Prazeres da mesa

Droga silenciosa

Por: Prazeres Da Mesa | 18.sep.2015

Os problemas do açúcar mascarado nos produtos industriais

O cozinheiro deve ser, antes de tudo, a ligação entre a natureza e o prato. Entretanto, quando tentamos acordar para uma alimentação mais saudável e honesta, deparamos com uma realidade que nem sempre é tão clara. Existe uma droga silenciosa escondida em embalagens coloridas nas prateleiras dos mercados que seu filho não vê, que nós mesmos não percebemos e que quando nos damos conta já estamos viciados nela, essa maravilha branca é o açúcar.

Não sou xiita quanto ao que é bom ou ruim para a saúde, até porque uma coisa que não é aconselhável hoje, amanhã é revelada ótima pelos cientistas da universidade “Industrialand”. Gosto de doce, adoro bacon, como carne vermelha… Mas é preciso ter noção do que é dado às crianças. Elas, diferentemente de você e eu, têm menos poder de escolha. Nós, adultos, podemos nos dar ao descaso de beber, fumar, dormir pouco e ter maus hábitos. As crianças não, elas merecem a oportunidade de crescer sem ter o organismo viciado em açúcar e gordura.

Uma reportagem da BBC de Londres apresentou estudos sobre a compulsão pelo açúcar e como ela pode ser tão forte quanto o vício em drogas e o alcoolismo. Daí, pensei: “Sabe quando você precisa de açúcar? Não é querer, é necessitar”.

Todo mundo já passou por isso. Imagina, então, para um organismo infantil em formação que experimenta a sensação dessa doce armadilha. Os pais ou a cantina da escola oferecem a nossos infantes, todos os dias, balas, comida processada ou o tal do néctar que é um “suco” de água com açúcar e um cheirinho de fruta. Coisa que não consigo entender! Somos um país rural, com vocação para cultivar, dos maiores produtores de frutas do mundo. Por que cargas-d’água não encontramos sucos de verdade?

01/12

Consigo achar suco de frutas tropicais até na Irlanda do Norte, por que aqui temos de entupir nossa família de açúcar? Temos de nos contentar em ser alimentados com produtos de segunda qualidade? Merecemos? NÃO.  Mas reclamamos? Também NÃO. O brasileiro se “acostuma” com o crime, com a política podre, a miséria, com as cracolândias e também com comida de segunda. Nossos achocolatados são um verdadeiro crime, tamanha a quantidade de açúcar.

Vamos a uma explicação mais científica ao Guga style: quando se prova o açúcar, dentro de nossa cuca são liberadas substâncias químicas que falam assim para nossos neurônios: “Eu te amo, baby”!

Desconfie de quem fala “eu te amo” no primeiro encontro… No amor como no paladar, é preciso ir conhecendo, degustando e se acostumando aos poucos. As regiões do cérebro da “vontade do açúcar” são as mesmas do vício em crack, acho que isso explica muita coisa. Mas, beleza, não sejamos extremistas como alguns podem dizer. Não acho que a demonização do açúcar seja a saída para o que quero propor aqui. Indico o caminho do meio, nem o mais fácil nem o mais difícil.

Digo claramente eu AMO doce, aprendi a cozinhar com minha avó, que era confeiteira de mão-cheia. Lembre-se sempre do que comia sua avó, ela estava certa! O que ela preparava não tinha gordura modificada nem muito açúcar ou sal. Sabe por quê? Porque ela amava o que fazia e acordava cedo para comprar os melhores produtos, os mais frescos, mais maduros, aqueles legumes, frutas, peixes que estão olhando para você e dizendo me leva, me leva… Quando quero comer doces, procuro os de verdade, e não engodo. Seja uma goiabada cascão feita com carinho e tradição, seja um doce incrível feito por um megaconfeiteiro. Essas coisas valem a pena, e muito! Um bom doce é o final perfeito para uma refeição. Não precisa ser caro, tem de ter qualidade.

Frutas, legumes, verduras, carnes e peixes têm seu sabor. Nós, brasileiros, colocamos açúcar e sal em tudo sem nem antes provar. Procure variar, use o que está na estação, que, com certeza, vai ser saboroso por natureza. Até porque o  melhor chef do mundo é Deus. Como diria Alphonse de Lamartine: “Eis a natureza que te convida e te ama…”.

Temos frutas belíssimas em todo o território nacional. Faça suco para seus filhos – sei que nem sempre é possível, queremos praticidade em nossa vida. Se for usar o industrial, procure marcas que tenham comprometimento real com a qualidade do que é oferecido. Hoje, no mercado, é possível encontrar uma infinidade de marcas que são nota 10, mesmo! Compre o que é feito com amor e respeito à sua saúde, pois, quanto mais comprar produtos bons, mais eles surgirão no mercado. A indústria não é burra, ela faz o que você compra, seja a mudança que você quer ver.

Se buscarmos a resposta rápida e fácil, como dar uma porcaria a uma criança sempre que ela chorar, o que será de nossos amiguinhos agrião, cenoura e peixes… Quem ama aprende com o tempo. Confie em mim, o mais doce da vida está em ensinar com amor e aprender provando.

Clique no nome das receitas e confira como fazer: costelinha com chutney de goiabada, doce de limão com cocada cremosa, doce de queijo em calda.

O chef Guga Rocha

Guga Rocha é apresentador do Homens Gourmet, da Fox Life

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