Prazeres da mesa

Como criar reputação

Mais de 95% dos produtores de vinhos do mundo clamam por atenção, num mercado mundial que está superlotado de ofertas

Por: Prazeres Da Mesa | 28.aug.2008

POR JANCIS ROBINSON (*)

Em uma viagem à Califórnia em fins de 2007, peguei uma carona com Annie Favia, a dinâmica gerente de vinhos da Screaming Eagle. Ela já havia me contado, com certo orgulho, que também produzia os próprios vinhos – Favia Wines, provavelmente assessorada pelo marido, Andy Erickson, também enólogo. Por serem rótulos ainda desconhecidos para mim, perguntei se haveria possibilidade de experimentá-los ou de ler alguma crítica sobre eles. Annie ficou quase chocada e explicou que, até então, não tinha enviado amostras para degustações. Disse que não ousaria sonhar com alguém provando seus vinhos, a não ser que ela estivesse junto para comentá-los, e que se sentia capaz de vender tudo, sem quaisquer degustações.

Provavelmente, também demonstrei ter ficado chocada. A idéia de poder degustar um vinho apenas com a presença de seu produtor encheu-me de desânimo, para não dizer de incredulidade. Se eu adotasse esse critério, não sustentaria minha média de degustação semanal de várias centenas de vinhos. Seria uma impossibilidade física me locomover até os produtores ou convidá-los até minha casa para um encontro (de cinco minutos?).

Relações públicas sempre me informam que os enólogos tais e tais estarão na cidade na semana seguinte e que adorariam me “encontrar”; o que de fato seria um eufemismo para uma “oportunidade de lançá-los à venda”. Houve de fato um famoso enólogo californiano que me propôs um encontro numa época, para mim, muito movimentada. Sugeri que poderíamos examinar seus vinhos durante o almoço (sendo eu casada com um crítico de restaurantes, tenho muitas possibilidades para convites de almoços gratuitos, assegurei-lhe). Ele ficou horrorizado e cancelou o encontro, pois não era sua intenção me mostrar como seus vinhos combinariam com comida. Percebi que sua intenção era submeter-me à morte por PowerPoint.

Por outro lado, é fácil para os produtores de vinhos entender como Annie Favia se sente. Contei essa história para Tim Finn, da Neudorf, um dos enólogos mais admirados da Nova Zelândia. “Eu sei o que é isso”, ele disse. “Você quer contar a história de um vinho em particular. Receia que os degustadores irão negligenciar certas características se não conhecerem o pano de fundo da história. Já tivemos experiências de ler críticas e pensar ‘entenderam tudo errado, se tivessem sabido que…’. Enviamos nossos vinhos para toda parte, mas geralmente eles não são compreendidos.”

Os consumidores raramente sabem a história da produção do que compram e bebem. Então, alguém poderia argumentar que escritores de vinhos, ou pelo menos aqueles que se intitulam críticos de vinhos, deveriam degustar sem qualquer informação pertinente, para experimentá-los de forma tão similar quanto possível à de seus leitores.

Eu me solidarizo com produtores de vinhos e as dificuldades envolvidas em manter a reputação. Se você é pequeno, novo e consegue vender todas as garrafas que produziu, como Annie Favia, então, você pode se dar ao luxo de ignorar qualquer tipo de publicidade. No entanto, mais de 95% dos produtores do mundo clamam por atenção num mercado mundial de vinhos superlotado e necessitam cada vez mais inventar astuciosamente uma forma de se colocarem no mapa. Os publicitários de vinhos são uma nova geração. Devo confessar que meu coração afunda cada vez que certos nomes aparecem na minha correspondência, espalhando “novidades” de qualidade duvidosa. Prefiro consagrar produtores pequenos, como Favia e Neudorf, que possivelmente não poderiam pagar um relações públicas. “Tenho eu um profissional de relações públicas? Não, tenho Judy.” Esse é o ponto de vista sobre publicidade de Tim Finn e sua esposa. “Na Nova Zelândia, apenas as grandes companhias têm um profissional de relações públicas. Nós todos temos de fazer tudo sozinhos.”

Uma vez que a comunicação se tornou global, as resenhas de vinhos se tornaram tremendamente importantes no já tão importante negócio de vendas, que é a ilação necessária para se produzir vinhos. Não é de se surpreender que a Maryland Inn, onde Robert Parker se encontra com favorecidos produtores e importadores de vinhos, seja amplamente considerada como a meca dos negócios de vinhos. Também não é de se surpreender que escritores como eu se sintam como se fossem únicos no negócio. Talvez seja muito fácil me contatar pelo meu website, mas não consigo acompanhar o número de produtores que me enviam e-mails.

Compreendo perfeitamente suas ansiedades em me causar uma impressão boa, mas a experiência me ensinou que eles só recebem bem uma opinião honesta, se ela for favorável. Infelizmente, é quase impossível acompanhar todos os rótulos que estão comercialmente disponíveis, sem contar aqueles que são totalmente novos ou nunca foram exportados. Se não tivesse cuidado e desse algumas respostas com educação, porém firmes, eu estaria dando consultoria de graça. Deve haver algum truque para se fazer um vinho desconhecido parecer irresistível, pois, às vezes, as histórias instigam minha imaginação e eu peço para provar alguma coisa, embora meus leitores possam achar muito difícil encontrá-lo. No entanto, na prática, a grande maioria dos vinhos produzidos hoje em dia é simplesmente similar aos outros.

É muito difícil novatos no mercado fazerem secesso; os antigos também têm problemas, pelo menos, os conscienciosos. No final das contas, pode-se perder a reputação muito mais facilmente do que ela foi conquistada. Acho excelente quando encontro produtores que genuinamente se preocupam com seus produtos. Em dezembro, durante minha visita ao Domaine des Comtes Lafon, em Mersault Dominique Lafon, enquanto me mostrava seus deliciosos 2006, afligia-se de como a longevidade de sua encorpada e sedutora safra de 2005 se finalizaria. No ano anterior, quando provamos esses vinhos, eu já havia mencionado esse fato, mas podia vê-lo franzindo a testa enquanto degustávamos alguns desses vinhos.

“A safra de 2005 é a melhor safra que já tive; mas eles estão fechados e duros agora. As pessoas terão de guardá-los por longo tempo.” Adorei seu Meursault Clos de La Barre 2005 – franco, com textura de cetim e aromas florais. Ele estava preocupado com seu Meursault Charmes 2005, que, em dezembro, não se revelava muito aromático. “Não se preocupe”, eu lhe disse, “tenho certeza que ele vai se abrir novamente.” Lafon balançou a cabeça e deu um suspiro profundo, mergulhando o nariz no copo outra vez, desesperadamente, e disse: “Mas as pessoas esperam tanto de você”.

Esse é o tipo de problema que vem com a fama e certo sucesso. Talvez Annie Favia esteja correta em manter seus vinhos tão perto de si, como faz com as filhas.

(*) Jancis Robinson é master of wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter seu próprio site

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*É Master of Wine e escreve para diversas publicações em todo o mundo, além de manter o próprio site

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