Prazeres da mesa

Espaço kids, a droga da gastronomia!

Por: Prazeres Da Mesa | 13.nov.2017

Ao invés de incluir, estamos excluindo as crianças. A cada dia mais eu encontro restaurantes que construíram seus espaços kids, para que as crianças deixem seus pais em paz na hora de comer.

Algumas são alimentadas primeiro, outras comem antes de sair de casa, mas o mais comum é ver crianças que comem enquanto brincam. Vão ali no kids, brincam um pouquinho, correm pelo restaurante em direção à mesa dos pais, saem correndo de volta para o kids (às vezes com um pedaço de sanduíche na mão ou um punhado de batatinhas que vão fazendo um rastro pelo caminho…). Inevitavelmente dão encontrões nos garçons, derrubam outros clientes; está triste ver isso.

E eu, que amo crianças e detesto exclusão, me ponho a pensar: por que não incluir? Por que não apresentar o mundo maravilhoso dos alimentos, dos pratos e da gastronomia aos menores?

Porque isso demanda paciência. É cruel o julgamento.

Os politicamente corretos já bradaram: estamos na era da sororidade, espécie de demonstração de irmandade. A gente tem de dar o ombro a quem precisa chorar. Tem de demonstrar parceria.

Concordo com tudo isso. Mas como é que se demonstra parceria e compreensão quando pais bradam por sossego, quando despejam seus pequenos aos cuidados de “tios desconhecidos” e à atenção de equipes de entretenimento enfastiadas?

Como é que se demonstra compreensão quando quem deveria ter compreensão com os filhos simplesmente os deposita bem longe para que não aborreçam? Não consegui atingir – ainda – esse patamar superior e elevado.

Eu sinto pena das crianças excluídas em um espaço que também poderia ser apropriado por elas. E os restaurantes (todos eles) poderiam ajudar, colocando avisos na porta que dissessem: “aqui não tem espaço kids. Partilhem a refeição com seus filhos”. Daríamos, aos menores, a grandiosa oportunidade de fazer parte de um mundo que também é deles.

Há alguns anos, fui convidada para uma festinha de aniversário em um buffet infantil. Lá chegando, fui encaminhada ao andar superior onde havia apenas adultos. Imediatamente um garçom se aproximou, bandeja com taças de espumantes na mão, me oferecendo uma delas. Deu uma certa confusão mental. “Ué, não é festa de criança?”, eu pensei. Sim, era. Mas, de verdade, eram duas festas. Uma para as crianças lá embaixo, onde os “tios” cuidavam dos “pestinhas”. Outra (e essa, sim, era a festa legal, me disseram) para os adultos, com o que chamaram de “comida de verdade”, “bebida de verdade”. Fiquei pensando sobre o que estariam comendo nossos filhos lá embaixo. Comida de mentira?

Não sobrevivi aos clichês, pesquei meu filhinho na área infantil e fomos, os dois, para um restaurante onde ele se sentou ao meu lado, pude ler o cardápio para ele e deixar que escolhesse o que desejava comer.

Eu sei, não é fácil. Eu também sei, as crianças às vezes são indóceis quando precisam ficar sentadas por mais do que cinco minutos. Mas, se a gente não ensinar, me diga: um dia aprenderão?

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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