Prazeres da mesa

COMO NASCE UMA FORTALEZA

Por: Prazeres Da Mesa | 7.aug.2017

Conheça os bastidores de um dos projetos mais emblemáticos do Slow Food

O nome diz tudo: Fortaleza. Projeto estratégico para o Slow Food desde 1999, as Fortalezas têm como objetivo conectar os pequenos produtores em dificuldade com o mercado consumidor. No Brasil, onde as primeiras foram criadas em 2004, elas são dez. Mas esse número vai praticamente triplicar em breve – a intenção do fundador, Carlo Petrini, é chegar a 17 até o fim do ano. Para tanto, uma verdadeira operação de guerra foi posta em andamento em todo o país – 17 comunidades estão sendo esquadrinhadas no momento. “Não basta confirmar que o produto está sob ameaça, é preciso ter certeza de que ele tem potencial para entrar no mercado. O objetivo final da Fortaleza é fortalecer a cadeia de comercialização como um todo e desenvolver o mercado para o produto”, afirma Revecca Tapie, facilitadora do Nordeste, encarregada das visitas técnicas em sua região.

Os diagnósticos, segundo Revecca, são complexos e levam tempo. “Somente visitando as comunidades e conhecendo os problemas de perto é possível compreender por que um produto deixou de ser viável economicamente, e por que razão os jovens perderam o interesse pelo meio de vida de seus pais e avós”, diz. Com frequência questões ambientais estão na raiz do problema. Na visita à Bacia do Iguape, no município baiano de Cachoeira, Revecca e quatro profissionais enviadas pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) constataram que a poluição fez minguar a extração de ostras nativas. “Embora a bacia fique em uma área de reserva ambiental, o ecossistema do manguezal não oferece condições mínimas de sustento para as mulheres marisqueiras das comunidades quilombolas”, afirma Revecca. “O trabalho com as ostras está se perdendo, pois as novas gerações não se interessam mais por ele.”

Identificados os gargalos, a etapa seguinte depende de muita articulação. É quando entram em cena as universidades, o poder público e a iniciativa privada, representada pelos chefs que integram a Aliança dos Cozinheiros. “Com base no parecer técnico de todos esses atores, estabelecemos as metas que poderão fortalecer o processo produtivo. A solução pode passar, por exemplo, pela inserção do alimento no programa de merenda escolar, ou nos cardápios dos restaurantes locais.” A assinatura do protocolo de produção, elaborado em conjunto por todos os segmentos envolvidos, é a fase final – e mais esperada. “Após dois ou três dias de discussões intensas, todos assumem o compromisso de seguir as diretrizes que estão no papel, respeitando a filosofia do Slow Food. Só neste momento, a Fortaleza estará oficialmente criada.” Dois anos depois, o grupo ainda precisa se reunir para avaliar os resultados e, eventualmente, traçar novas rotas.

A iniciativa de criação de uma nova Fortaleza pode partir dos próprios produtores que precisam de ajuda. Em geral, explica Revecca, é gente que já trabalha em sintonia com a filosofia Slow Food. “Na maioria das vezes, partimos de uma Comunidade do Alimento ou de um produto já cadastrado na Arca do Gosto.” O caminho das pedras está disponível na cartilha As Fortalezas Slow Food, que pode ser baixada gratuitamente no site slowfoodbrasil.com/documentos/slowfood-livreto-fortalezas.pdf.

MESA SUSTENTAVEL - COMO NASCE UMA FORTALEZA

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O movimento Slow Food faz manifestos pelo resgate de ingredientes e de processos de produção

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