Prazeres da mesa

Descomplica esse prato!

Por: Prazeres Da Mesa | 23.jun.2017

Todos nós que gostamos de comida, que nos interessamos por restaurantes e pela gastronomia de forma geral, temos acompanhado as competições culinárias na TV aberta e na fechada. E quantos concorrentes erram na hora de empratar suas receitas.

Empratar. Taí um termo dos tempos contemporâneos. Não se falava ‘empratar’ há 10 ou 15 anos. Não aqui no Brasil. Hoje se diz empratar quando é para se referir ao momento de colocar a comida no prato. Linda ou horrivelmente.

Já contei aqui que não sou das 10 mais na cozinha. Me cerco de quem cozinha bem, aprecio o assunto, mas não sou propriamente uma expert das caçarolas. Talvez para compensar a falta de dom (eu confesso, fui obscurecida pela minha irmã mais velha, a Ângela-mãos-de-fada, que cozinha bem tudo o que se propõe a fazer, e por isso não entrei na concorrência familiar). Mas, como eu dizia, compensei; arrumando a mesa sempre com capricho, dispondo a comida no prato com cuidado e coerência, evitando misturar o que não se mistura e… escolhendo a louça certa.

Dia desses, fomos – meu filho amante de carne e eu – comer umas costeletas. Prato grande, pedimos para dividir e, aí, já começou o embate. O garçom trouxe apenas o prato com a comida e o colocou no meio da mesa.

“Pode trazer mais um prato, por favor?”, eu pedi.

“Sim, claro… já está na mão”, e me colocou na frente um pratinho de sobremesa que nem para sobremesa servia, tão diminuta era a circunferência do referido prato.

“Por favor… você tem um prato maior?”, implorei.

E lá se foram 10 longos minutos até que o prato maior chegasse. Fiquei me perguntando por que essa economia de prato vazio? Por que um prato pequeno quando todo mundo sabe que comida se come em prato grande? Por que esses malditos pratos ovalados que fazem a faca escorregar sem apoio? Por que os danados pratinhos retangulares que afastam A de Z, dificultando na hora de misturar aquilo que deveria conversar? E, finalmente, por que tantas tigelinhas dentro do prato para colocar o molho disso, o creme daquilo?

Gosto muitíssimo da cerâmica rústica. Tenho uma tigela linda que cuido como se fosse um bebê, mas você há de concordar comigo que esse tipo de louça não serve para empratar qualquer comida. Nos restaurantes, então, se eu pudesse aconselhar, diria simples e diretamente: não usem. Cerâmica é frágil, não aguenta bem o manuseio bruto dos restaurantes, o esmalte vitrificado faz um craquelê que não é bonito, as bordas lascam com facilidade e, como o material é poroso, o prato não fica parecendo limpo.

Se está faltando verba para a louça – e quem não está com problemas de verba hoje em dia? – vai aí um conselho prosaico: dá um pulinho nas feiras de velharias (eu não disse antiguidades, disse velharia) e arremate os jogos de jantar. Há muitas dessas feiras nos quatro cantos desse Brasilzão, quanta gente querendo uns trocados pelos pratos que foram da avó…. Se estiver desconjuntado e você, dono de restaurante, não conseguir fazer o jogo completo, melhor ainda! São bacanas os restaurantes que servem em pratos desencontrados. Aliás, a dica é da Chris Campos, do blog Casa da Chris, que sabe tudo sobre decoração.

Como frequentadora de restaurantes que sou, faço um apelo: sirva comida no prato. Nem perdida no meio de um pratão, nem espremida e caindo pelas bordas de um pratinho. Ofereça conforto aos comensais. E conforto, na hora de comer, é um prato bonito, limpo, inteiro e que comporte a comida como um abraço que você dá no melhor amigo.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

Colunas recentes

Colunas