Prazeres da mesa

Como se estivesse em casa

Por: Prazeres Da Mesa | 31.oct.2017

São Paulo tem muitos restaurantes, não é? É… tem muitos. Em quantos deles você se sente realmente à vontade, confiante, sem medo de chegar e ter de esperar por uma mesa, sem receio de que o garçom esteja em um mau dia e não te trate lá essas coisas ou inseguro ao pedir um novo prato?

Tem gente que se jogue, sem medo de ser feliz. Eu fiz isso muitas vezes. Mas a maré não está muito favorável ($) e a minha paciência não anda em alta a ponto de me provocar gargalhadas depois de ter sido mal atendida em um restaurante. É muito frustrante e a frustração cabe em algumas fases da vida… não em todas.

Vai daí que ando dando preferência aos meus portos-seguros. Não são muitos mas, como eu disse, são seguros.

Há alguns anos, quando inaugurou na minha região o Maripili, um bar-restaurante de tapas, ele contemplava exatamente a expectativa que descrevi aí em cima. A cava estava sempre na temperatura certa, o pan con tomate, sempre bem servido, os bolinhos de rabo de toro incomparavelmente crocantes… Para mim estava mais do que bom.

Até que o restaurante ganhou um prêmio. E depois outro e mais outro. Restaurante premiado, você sabe, vem gente do outro lado da cidade para conhecer. Era merecido, fiquei feliz pelos proprietários. Mas também fiquei irritada. Aquela esquina que eu considerada “toda minha”, porque atendia inteiramente a minha necessidade, estava perto da minha casa, passou a ser invadida pelos “forasteiros” de outras partes da cidade.

Passei um tempo sem ir até lá. Um dia voltei com o namorado e ficamos 40 minutos na calçada conversando com outros casais que também esperavam por uma mesa. Estava uma noite bonita, quente, a companhia era boa… aguentamos. Mas jurei que não repetia a dose por nada no mundo.

Passaram-se meses até que, em um trajeto pelo bairro, passei em frente ao Maripili e, que delícia, o “meu” restaurante estava ganhando um anexo. Soube, mais tarde, que se tratava de uma irmã, a Carmen. Carmen La Loca.

Fui até lá na semana de abertura. Voltei na semana seguinte… e na outra. Conheço os garçons pelo nome e eles a mim. Sempre tem uma mesa esperando a mim e as minhas companhias. A comida é sempre boa, farta e tem preço bom. Me sinto à vontade como, talvez, sentissem-se à vontade todos aqueles filósofos franceses que se juntavam no Aux Deux Magots, na Paris dos anos 1940. Também os brilhantes Picasso e Puig, no Quatre Gats de Barcelona, no começo do século passado.

Óbvio, não estou me comparando. Apenas buscando o sentido para o termo “ficar à vontade”, aquele mix de conforto, segurança e bem-estar que a gente procura onde e com quem a gente ama estar.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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