Prazeres da mesa

Destaques na adega

Mais uma vez o concurso Catador Grand Hyatt apresentou vinhos de grande qualidade no Chile

Por: Prazeres Da Mesa | 22.sep.2010

O Hotel Grand Hyatt da cidade de Santiago foi novamente neste ano o palco do Catador Grand Hyatt, tradicional concurso de vinhos do Chile, que contou com o patrocínio de entidades como a Universidade de Chile e a Pontifícia Universidade Católica de Chile, principais formadoras de enólogos do país. A 15a edição da competição foi realizada em julho. Durante os três dias, um time de jurados nacionais (entre eles professores de ambas as universidades) e internacionais (tive a sorte de ser um deles) provaram e avaliaram às cegas cerca de 400 amostras. Os melhores foram premiados com medalha de prata, ouro ou, o máximo galardão, grande ouro (veja a lista completa dos prêmios em www.catador.cl). Tanto o concurso como as visitas a adegas e as diversas apresentações de vinícolas na semana que antecede as degustações (ou a festa de encerramento, em que aparecem, numa série de mesas, muitas das garrafas que participaram do concurso) são uma bela oportunidade de ver a quanto andam os goles dos nossos vizinhos, líderes há anos no mercado brasileiro. A seguir alguns destaques (as adegas que estão no Brasil têm o importador indicado).

Sauvignon Blanc
Novos terroirs localizados perto do Pacífico (ou ao pé da cordilheira – mas essa é outra história) se juntam a outros consagrados para aumentar o número de bons exemplares da cepa. O enólogo Mario Geisse, diretor técnico da Casa Silva – e proprietário no Brasil da borbulhante Cave Geisse –, é responsável por uma das mais recentes novidades, o Cool Coast 2010. O branco, provado na adega de Colchagua, é oriundo de novas vinhas implantadas em Paredones, canto sudoeste do vale, vizinho ao mar. Intenso e vivaz, mostrou uma mescla atraente de frutas cítricas e tropicais, temperada com toques de aspargos, marcando um paladar vivaz. O vinho participou do concurso e acabou ganhando medalha de prata (importado pela Vinhos do Mundo).Impactou da mesma forma na Errazuriz (Vinci) o Sauvignon Blanc Single Vineyard Aconcagua Costa 2009. O branco modelado pela equipe do enólogo Francisco Baettig nasce também de um vinhedo, o Manzanar, plantado recentemente pela empresa no extremo oeste, perto da costa, mas no Vale do Aconcagua, sua base, ao norte de Santiago. Nele aparecem as frutas cítricas, onde dominam as pinceladas de tangerina, unidas a toques minerais e de maracujá dando forma a um paladar rico embrulhado numa deliciosa acidez.

Pinot Noir
Outra categoria na qual os chilenos têm vinhos cada vez mais interessantes. Mas, dos que consegui provar, o campeão absoluto foi o Gran Reserva 2009 da Casas del Bosque (Obra Prima). A firma de Casablanca tem cerca de 225 hectares em produção no vale, de onde saem rubros como esse, concentrado na fruta bem casada com certo defumado, bem estruturado, mas elegante, sem arestas, exemplo de um belo Pinot Noir do Novo Mundo (levou ouro). Bom também outro 2009 de Casablanca, o Reserva da Viña Mar (Épice), com aroma e sabor típicos da variedade, toque de canela e especiaria, equilibrado e longo.

Malbec
Malbec do outro lado da cordilheira? Sim, por que não? Afinal, há tempos que os chilenos têm pelo menos um dos melhores rubros da cepa do Cone Sul: o Viu 1 da Viu Manent (Hannover). Provei vários rubros da cepa durante aquela semana e muitos impressionaram bem. Um é da própria Viu Manent, o Secreto 2009, amplo (fruta, torrefação), sedoso e persistente. Merece espaço igualmente o Tributo 2008 da Caliterra (Decanter), outro de Colchagua, frutado (cerejas, ameixas), com tons de incenso e paladar com taninos finos (ambos levaram ouro).

