Prazeres da mesa

ESSE SENHOR TÃO BEM CONSERVADO

Por: Prazeres Da Mesa | 5.feb.2018

Um restaurante onde os garçons lembram seu nome, mesmo que você fique um ano inteirinho sem aparecer por lá. Existe um desses perto de você? Eu conheço centenas de restaurantes onde “garçons-gatos” enfeitam o ambiente, mas não se dão ao trabalho de olhar para a cara do cliente. Também conheço diversas casas  (elegantes e caras) onde os garçons empinam o nariz. Nos Estados Unidos adoram usar o termo up nose (lembra? Eles trabalham em casas caras e elegantes) e também não se dão ao trabalho de olhar para a cara do cliente.

Há os restaurantes onde a primeira figura com quem você se depara é a hostess. Não sei por qual motivo, mas quase sempre são mulheres que adoram medir você de cima abaixo antes de decidir em qual mesa vão te colocar. Se for um casal jovem, ficam com boa visibilidade. Se for um casal com criança pequena, tratam de alocar em mesas no fundão. Mães com adolescentes são um híbrido, eles não entendem bem que tipo de frequentadores são esses, mas adoram coloca-las perto das saídas do banheiro ou da cozinha. Já os velhos costumam ser enfurnados nos cantos do salão. Você sabe, no Brasil, ser velho não está no hall das nossas ambições.

Não tem sido fácil lidar com essa turma que faz filtro do frequentador e, embora neguem peremptoriamente, todos nós sabemos que existe um código para dispor clientes nos espaços dos restaurantes. E se você pedir pouca comida, pode ter certeza de que o sorriso inicial vai ser substituído por uma carranca em poucos minutos.

Constatações feitas, hoje vou falar sobre uma casa que se conserva em boa forma, recebendo clientes… como clientes. Simples assim, sem distinção de cor, raça, gênero ou faixa etária. Instalado na Rua Haddock Lobo, nos Jardins, o Esplanada foi ponto de encontro nos anos 80 para as turmas de publicitários e de moda.

Tempos depois, abriu filial no Shopping Morumbi que, hoje, restou como única unidade de São Paulo. Frequentei muito o Esplanada Grill nos tempos em que trabalhava na região. Mais tarde, com a família (meu filho “carnívoro” adorava) também batíamos ponto. Aquele irresistível pãozinho de queijo do couvert, a picanha fatiada no ponto tão criteriosamente acertado, a salada temperada com mostarda e mel… Tudo que era inovador e, depois, foi tão replicado, mas quase nunca com o estilo do Esplanada.

Há anos que o mâitre Lima e o garçom Alves estão lá… e nos atendem. Aconteceu no último fim de semana e me surpreendi quando nos chamaram pelos nomes. Note, não estávamos em nenhum daqueles eventos em que te obrigam a colocar crachás para que todos (falsamente) se familiarizem. Era lembrança da gente, mesmo.

Nenhuma surpresa nesse fim de semana, para nossa imensa satisfação. Nada de comida desconstruída, nada de ingredientes da moda, nada de gastronomia fusion, nada de serviços “embutidos” na conta. E ainda, depois da conta paga, uma gentileza final: “vou te trazer mais um café”… O café chegou com mais uma lasca de limão, mais um biscoitinho de amêndoa e realmente foi de graça.

“Tá feliz por causa de um cafezinho, Inês?”. Olha, também. Mas sobretudo pela gentileza. É tranquilizador constatar que alguns estabelecimentos não mudam e conservam o melhor do seu DNA. Ainda bem.

Coluna Inês - Esplanada Grill

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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