Prazeres da mesa

COMI COM OS OLHOS

Por: Prazeres Da Mesa | 19.sep.2017

Há uns anos, Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, não era o refúgio turístico de inverno que é hoje. Era aquela cidade onde a gente demorava para chegar. Estradinha ingrata, curva pra lá e pra cá… invariavelmente eu desembarcava zonza, quando não passava mal e obrigava meu pai a parar no meio do caminho. Cidade das cachoeiras mais geladas, dos pinheiros mais altos, o único lugar que eu conhecia onde se podia comer framboesas frescas recém-despregadas do arbusto, a cidadezinha onde primeiro se ouviu falar sobre chocolates artesanais.

A casa de Campos era um chalé, com troncos pintados toscamente e corações nas janelas. O frio de lascar, que faz a alegria dos turistas até hoje, vinha por debaixo das portas e a gente se embolava nas mantas porque edredon não havia àquela época.

Tarde sim, tarde não, íamos ao centrinho de Capivari onde não havia muita coisa além do restaurante Nevada (que está no mesmo ponto até hoje), a Igreja de São Benedito e a doceira italiana com uma irresistível vitrine onde eu, com 7 ou 8 anos, colava o nariz até decidir qual seria a guloseima do dia.

Meu pai pedia os chuviscos (doce feito com gemas de ovos e açúcar) e minha mãe insistia para que a nossa escolha recaísse sobre as bombas de chocolate (o nome éclair não era comum naquele tempo, não). E por quê motivo a mãe nos chateava para que escolhêssemos as bombas? Éramos quatro crianças, olhos maiores que nossas barrigas. Assim, ela podia cortar no meio e evitar os desperdícios, já que era raro conseguir dar cabo do doce até o final. Então, duas bombas para quatro crianças estava de bom tamanho.

Mas um dia dei de insistir no brigadeiro gigante. Meu pai alertou: “você não vai comer tudo… vai enjoar”.  E eu, “Mas eu quero… e eu quero… e eu quero…”. Não convenci a mãe… mas meu pai cedeu. “Tá bom… o brigadeiro, por favor”.

Nunca um doce pareceu tão indigesto. E, obrigada, pai! (onde quer que você esteja) por não me ter feito chegar até o fim na tentativa de me dar uma boa lição.

Semana passada, fui jantar em um restaurante tailandês aqui em São Paulo. Chegamos alguns minutos antes do horário da reserva e resolvemos caminhar pela Alameda Lorena, região dos Jardins, em São Paulo. Virando os olhos para um lado e para o outro, me deparei com a vitrine que me jogou de volta aos anos 1960. Mais sofisticada, muito mais moderna do que aquelas da minha infância, mas o mesmo apelo para que eu voltasse a colar meu nariz no vidro, com a dúvida sobre o que escolher me corroendo por dentro.

Éclair Moi é o nome dessa loja. Talvez as melhores éclairs que já tive chance de provar nos últimos tempos. Bem mais elaboradas do que as de chocolate e baunilha que minha mãe nos dava em Campos do Jordão. Recheios de pistache, massa choux de red velvet, diferentonas… e de dar água na boca.

Me perdi em tanto colorido que se misturou às lembranças de quando eu era uma menininha. “Vou provar essa de caramelo com manteiga de sal”, pedi. “Mas nós vamos jantar”, disse meu amigo. “Sabe, pensei bem e… não vou jantar, não. Vou direto à sobremesa”, respondi, contrariando.

Mordida a mordida, cheguei fácil até o final do primeiro doce e pedi outras duas éclairs tamanho mini, de maracujá e de limão siciliano. Às vezes é assim mesmo. A gente começa comendo com os olhos, depois come com a boca, enche a barriga, pede mais até ficar saciado, pleno, feliz. Porque na língua também vivem as nossas memórias.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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