Carménère
Não podia faltar. Encontrei durante o tour bons exemplares. Um par deles, na Casa Silva, assinado por Mario Geisse: o Reserva 2009, unindo frutas vermelhas a chocolate (foi ouro) e o Gran Reserva Los Lingues 2008, mais estruturado, combinando fruta com tons de eucalipto e alecrim. Parágrafo à parte para um exemplar da Viña Bisquert (World Wine), o Ecos de Rulo 2007, um tinto agradável, macio, dominado por fruta e tons de madeira e pimenta-preta (prata), modelado por Joana Pereira, enóloga-chefe da adega de Colchagua – e esposa de Geisse. Excelente o Reserva Privada 2008 das Casas Patronales (www.casaspatronales.com), uma casa de Maule, mais ao sul, um vinho (que acabou ganhando medalha de ouro) frutado (cerejas) viscoso, com madeira dosada na medida certa.

Syrah
Seja em climas frios ou cálidos, uma estrela em ascensão no firmamento etílico chileno. Encontrei, claro, belos goles da cepa. A Bisquert aparece novamente aqui, com seu La Joya Reserve 2009, com taninos que lhe dão boa textura, saboroso na fruta bem combinada com toques de baunilha, conjunto que domina o final (prata). Menção também para uma adega de Maule, El Aromo (www.elaromo.cl) pelo seu Private Reserve 2008, atraente no nariz e na boca, em que mostra fruta e tons defumados, equilibrado, com boa acidez (prata).

Cortes
Categoria que se apresentou com força. Brilhou aqui a Bustamante (www.vinosbustamante.cl), uma vinícola de Maule, localizada no (belíssimo) encontro dos rios Maule e Loncomilla, com seu Reserva 2007, um Cabernet-Carménère-Merlot, denso, mesclando geleias, chá-preto, num paladar untuoso e longo (ouro). Igualmente bom o San José de Apalta 2007 (Costazzurra), um Cabernet Sauvignon-Carménère com sabor de framboesas e cassis, equilibrado e sedoso, que provei durante a apresentação dos vinhos da Casa de Rapel. A William Cole (Ana Import) marcou gol de placa com um Cabernet-Merlot-Carménère, o Hoyo en Uno 2007, complexo (frutas vermelhas, cedro, especiaria), com excelente acidez e persistência (ouro).

Cabernet Sauvignon
Mesmo com a crescente diversidade que tem alcançado o portfólio de vinhos finos naquele canto do continente, encerro com a cepa que deu fama ao Chile. Vários foram os rubros que chamaram atenção aqui. Abro com a Miguel Torres (Reloco) e seu Manso de Velazco 2006, provado na passagem pela Casa do Vale de Curico, untuoso, com paladar persistente mostrando cassis, leve toque de baunilha (a edição 2007 ganhou ouro). A Apaltagua (Vinhos e Vinhos), do empresário americano Edward Tutunjian, mostrou seu Signature 2008, elaborado com uvas do Vale de Maipo. Ele se mostrou bem estruturado, com fruta de boa intensidade (cerejas, framboesas) bem integrada com a madeira (cedro, baunilha), com taninos firmes (ouro). Um Arboleda, da Errazuriz, safra 2008, também ficou no pódio. Oriundo do Vale do Aconcagua – outro bom ninho para os Cabernet –, mostrou fruta intensa, dando forma a um paladar delicioso, bem estruturado, mas sem arestas (ouro).
A maior surpresa da viagem foi uma adega de Colchagua: a Viña Tamm, criada em 2007 pelo engenheiro agrícola Andrés Tamm Plesch, tem como base a comuna de Chimbarongo, que ocupa a ala sudeste do vale. Foi da Tamm um dos melhores vinhos provados, o Cabernet Sauvignon Reserva 2008, tinto espetacular, exuberante tanto no aroma como no sabor (cassis, framboesa, leve eucalipto, suave café), de paladar voluptuoso, com taninos doces. Espero que os vinhos dessa adega desembarquem logo por aqui (um dos poucos a ganhar a medalha grande ouro).

* Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S.Paulo e do site Basilico, foi ao Chile a convite de Catad’Or, ProChile e InvestChile de Corporação de Fomento da Produção (Corfo).

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*Escreve também para o site Basilico

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