Prazeres da mesa

Duas estrelas portuguesas

Vinhos da Quinta do Crasto e da Herdade do Esporão mostram a grandeza de Portugal

Por: Prazeres Da Mesa | 23.oct.2009

(*) POR JORGE CARRARA
FOTO LUNA GARCIA

O sobrenome Roquette está ligado a belos vinhos lusitanos. No Douro, o casal Leonor e Jorge Roquette é proprietário da Quinta do Crasto, berço de tintos de ponta de Portugal. No extremo oposto, no Alentejo, José Roquette, irmão de Jorge, comanda a Herdade do Esporão, dona de alguns dos melhores tintos e brancos da região. Por aqui, a família também milita no mundo dos bons goles portugueses. João Roquette, irmão da dupla acima, pilota a Qualimpor, empresa que importa e vende no Brasil (com exclusividade, é claro) os vinhos das duas adegas.

A Qualimpor organizou recentemente no Consulado Português, de São Paulo, degustações verticais de dois clássicos das propriedades: o Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas e o Esporão Garrafeira Private Selection.

A Quinta do Crasto está abrigada na margem norte do Rio Douro, entre as cidades de Régua e Pinhão, na região do Cima Corgo. A propriedade se estende por morros – com uma vista do Douro de tirar o fôlego – que abrigam 70 hectares de vinhas das quais surgem tremendos tintos single vineyard, como o Maria Teresa ou o Vinha da Ponte, e deliciosos varietais do estilo do Touriga Nacional, verdadeiros ícones da terrinha. Ajudados pelos filhos – Miguel, encarregado da parte comercial, e Tomás, de olho na adega e nas vinhas –, Leonor e Jorge Roquette produzem cerca das 800.000 garrafas de vinho por ano, que são assinados pelo consultor australiano Dominic Morris em conjunto (desde 2006) com o enólogo português Manuel Lobo (ex-Quinta do Côtto).

A prova do Vinhas Velhas, apresentada por Miguel Roquette, abrangeu o período de 2001 a 2007. Os vinhos, elaborados com mais de 25 variedades lusas oriundas de vinhas com 60 anos de idade ou mais, são plantadas à moda antiga, com as cepas misturadas. Em média, os vinhos passam 18 meses em barricas de carvalho francês (principalmente) e americano.
Vinhas Velhas 2001. Um grande ano. Muita fruta (groselha, framboesa) no nariz e na boca, combinada com toques de couro, num paladar equilibrado e elegante, com textura sedosa, muito agradável (91/100).

Vinhas Velhas 2002. Safra chuvosa, terrível em quase toda a Europa. Apesar de correto, o vinho reflete o clima. A acidez domina a cena com leve fruta chegando ao meio da boca (86/100).

Vinhas Velhas 2003. Da chuva ao calor. Como explicou Roquette, “este foi um dos anos mais quentes do século, com temperaturas que chegaram a 43 oC à sombra”. O calor pode ter dado os tons de torrefação, de fruta em compota e geleia que marcam o denso e atraente 2003, com final que ganha toques de chocolate (90/100).

Vinhas Velhas 2004. Outro belo ano. Voltam aqui as frutas vermelhas junto a tons de madeira bem dosados, que dominam um paladar sedoso e persistente, que prima pelo equilíbrio e pela elegância (92/100).

Vinhas Velhas 2005. Vinho um tanto austero, sem
a intensidade de fruta do de 2004 ou do de 2001, mas bem estruturado, com taninos firmes, mas que não agridem, boa acidez e persistência (90/100).

Vinhas Velhas 2006. Fora a de 2002, colheita mais difícil que as anteriores. Talvez por isso os componentes da madeira, como baunilha e tabaco, se sobreponham um pouco à fruta, discreta, mas limpa e agradável, que aparece num paladar um pouco tânico (89/100).

