Prazeres da mesa

Cheiro de família

Por: Prazeres Da Mesa | 22.may.2017

Datas comemorativas não são novidade para a gente. Toda semana tem uma, um evento para comemorar, uma história para ser lembrada, um personagem que merece ser celebrado. O da semana é o café. E a data escolhida (24 de maio) marca o início da colheita em diversas regiões cafeeiras de todo o Brasil.

Não ando muito preocupada com as datas, mas essa aí me resgatou uma lembrança afetiva das melhores. Mammy é apaixonada por café. D.Lúcia ruma para os 8.4 e continua plugada no 220W como sempre foi desde que me conheço por filha número 3. Minha mãe toma uma xícara de café grande toda manhã. Outra xícara grande à noite. E se alguém oferecer um expresso no meio da manhã ou no meio da tarde, ela aceita. E como ela, toda a família.

dia do café inês de castroNos idos dos anos 1960, 1970, mais ou menos, visitávamos a vó duas ou três vezes por semana. Moravam ela e as irmãs – minhas tias-avós – em uma rua sem saída no bairro do Brooklin, em São Paulo. Ali era um antigo sítio do bisavô Ramón Leandro. Mais tarde, foi fraccionado pelo número de filhos e deu origem àquele que, hoje, seria um tipo de condomínio horizontal. Só que, naquele tempo, era apenas a rua das irmãs (e de um irmão, meu tio-avô).

Para lá, seguíamos uma ou duas vezes na semana e sagradamente aos finais de semana, quando a vó e a mãe tomavam café com bolo. De vez em quando vinha uma tia. De vez em quando vinham duas… e mais uma cunhada, uma ou outra prima… Mulherada. Mais café, mais bolo… às vezes doce de abóbora, às vezes de laranja, mas sempre com café. Assim, desde bem pequenininhas, eu, minhas irmãs e os primos aprendemos a associar cheiro de café a cheiro de família.

Se foram a tia Generosa, a Judith, se foi a vó Anita e a tia Lita. Mas a geração seguinte está toda aqui e continua se reunindo para um café. Ou muitos, dependendo da extensão da conversa. Hoje existem as maquininhas que facilitam a vida (apesar da mãe ainda preferir o café de coador). E dá-lhe café depois do compridíssimo almoço de domingo, dá-lhe café quando a gente tem de conversar assuntos (os bons e os maus) da família. Dá-lhe café quando tem de anunciar o namorado novo de alguém, a viagem de um sobrinho…Qualquer novidade é com café.

Há alguns anos viajei para a Europa, onde encontrei uma conhecida que estava morando por lá. Metida no mundo da gastronomia, deu de bacana ao me interpelar sobre esse hábito – que ela chamou de “pobrinho” – de brasileiro tomar café. Me disse a moça: “tem tanta variedade de chá… não sei por que brasileiro não toma chá. Temos de evoluir, aprender a tomar chá”. Respondi com a cabeça, me aproximei do balcão do bistro e pedi: donnez-moi un café, s´il vous plait? (Por favor, um café?, em tradução livre)

E fim de papo.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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