Prazeres da mesa

Comida no currículo

Por: Prazeres Da Mesa | 9.sep.2016

Lembra dos seus tempos de escola? O que você aprendeu que ficou guardado na memória e é bem útil até hoje?

Tenho filho adolescente, convivo com muitos jovens e crianças, apresentei programa sobre educação no rádio… posso te contar o que eles dizem? Dizem que não aprendem nada de útil na escola. Que nada do que é ensinado ali eles vão “usar” na vida deles. Se a fala é comum no ensino fundamental, que vai até que eles tenham 14, 15 anos, se torna recorrente no ensino médio, entre os 15 e os 18 anos. Aliás, o Ministério da Educação divulgou, nesta semana, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e os resultados ficaram muito abaixo das metas estipuladas.

A escola está muito distante da realidade da vida prática. Ensina-se “o que cai no vestibular” e, como dizem os jovens (tirando os exageros naturais da idade), nada de útil para a vida.

Sempre me perguntei por que as aulas de música são abandonadas quando as crianças começam a aprender os conteúdos formais da leitura e da escrita e também da matemática. Por que as artes, que encantam os olhos, orientam os sentidos e dão asas à fantasia são preteridas como se não prestassem para nada?

No mesmo hall de necessidades eu incluiria coisas que “prestam” para a vida como: aprender a costurar botões, fazer bainhas de calça, arrumar direito a cama onde se dorme e, importantíssimo, PREPARAR A PRÓPRIA COMIDA. Por que as escolas não ajudam as crianças na chamada educação para a vida?

Muitas instituições de ensino diriam: não dá para contemplar tudo no período escolar. Isso é coisa que se ensina em casa. Ok, os pais podem ensinar em casa, sim. Mas é na escola que as crianças têm permanecido por longos períodos dos seus dias.

Não seria mal que as aulas de culinária fizessem parte do currículo – opcional, é bem verdade, porque não vamos esperar que a burocracia do MEC abra os olhos para isso. Seria maravilhoso que não só as criancinhas mexessem na comida como também as crianças maiores e os adolescentes fossem estimulados a preparar seus pães, suas omeletes, seus sanduíches criativos, seus churrascos, suas saladas, por que não?
Falta estrutura física na escola? Pois muito bem, que tal comida fria pra começar?

Dia desses, uma garota de 15 anos me disse que nunca havia provado beterraba, porque achava esquisita aquela cor tão escura. Não sabia a diferença entre “todo aquele mato” que servem na salada nos restaurantes por quilo e nunca tinha tido “coragem” de provar um rabanete. Veja: estamos falando sobre alimentos que podem ser colhidos, lavados, cortados e… comidos. Mas, antes disso, precisam ser apresentados aos menores.

Nesta semana, uma empresa que produz máquinas de lavar decidiu fazer uma experiência nos Estados Unidos. Sabendo que muitas crianças deixavam de ir à escola porque lhes faltava uniformes limpos, a empresa distribuiu 17 máquinas por escolas nos estados do Missouri e da Califórnia. Na escola, as crianças foram ensinadas a lavar a própria roupa e, assim, com essa manobra tão simples, reduziu-se em 90% os índices de faltas.

Poderíamos transportar a ideia da lavanderia para a cozinha, extensiva a uma pequena horta nas escolas. Não é questão de custo, mas de boa vontade. Toda instituição tem algum espaço, por menor que seja, para se dispor um pouco de terra e plantar algumas espécies. Assim, estaríamos germinando uma ideia de ensinar “matérias úteis” para a vida. A ser colhida no futuro.

Inês de Castro_Comida no currículo

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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