Prazeres da mesa

Comida que o celular não mostra. Vida que acontece aqui fora

Por: Prazeres Da Mesa | 11.jun.2018

Almoços solitários são realidade de muitos de nós que trabalhamos fora e temos pouco tempo para uma refeição decente. No dia-a-dia, acabamos nos contentando, mesmo, com os “PFs”, os “bandejões”, os “quilos” porque, afinal, ninguém está podendo esbanjar em um dia sim e no outro também. Resta-nos, portanto, aquela meia hora amiga para nos alimentarmos.

Assim estava eu semana passada; sem um segundo para respirar. No meio do caminho, parei em um restaurante, fiz meu prato e me sentei para a sagrada hora do almoço. Ao meu lado, uma criatura ao celular. Na diagonal, outra. E mais uma na mesa à minha frente e outra na mesa de trás. Eu estava cercada de gente solitária, mergulhada nos seus mundinhos virtuais.

Uma mulher, em particular, me chamou à atenção. Ela estava praticamente deitada sobre um dos cotovelos apoiado à mesa. O garfo flanava em um vai-e-vem desatento entre o prato e a boca, com porções de qualquer coisa que seu paladar não estava interessado em desvendar.

Terminei meu almoço e voltei ao bufê. Havia ali uma boa fartura. A comida estava bem exposta, havia uma funcionária que cuidava de repor o que acabava, um cheiro bom pairava no ar. Portanto, o problema não era a comida.

Virei o pescoço e observei com atenção o espaço onde as mesas e cadeiras estavam distribuídas. Ali havia espaço para circulação, as cadeiras eram novas, firmes, bem estofadas… Não, o problema também não era o espaço de comer.

Tampouco havia barulho excessivo no ambiente, a iluminação parecia bem adequada; estava tudo certo, exceto as pessoas.

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Não sei bem em que ponto nos perdemos das nossas referências sobre boa alimentação mas o fato é que nos deixamos seduzir pela tecnologia. Estamos irremediavelmente apaixonados pelas redes sociais; todas elas – do Whatsapp ao Instagram, passando pelo Facebook, o Twitter, o Pinterest, cada qual com seu apelo. Quanto encantamento existe ali e que não faz parte (não mais) da nossa vida real.

Tenho observado (e você já observou também, aposto) os casais que não conversam entre si, mas cada qual conversa com seu celular. Mesas inteiras de famílias reunidas para os almoços de domingo que pouco se falam, mas teclam insanamente ou puxam a tela para cima e para baixo a fim de saber o que se passa do outro lado e que não lhes pertence.

Há quem esteja lendo esse texto e, nesse momento, já preparando a defesa: “ah, só uso o celular quando estou sozinho, quando tenho alguma coisa urgente para resolver”. Será mesmo que é só nessas horas?

A Academia Americana de Pediatria fez um alerta sobre o aumento no número de crianças e adolescentes com dores nas costas e jogou no colo do celular a culpa pelo pescoço de avestruz que os mais jovens estão cultivando. Mas eu sugiro uma passadinha no espelho antes da gente apontar o dedo para a nova geração. Somos nós que ensinamos e somos nós que permitimos (isso, se considerarmos a possibilidade deles usarem mais o celular do que os adultos, o que eu duvido).

Não sei bem qual é a solução para o problema. Desconfio que passe pela boa e velha consciência de nós, do nosso corpo, para que voltemos a usar aquilo que ensinamos as crianças a terem logo no comecinho das suas vidas: os 5 sentidos. Para ver a comida, sentir o cheiro dela, apreciar o sabor, ouvir o barulho do alimento sendo colocado no prato e, por que não, o toque de um ou outro bocado que a gente leva à boca com as mãos. Ainda que seja um prosaico filé de frango, uma porção de batatinhas fritas ou uma simplória e colorida salada.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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