Vinhas Velhas 2007. O mais novo expoente da quinta tem perfume e sabor atraente de frutas vermelhas, em que predomina a cereja, acompanhado de pinceladas leves de madeira, que se prolongam num final equilibrado e agradável (90/100).

Já o Esporão tem outro perfil. Conta com cerca de 550 hectares de vinhas em Reguengos de Monsaraz, a sudeste de Lisboa, perto da fronteira com a Espanha, e produz o equivalente a 16 milhões de garrafas de vinho por ano. Diferentemente do Crasto, também seus vinhedos abrem lugar às variedades francesas.

A Herdade vendeu suas uvas à Cooperativa de Reguengos, até que em 1987 iniciou a construção de sua adega e a elaboração dos próprios goles. Outro australiano, David Baverstock, assumiu o comando de cubas e barricas em 1992. Ele chegou do Douro, onde elaborava Porto para a Symyngton (e onde deve voltar novamente, já que o Esporão comprou lá uma nova propriedade, a Quinta das Murças). “Quando cheguei ao Esporão, o Garrafeira era feito de uma seleção dos melhores barris do Reserva (o tinto um degrau abaixo no portfólio da casa)”, diz Baverstock, que comandou a degustação em São Paulo. “Pensei que o Private Selection tinha de ter uma origem só dele.”

Fiel a esse princípio, a vinícola inaugurou na colheita de 1999 uma adega para o vinho top, com mesa de seleção de uvas e pequenos lagares de inox alimentados por gravidade. Esse é o “playground do enólogo”, como o próprio José Roquette o definiu durante uma de minhas visitas ao Esporão. Foi precisamente a colheita de estreia do novo reduto que abriu a prova.

Private Selection 1999. Mesmo oriundo de um ano fraco, o vinho se mostra em forma. Corte (20% de cada um) de Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet, com Trincadeira e 10% de Aragonês, exibiu folhas secas e uva-passa junto a toques de madeira, tudo embrulhado por uma bela acidez que mantém o conjunto ainda vivaz (88/100).

Private Selection 2000. Uma boa colheita. Entra em cena a dupla que dominará o palco no futuro: Alicante e Syrah, com mais potencial de evolução. O 2000 (30% Alicante, 30% Syrah, e partes iguais de Cabernet e Touriga Nacional) é um vinho untuoso, frutado, com toques suaves de café e frutas cristalizadas e final longo (90/100).

Private Selection 2001. Outra bela safra. Alicante e Syrah (40% cada um) são complementadas apenas por Touriga Nacional. O vinho se apresentou encorpado e muscular, porém nada áspero, com boa textura e acidez e paladar frutado (cerejas), combinado com toques discretos de madeira (91/100).

Private Selection 2003 (em 2002, o vinho não foi produzido, o que talvez deveriam ter feito no Crasto com o Vinhas Velhas). Igualmente quente no Alentejo. Volta aqui o trio Alicante (45%), Syrah (35%) e Touriga Nacional. Voltam também a torrefação, as compotas e as geleias. Toques de especiaria dão complexidade ao paladar (90/100).

Private Selection 2004. Colheita ótima, como no Douro. Novamente Alicante, Syrah e Touriga Nacional se unem num show de frutas vermelhas intensas unidas a pinceladas de fumo e baunilha, tudo fundido num paladar sedoso e persistente (92/100).

Private Selection 2005. Ano quente, mas menos que 2003. Entram na fórmula Alicante, Syrah, Touriga Nacional e Franca e Petit Verdot. O calor talvez tenha dado os toques de frutas maduras como framboesas que marcam o vinho, carnudo, viscoso, exuberante, com sabor que perdura muito tempo em boca (91/100).

Nota: Algumas safras dos vinhos degustados não constam do catálogo da importadora, mas ainda podem ser encontradas em endereços nobres, como a Casa Santa Luzia (tel. 11/3897-5000) e o Emporium São Paulo (11/3848-3700).



(*) Jorge Carrara é colunista de vinhos do jornal Folha de S. Paulo e do site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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