Prazeres da mesa

Degustando estrelas

Por: Prazeres Da Mesa | 11.dec.2015

Como diria o abade Dom Perignon, degustar espumantes, com suas borbulhas efervescentes, é como beber estrelas. Em Paris, então, eles são obrigatórios. Aqui, um pequeno roteiro de marcas e restaurantes para serem apreciados na capital francesa

O vinho faz parte há (muitas) décadas da minha dieta alimentar. Alias, por sorte, também faz parte da dieta da minha esposa, Silávia (nada como viver e beber em deliciosa companhia). Na ala dedicada a Baco, os espumantes (entre os quais, confesso, predominam os brasileiros) têm participação importante na nossa comunhão etílica, seja no início da refeição como aperitivo, acompanhando o couvert ou a saladinha de plantão, seja até (por que não?) escoltando do início ao fim uma refeição.

Passamos, semanas atrás, alguns dias em Paris e os hábitos a mesa continuaram os mesmos. No departamento das borbulhas, os espumantes marcaram firme presença, e tal como em casa com (total) predominância, claro, mais do que nunca, dos nacionais. Afinal quem resiste aos champanhes, àqueles únicos, divinos e incomparáveis goles franceses?

A parte borbulhante do tour pela capital gaulesa acabou descortinando os exemplares de hoje, todos de pequenos produtores, récoltant-manipulant, responsáveis de ponta a ponta pelos, desde o cultivo das uvas até o arrolhado final dos seus champanhes, e que valem a pena conferir no próximo giro por aquela maravilhosa cidade.  Menção também para alguns restaurantes e lojas que merecem a visita.

Bonnevie-Bocart

Produtor da Montagne de Reims, uma das quatro sub-regiões da Champagne. Sua base está em Billy le Grand, vilarejo classificado como Premier Cru, segundo degrau (o primeiro é Grand Cru) na hierarquia dos melhores terrenos da região. As vinhas da casa abrigam as variedades clássicas champanhesas: Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay.

Cuvée Brut Resérve Premier Cru – Um Blanc de Noirs (branco de uvas tintas) que mescla as variedades rubras da Champagne: Pinot Meunier (60%) e Pinot Noir. O vinho-base ( fermentado pela segunda vez na garrafa para ganhar as borbulhas) foi da safra 2008. Frutas brancas, mescladas com suaves tons tostados e de brioche, marcam um paladar com acidez refrescante e bolhas finas e persistentes (avaliação: 90 pontos em 100, 24 euros).

Arnaud Margaine

Outro vigneron da Montagne de Reims (Arnaud Margaine é a quinta geração da família no comando da adega) com vinhas dedicadas na sua maioria à uva Chardonnay, o que pode parecer curioso num canto, a Montagne de Reims, onde a estrela é a Pinot Noir.

A.Margaine Extra Brut Premier Cru.  Um Blanc de Blancs, branco de uvas brancas, portanto 100% Chardonnay. Potente, combina frutas brancas, tons cítricos e minerais e de leveduras num aroma intenso que parece querer pular do copo. Cremoso, tem paladar vivaz, com boa persistência (90/100, 28 euros).

Yannick Doyard

Doyard tem cerca de 10 hectares de vinhas com idade media de 40 anos distribuídas em 54 parcelas na Côte des Blancs, ao sudeste de Montagne de Reims, outra das sub-regiões da Champagne, onde reina a Chardonnay.

Cuvée Vendémiaire Brut Premier Cru – Blend de Chardonnay de três diferentes safras (2007, 2008 e 2009, esta última responsável por 50% do total). Cerca de 40% do vinho foi fermentado em barricas de carvalho usadas (no mínimo 5 vezes). Amplo, combina frutas como a maçã madura com toques de pão fresco, leve grapefruit e especiaria. Vivaz, mostra boa textura dada por bolhas finas e abundantes. (91/100, 30 euros).

Os três vinhos podem ser encontrados na Dilettantes, uma loja simpática dedicada aos champanhes, com um respeitável canto do estoque focado nestes pequenos produtores. A casa, encravada em Saint Germain-des Prés, a poucos metros do Sena e vizinha à Catedral de Notre Dame, oferece também diariamente degustações (em qualquer horário, tipo bar, é só chegar lá) de três exemplares do seu repertório (por volta de 11 euros a taça e 25 euros o trio) que são saboreados no subsolo, num lindo salão abobadado. Fichas técnicas dos vinhos são entregues tanto na compra como na degustação deles. dilettanttes.fr.

Jacques Lassaigne

Empresa de Montgueux, perto da cidade de Troyes, ao sudoeste da Côte des Blancs e ao oeste da Cote des Bars (outra das sub-regiões da Champagne), uma espécie de ilha vitícola com pouco mais de 200 hectares de parreiras dominadas pela Chardonnay.

