Prazeres da mesa

CULTURA SEM FRONTEIRAS

Por: Prazeres Da Mesa | 18.feb.2016

Por Flávia G. Pinho, de Santana do Livramento

Nos pampas que cobrem o Rio Grande do Sul e o Uruguai, nasce o primeiro convívio binacional do Slow Food

As planícies, serras e coxilhas que formam os pampas desconhecem fronteiras. O bioma, imortalizado pelo épico O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, não é exclusividade nossa – se estende pelo Uruguai e parte da Argentina. Foi nesse cenário idílico que nasceu oficialmente, em julho, o Convívio Binacional Slow Food Livramento-Rivera. No dia 18, sob um raro céu azul em plena temporada de chuvas, quase 500 pessoas se reuniram ao redor de uma mesa gigante montada na Praça Internacional, bem em cima da linha imaginária que divide as cidades de Santana do Livramento, no lado brasileiro, e Rivera, do lado uruguaio. O cardápio: churrasco de cordeiro preparado ao fogo de chão e riveli, doce típico à base de pão de ló e doce de leite (ou de pêssego), cujo nome é a junção das duas cidades. O anfitrião foi ninguém menos do que o presidente do Slow Food, Carlo Petrini, que veio da Itália para celebrar a comunhão entre os dois países. “Bendito será o dia em que, numa mesa assim, se sentarem israelenses e palestinos, irlandeses e ingleses”, diz Petrini, convidando ao brinde.

Além de comemorar a formação do convívio, o almoço marcou a abertura oficial do Festival Binacional de Enogastronomia e Produtos do Pampa, realizado de 30 de julho a 22 de agosto. O evento, coordenado pela chef e pesquisadora Jussara Dutra, está na segunda edição e tem como objetivo valorizar a produção alimentar e a preservação dos saberes e fazeres culinários comuns às cidades de Santana do Livramento e Rivera – que demandam cuidados urgentes. As principais ameaças, segundo a bióloga Natalia Bajsa, do Convívio Canario do Slow Food Uruguai, são as propriedades agrícolas dedicadas a monoculturas, que não param de se expandir. “As plantações de soja e milho transgênicos já cobriram 30% do território dos pampas, o que pode duplicar até 2030. Já perdemos 20% de nossos ecossistemas naturais.”

Parte do time de resistência esteve em Santana do Livramento-Rivera para apresentar suas iniciativas. Logo após o almoço na praça, o público ocupou o auditório do Rivera Cassino Resort para conhecer gente como Ubirajara Martins, proprietário da Quinta Martins, que fica no alto da Serra dos Tapes, região serrana de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ele representa a quarta geração a produzir frutas nativas, como butiá, araçá-amarelo, araçá-vermelho e uvaia, hoje vendidas em forma de suco orgânico engarrafado – tradicionalmente, a fruticultura gaúcha se desenvolveu no século XVIII, na entressafra das charqueadas. “Estamos no Paralelo 31, onde ficam os grandes produtores de frutas do mundo. Mas somos uma fazenda de apenas 2 hectares,  cercada de latifundiários. Tento envolver os vizinhos para que não se desfaçam de suas terras e se tornem parceiros.”

Vindo de Colonia, no Uruguai, o arquiteto Agustin Batallini falou sobre a aventura de comandar uma produção agroecológica de queijos de ovelha. Líderes do convívio local, ele e a mulher, a psicóloga Lucilia, são donos de La Vigna, que também funciona como pousada, na qual o próprio casal responde pela cozinha. “Nosso pasto é orgânico, e as ovelhas são tratadas com homeopatia. Além de usar o leite para fazer queijos tipo feta e pecorino, vendemos o esterco como composto e as roupas fabricadas com a lã”, diz. “Quando temos dúvida sobre como fazer alguma coisa ou resolver um problema, pensamos em como faziam nossos avós.”

Para Bernardo Simões, facilitador do Slow Food na Região Sul, a reunião de brasileiros e uruguaios em um mesmo evento, em que todos têm o pampa como interesse comum, mostrou que a cultura alimentar é o que verdadeiramente nos representa – não nosso passaporte.

Na etapa mais esperada da apresentação, Petrini tomou o microfone – em espanhol salpicado de expressões em italiano, o líder do Slow Food fez muita gente rir, como é praxe, e provocou a plateia a rever conceitos. “Basta ligar a TV para vermos chefs que só falam, falam e falam de receitas. Maldita visão pobre! A gastronomia inclui biologia, pesca, genética, agricultura, história, antropologia, economia, política”, diz. A redução da fertilidade do solo, a crise hídrica mundial e o avanço dos transgênicos são razões urgentes, segundo ele, para o homem assumir uma nova postura em relação ao que come. “No passado, 50% dos italianos eram campesinos. Hoje, infelizmente, não passam de 3%. Como se, no futuro, fôssemos comer tecnologia. Vamos continuar precisando de batatas. Portanto, é hora de voltar à terra.”

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