Prazeres da mesa

É brega? Mas é tão bom...

Por: Prazeres Da Mesa | 20.jun.2016

Nada mais tosco, nem mais óbvio do que café com bolo de fubá. Nada mais fácil de fazer, nem mais suave para a boca do que o arroz doce quentinho com canela. Nada mais banal, nem divertido de partilhar do que um pote de pipoca transbordando de tão cheio. Nada mais provocante para a língua, nem mais irritante para quem deseja estar apresentável do que paçoca esfarelando na roupa. Quem liga se engorda, suja ou – no excesso – dá dor de barriga?

As comidas juninas são, de todo o repertório gastronômico brasileiro, provavelmente as mais genuínas e saborosas. Esperadas um ano inteiro. Não conheço país no mundo que junte amendoim, milho, arroz e fubá com tanta graça. Raro encontrar quem não goste. Mas a gente encontra, sabe? Tem chato por aí que, incomodado com a aparência simplória, já tentou gourmetizar o curau, calcula isso? Não colou.

Como eu dizia, comida de festa junina, pra ser boa, tem que ser tosca. Pecado querer sofisticar a abóbora que nasceu pra ser rústica e quanto mais grumosa e açucarada, mais irrecusável fica seu doce. Desfeita absoluta tentar modificar a receita básica do bolo de aipim que, se não for grudento entre os dentes, perde toda graça.

Em 2005, fui à Serra Catarinense bem na época dos pinhões. Dois espetáculos inesquecíveis: a bolota de pinha gigante desprendendo do pinheiro e se espatifando no chão e a sapecada de pinhão estourando na fogueira. Verdadeira festa para os sentidos; cheiro de tostado, estalidos divertidos, paladar ligeiramente defumado, o laranja das brasas bruxuleando na fogueira.

E lá estávamos nós – eu e meu filho, então com 8 anos, calçado com suas botinas, seguindo o peão da fazenda na gelada cidade de Urubici. Durante o dia, se aboletou em uma carroça de um lado pra outro. À noite, depois de um jantar com todas as delícias juninas, fomos encerrar os trabalhos na sapecada de pinhão. Foi tudo muito. Muita música, muita fogueira e muito pinhão. Tanto que fez a barriguinha doer durante a nossa madrugada insone. Ele não esquece. Eu não esqueço.

São Pedro, Santo Antônio e São João não nos deixaram esquecer. Ficou pra história de nós dois e, principalmente por isso, eu adoro as festas juninas. Que são boas exatamente porque são excessivas.

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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