Les Vignes de Montgeux Blanc de Blancs Extra Brut – Um Chardonnay equilibrado e untuoso em boca, com bom corpo e sabor marcado por frutas (brancas e secas), certa especiaria e suaves avelãs que perdura por muito tempo em boca (90/100). Regou a contento um menu degustação no Le Comptoir, bistrô minúsculo e apertadinho (mas com culinária nada minimalista assinada pelo chef Yves Camdeborde) do hotel Relais Saint Germain (hotel-paris-relais-saint-germain.com) um lugar imperdível, com brigada atenta e alegre que, de quebra, fica a poucas quadras do Dilettantes. O Lassaigne custa 87 euros no Le Comptoir e 37,60 euros na lagrandeepicerie.com.

Agraprat & Fils

A casa, que nasceu no fim do século 19, conta com 12 hectares de vinha com idade media de 40 anos, distribuídas por importantes terrenos Grand Cru da Côte des Blancs, como Avize, Oger e Cramant.

Terroirs Blanc de Blancs Extra Brut Grand Cru – Sim, outro Chardonnay 100%, vinificado com leveduras nativas, 25% dele em barricas de carvalho. Após a segunda fermentação, passou 4 anos em contato com as leveduras antes do arrolhamento final. Um vinho com bom peso em boca e acidez deliciosa que o torna crocante. Pão fresco, leves toques tostados e minerais temperam um núcleo de frutas brancas. Longo, tem bolhas muito pequenas que lhe dão excelente cremosidade (91/100). Foi responsável por acompanhar todas as etapas de um jantar no L´Astrance (astrancerestaurant.com) fantástico restaurante com belo serviço, carta de vinhos idem e uma cozinha tocada por Pascal Barbot da qual saem pratos que fazem jus a cada centavo que se paga por eles. O Terroirs custa lá 90 euros.

Emmanuel Brochet

Possui apenas 2,5 hectares de vinhas em Villers-aux-Noeuds, ao sul da cidade de Reims. Nada de origem secular aqui. Os primeiros vinhos da casa nasceram na safra 2003. Brochet pertence ao time de produtores que inclui dados técnicos da elaboração do vinho nos rótulos (parabéns).

Le Mont Benoit Extra Brut 2011 – Combina na fórmula as três cepas principais da Champanhe: Pinot Meunier (40%), Chardonnay (40%) e Pinot Noir.  O vinho base passou 11 meses em barricas. Mel, avelãs, toques de lima-limão, especiaria e uma suave (e agradável) pincelada de oxidação se mesclam no aroma e no sabor longo (90/100, 43 euros).

Jérôme Prévost

Outro vinhateiro com minúsculo vinhedo: 2 hectares de Pinot Munier (com idade media de 40 anos) herdados da avó, que os alugava para terceiros, e que Prévost aproveitou para começar a elaborar as suas próprias borbulhas um par de décadas atrás.

La Closerie Les Béguines Extra Brut 2011 Puro Pinot Meunier, com vinho base amadurecido em barricas de carvalho. Exótico, denso em boca e complexo, mescla fruta madura com tons balsâmicos, minerais, de especiaria e torrefação num paladar saboroso, com excelente acidez e persistência. (92/100, 65 euros).

Tarlant

A empresa está encravada no Vallé de la Marne, ao sul da Montaigne de Reims, no centro da Champanhe. Cerca de 14 hectares de vinha são seu patrimônio. Jean-Mary Tarlant é a décima quarta geração da família a pilotar a vinícola. Ele é outro dos que adicionam fichas técnicas nas etiquetas.

Cuvée Louis Extra Brut – Um prato cheio (melhor, uma travessa cheia; prato é pouco) para quem gosta de champanhes maduros. Ele é um corte de partes iguais de Pinot Noir e Chardonnay das safras 1996, 97, 98 e 99, vinificados em barricas e postos em garrafa para tomada de espuma em 2000. O vinho que provei ficou em contato com as borras até 2014. Rico, amplo, exuberante e sedutor, une pinceladas tostadas, minerais, de brioche, frutas brancas e secas (como avelãs) num sabor longo e sedutor (93/100, 65 euros).

O trio pode ser comprado na Legrand Filles & Fils (caves-legrand.com). A loja, que fica atrás do Palais Royal, além de um estoque de rótulos de ponta, seja da Borgonha, de Bordeaux ou da Champagne, tem nos fundos (com outra entrada e mesas espalhadas pela linda Gallerie Vivienne) um restaurante aconchegante, com bons pratos e serviço a altura. Nele, ao lado de prateleiras cheias de garrafas, podem ser degustados, alguns dos rótulos do catálogo, como por exemplo, o Nuits Saint Georges ou o Échézeaux da Maison Leroy ou, para retornar as borbulhas, tanto Krug (40 euros), como o próprio Les Béguines do Prévost, este a 20 euros a taça. Não percam

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

Colunas recentes

Colunas