Prazeres da mesa

Criança não entra

Por: Prazeres Da Mesa | 4.nov.2016

Semana passada, as redes sociais e a internet foram chacoalhados pela discussão sobre os restaurantes que proíbem a entrada de crianças e cachorros. Sobre a primeira indignação disseram: como assim, comparar criança com cachorro?

Vou passar rapidinho por essa aqui. Não dá para comparar, não. Ambos precisam e merecem cuidados. Ambos preenchem a nossa vida com amor. Mas é só. Criança é gente, cachorro é bicho; não se compara, é injusto com ambos.

Vamos, portanto, à segunda indignação: quanta discriminação com os pequenos, que absurdo proibir que eles entrem no restaurantes! Eu também tive o meu tempo de pensar assim.

Muitas vezes – ainda que estivesse em busca de um cantinho romântico onde me refugiar com meu amor – ficava receosa de me hospedar nesses hotéis que não aceitam crianças (que medo de gente que discrimina… que pavor de gente que diz odiar criança). Aconteceu uma vez em Monte Verde (MG), outra em Campos do Jordão (SP)… acabei preferindo os hotéis onde famílias eram bem-vindas, ainda que estivesse sem o meu filho.

Mas os anos passam, a gente apura o olhar, aprimora a percepção. Hoje meu filho é um rapaz. Temos como hábito ir a muitos restaurantes juntos. E algumas coisas têm nos incomodado seriamente, a ponto de deixarmos um ou outro estabelecimento.

Dia desses, aconteceu em uma churrascaria. Duas ou três mesas para lá da que ocupávamos, um garotinho berrava. Não chorava. Não resmungava… Berrava! Queria algo que não lhe davam (não sei e não quis saber o que era). E como não lhe davam, berrava de forma ensurdecedora. Minha surpresa: ninguém tomava uma atitude. Ninguém.

Tenho muito contato com crianças. Fico penalizada quando as vejo chorando. Sou capaz de deixar o que estou fazendo de lado para tentar entender e consolar um pequenininho às lágrimas. Mas o berreiro daquele garotinho na churrascaria levou 40 minutos porque a mãe – ao que entendi – era adepta da filosofia “deixa chorar porque, quando ele cansar, para”. Mas ele não parou e fomos embora.

Em uma outra oportunidade, quem ocupou a cena foi um tablet. Uma pequenina criatura (2, no máximo, 3 anos), entretida com um joguinho em que a boneca vai e vem ao reino encantado, ouvia a musiquinha infernal em altura máxima. O pai? Tranquilamente devorava sua lasanha, sem se importar minimamente que a música do tablete da filha incomodasse todo o restaurante.

Pois assim estamos. Em um mundo repleto de folga (de um lado) e intolerância (de outro). E como não respeitamos o espaço, o ouvido nem o bem-estar alheio, estamos sendo impedidos de frequentar restaurantes com nossos filhos pequenos, ainda que eles sejam tranquilos, silenciosos, pouco dados à birras. Ninguém quer saber. Na dúvida, proíba-se!

A culpa (não sou muito favorável ao termo, mas aqui cabe bem) não é, em absoluto, dos menores, mas da legião de pais que não educam, não se incumbem, não gastam tempo com quem mais merece e precisa; seus filhos. O que, de mais importante, estariam fazendo, não é?

Enquanto esperamos pelas respostas, vamos desviando dos estabelecimentos que, na ordem do dia, decretaram: aqui, criança não entra.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

Colunas recentes

Colunas