Prazeres da mesa

CHÁ DA REVELAÇÃO E OUTRAS BOBAGENS

Por: Prazeres Da Mesa | 8.jan.2018

Meninos de azul, meninas de rosa. Essa história é antiga, de um tempo que não havia ultrassonografia para saber o sexo do bebê. E há muitas explicações para justificar por que escolheram uma cor para elas e outra para eles. Mas faz pelo menos uns 20 anos que lutamos para acabar com esse tipo de “classificação” que só fortalece preconceitos. Então, aparece um gênio da lâmpada e inventa o quê? Inventa o tal “chá da revelação”.

Rememore aqui comigo: antigamente, quando uma mulher estava prestes a dar à luz, primas, irmãs, madrinhas e amigas se juntavam à gestante para presentear a futura mãe com fraldas, chupetas, brinquedos infantis e, claro, para dar conselhos (a maioria deles inútil) e para contar histórias sobre parto (especialmente os mais traumáticos, que chamavam à atenção naquela monotonia que costumava ser o evento). Perceba, era encontro de mulheres. Não havia futuro pai, marido, amigo… os homens eram vetados nesses chatíssimos chás de bebê que acabaram morrendo, foram enterrados e – de tão aborrecidos – provavelmente nunca mais serão ressuscitados.

Havia, portanto, necessidade de alguma coisa para colocar no lugar. Inventaram, assim, o chá da revelação, um encontro onde o casal (aí sim) anuncia para o mundo qual vai ser o sexo do bebê, como se isso fosse o fato mais importante, mais determinante da vida futura dessa pessoa, uma espécie de destino selado.

Para criar um climão no chá da revelação, são preparados docinhos rosas e docinhos azuis. Bolo rosa e bolo azul. Bexigas rosas e azuis. A ideia é gerar expectativa, um tipo de confusão. Não raro há velas e enfeites em formato de ponto de interrogação, como se a resposta para aquela pergunta fosse relevante para todos que estão ali (sinto desapontar as gestantes que preparam o chá da revelação, mas os convidados não estão nem aí se vai ser menino ou menina, ok?).Em alguns casos, quando os pais seguem uma linha mais despojada, preferem o bolo disfarçado: todo branco por fora, mas com massa colorida por baixo da cobertura (só a boleira, além dos pais, sabe que cor tem ali dentro). Lá pelas tantas, alguém corta o bolo anuncia a novidade: Menino!!! Menina!!!

Não posso imaginar nada mais sexista, nada mais tolo, nada mais inútil do que essa comemoração que poderia, simplesmente, celebrar uma vida que está sendo preparada. Já acho exageradíssimo que se prepare uma festa só com essa finalidade mas, vá lá. Acaba sendo útil para que os futuros pais ganhem um pouco do que vão precisar e, assim, economizem alguns reais no futuro. Mas não é isso que tem acontecido nos chás da revelação, transformados em grandes festas, com assessoria de cerimonialistas, buffets especializados… Gasta-se uma pequena fortuna em nome de promover quem ainda nem chegou e, provavelmente, estaria melhor em casa, no sossego do ventre materno, sem tanto aporte de açúcar, gorduras e outros carboidratos sem nenhuma utilidade nessa fase da vida.

Mas, de novo, vou dar uma recuada e dar meu braço a torcer. Vivemos um tempo de superexposição, qualquer festinha rende material de sobra nas redes sociais, milhares de curtidas, a tal da sociedade do espetáculo. Ok, que seja. Mas será que dava para liberar o rosa e o azul do bolo e dos docinhos? Será que a gente poderia voltar ao caminho que estávamos trilhando (e já não estava fácil), em nome da igualdade de gêneros e pelo fim dos preconceitos. A nova geração que vem por aí agradece. Tenho certeza absoluta.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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