aos incomparáveis e deliciosos vinhos doces, de sobremesa, da região. Mas há também no catálogo um belo exemplar seco, o Grand Vin, um Bordeaux, elaborado apenas com uvas Sauvignon Blanc, fermentado em (e com 8 meses de) barricas, 20% das quais novas. Ele é untuoso, longo e amplo em boca, onde aparecem aspargos, leve pimentão, carambola madura, toques florais e de mel, cobertos por um verniz delicado de madeira (90/100, R$ 111,42).

O casal Dubourdieu é também dono do Château Reynon (cerca de 20 hectares de vinhas na denominação Premières Côtes de Bordeaux), que foi comprado pelo pai de Florence em 1976. Surgem de lá dois brancos. No topo, está o Château Reynon, um Sauvignon Blanc (com 12% de Sémillon) vinificado e amadurecido em cubas, sem contato com carvalho.  Rico, intenso, vivaz e com boa complexidade (fruta, leve grapefruit, notas de pimentão e daqueles fluidos felinos), ele mostra toda a tipicidade da cepa num sabor que perdura por bom tempo na boca (90/100, R$ 61,86).

O outro é o segundo vinho do Châ- teau: o Le Clos de Reynon, em que também aparece marcante a Sauvignon Blanc e sua fruta saborosa mesclada a pinceladas cítricas. Um branco vibrante e hedônico e, com o anterior, claro destaque em custo-benefício (89/100, R$ 47,08).

Todos à venda na Casa Flora.

* Jorge Carrara escreve também para o site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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