Prazeres da mesa

Duas casas vibrantes

Por: Prazeres Da Mesa | 27.aug.2015

A portuguesa Casa Ermelinda Freitas e a Chilena Clos des Fous fazem vinhos de grande personalidade. Conheça alguns deles

O tempo parece passar cada vez mais rápido. Pelo menos para mim. Num piscar de olhos o verão já está indo embora e num par de semanas o outono fará a sua entrada. Em matéria de pautas etílicas, com as temperaturas (espero) mais amenas começa a época de voltar, pouco a pouco, a beber mais tintos.

Duas adegas com personalidades distintas; uma europeia, com quase um século de existência, de porte respeitável e goles regidos pela batuta de um experiente enólogo luso; outra sul-americana, no hemisfério oposto e com perfil idem; pequena e jovem, com apenas três safras no mercado, mas desde a partida com vinhos que chamam a atenção, convergem num ponto: têm nos seus portfólios bons goles rubros (e brancos, que inclui) para regar a contento o começo da nova estação (e, por que não, o resto dela também).

Casa Ermelinda Freitas
Criada em 1920 por Deonilde Freitas, a empresa de Palmela, na Península de Setúbal, ao leste de Lisboa, do outro lado do Tejo, está hoje liderada por Leonor Freitas, filha de Ermelinda e quarta geração da família no comando. Trezentos e quinze hectares de vinhas integram seu patrimônio. Nelas se misturam cepas autóctones (por exemplo, Castelão, Touriga Nacional, Aragonês ou Verdelho) integrantes do fantástico acervo vitícola luso e outras francesas, o caso da Syrah, Petit Verdot ou Sauvignon Blanc.

O responsável pela modelagem dos vinhos é o enólogo Jaime Quendera, que gerencia também as cubas e barricas da vizinha Cooperativa de Pegões e assessora vinícolas em diversos cantos da terrinha (entre outras a alentejana Herdade do Pombal e a Quinta da Lapa, no Tejo). Quendera assina na Ermelinda Freitas (e também em outras casas com vinhos da sua autoria que tive a oportunidade de provar) uma linha consistente de goles, equilibrados com boa presença de fruta, como estes três integrantes da última leva que aportou por aqui.

Sauvignon Blanc- Verdelho 2012 – Corte de partes iguais das duas variedades e vinificado em inox, amadureceu por 4 meses em barricas de carvalho francês e americano. Frutas tropicais e cítricas (grapefruit, suave laranja e tangerina) embrulhadas por um elegante verniz de madeira dominam a cena. Um branco untuoso, com boa acidez (avaliação: 88 pontos em 100, R$ 48,59).

Syrah 2011- Fermentado em lagares de inox, estagiou um ano em barricas de carvalho francês e americano. Encorpado, com taninos finos, tem paladar com boa textura marcado por frutas vermelhas acompanhadas por firmes pinceladas de baunilha e certo mentolado que permanece em boca marcando um final longo (89/100, R$ 53).

Quinta da Mimosa 2009 - Oriundo de velhas vinhas (por volta de 50 anos de idade) de uvas Castelão (ou Periquita), cepa que tem nos solos arenosos de Palmela um dos seus melhores berços. Passou 12 meses em barricas gaulesas. Cerejas, toques de compotas e geleias aparecem junto a baunilha, cedro e especiaria. Estruturado (porém sedoso) tem final frutado longo (91/100, R$ 83). Todos a venda no Emporium São Paulo.

Clos des Fous
A vinícola chilena foi fundada em 2008 e os seus primeiros exemplares a aparecer no mercado foram os da safra 2010. Clos des Fous  (vinhedo dos loucos, em tradução livre) pertence a quatro sócios: Albert Cussen, Paco Leyton, Francois Massoc, enólogo responsável pelos vinhos, e Pedro Parra, um especialista em solos que assessora um bom leque de vinícolas chilenas, argentinas e de outros continentes a mapear seus terrenos e plantar as parreiras mais apropriadas para cada um deles. Ele está a cargo da viticultura.

A casa tem como um dos seus tesouros um punhado de hectares distribuídos em diferentes vinhedos nos mais variados cantos do Chile; desde Aconcagua Costa, no norte, ao lado do Pacífico, ou em Cachapoal, no centro, ao pé dos Andes, longe do mar, até Traiguén, em Malleco no extremo sul do país.

O próprio Parra esteve no Brasil em 2013 para lançar os seus vinhos. Mesmo com o perfil minimalista e a cara de boutique da casa ele declarou na apresentação ”Não queremos fazer vinhos caros” deixando claro depois, que queria produzir vinhos que dessem bom retorno aos apreciadores.

Na época, pelo menos em São Paulo, não foi bem esse o caso para quem queria levar para casa os rótulos da casa. Para falar em apenas um deles, o Cabernet de hoje, que (segundo declarou Parra), saia da adega para o Brasil a 10 reais, estava sendo vendido ao público pelo representante a R$ 120 (lembre que, para piorar o exagero, os goles chilenos, como os do Mercosul, estão livres do imposto de importação). Outro caso de mordida (feroz) no bolso do consumidor por parte de algumas empresas. Alias, infelizmente, uma prática agravada por as igualmente vorazes  margens de lucro praticadas por um grande numero de restaurantes, nada raras por aqui.

Os Clos de Fous acabaram de retornar ao Brasil. Agora, claro, trazidos por outra importadora. Confesso, não sei a que valores eles foram exportados, mas com o dólar, no mínimo, 30% mais caro agora do que naquela data, os preços, parecem estar melhores: um pouco mais em sintonia com a filosofia da adega e, importante, um pouco mais próximos das taças dos mortais.

Grillos Cantores Cabernet Sauvignon 2011 – Nasce de parcelas de um vinhedo de 22 hectares encravado nas encostas da Cordilheira de Los Andes, em Alto Cachapoal, a uns 80 quilômetros ao sul de Santiago. Cassis e frutas confeitadas temperadas por tênue eucalipto e alecrim, preenchem um paladar saboroso e com bom vigor, mas sem arestas (89/100, R$ 74,80).

Locura 1 Terroir de Los Andes Chardonnay 2013 – Outro do Alto Cachapoal, de terrenos de montanha. O vinho agrada ao mesmo tempo pela sua intensidade e pela sutileza com que os elementos se combinam nele. Um Borgonha do Cone Sul.  Frutas brancas como maçã madura se entrelaçam com delicados (e deliciosos) tons minerais e de especiaria doce. Branco amplo, vibrante (e crocante) pela boa acidez (90/100, R$ 86,40). World Wine.
Serviço: Emporium São Paulo, tel. 11-3838-3700.

jorge carrara_site

*Escreve também para o site Basilico

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