Prazeres da mesa

Credo, eu não como isso !

Por: Prazeres Da Mesa | 8.apr.2016

Reclamar de filho adolescente sempre foi clichê entre os pais. Mal adentram os 13 anos, lá vem a tempestade de queixas – fracos que somos da memória porque fomos adolescentes iguaizinhos (às vezes piores) a esses que temos em casa. Mas dá uma preguiça lembrar, não é?

E nessa fase da vida, comum mesmo é assistir o lamentável afastamento. Portas fechadas de um lado e de outro, agendas que nunca se encontram. Sempre me esforcei para não chegarmos a esse ponto… e não chegamos.

Eu e meu filho adoramos a companhia um do outro e curtimos alguns programas, em especial. Por exemplo, assistir aos programas de gastronomia na televisão.

Quando começam as gravações do Masterchef, no grupo Bandeirantes, onde estou todos os dias para meu trabalho na rádio BandNews, esbarro com os participantes nos corredores. Assim como com um ou outro jurado. Embora não assista às gravações, acompanho as movimentações nos corredores e divido com meu filho pequenos lances dos bastidores. Então, quando os episódios vão ao ar, seguimos tudo com bastante avidez.

Assim como temos feito com outros programas do gênero, como o “Que Marravilha, Chato Pra Comer”, onde o carismático Claude Troigros provoca gente que parece ter nojo de comida. Sobre eles – os chatos – tenho meus comentários de hoje.

Dia desses, meu filho perguntou: como é que essa moça nunca comeu um peixe? E a resposta provável seria: ninguém ofereceu à ela. Também não come salsinha? Não. Coentro? Quinoa? Bacon? Nenhum deles. E sobre ingredientes mais improváveis como polvo ou rã? Nada, nem pensar.

Pois é, não tem como gostar daquilo que jamais foi provado. E não há como experimentar se aquele que oferece conduz o processo fazendo chantagem, forçando a barra, criando um “climão”.

Abandonados aos próprios pratos… assim cresceram os chatos pra comer, com seus paladares ignorantes e restritos. Sem a chance de experimentar o mundo pela boca. A cena do sujeito entortando nariz e boca para a comida me causa arrepios, calafrios, horror.

Coluna inês de castro - polvo

Vai daí que, sempre que temos oportunidade, provamos um ingrediente novo. Há alguns anos, em Azenhas do Mar, na região de Colares, Portugal, tentei que meu filho – ainda um menino – provasse o polvo. Fez cara feia… não provou. Anos mais tarde, tentei de novo e ele beliscou… mas não prosseguiu no desfrute do polvo.

Há alguns dias, acionei a memória e, como em um desafio culinário, provoquei: você tem que pedir um polvo. Vai adorar. E lá fomos nós para o Rufino’s, no Guarujá, em busca do tal polvo.

Antes que eu pudesse cortar fora um tentáculo pra colocar no meu prato, meu voraz adolescente já tinha dado conta do recado. “Desculpa, mãe, você queria dividir comigo?”… Tudo bem, filho, tudo bem.

Não. Definitivamente eu não tenho, em casa, um chato pra comer!

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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