Prazeres da mesa

Estrela portuguesa

Uma degustação de 11 tintos, elaborados com a Touriga Nacional, comprova que essa é uma uva em plena ascensão em Portugal

Por: Prazeres Da Mesa | 5.sep.2011

Em meio à rica constelação de cepas nativas que Portugal possui, uma estrela rubra mostra cada vez mais fulgor: a Touriga Nacional. Seus vinhos, intensos na fruta, instigantes nos toques florais, exuberantes e sedosos, chamam cada vez mais atenção, tanto em voo solo quanto pela contribuição que seu perfil sedutor tem aportado à fórmula de alguns grandes tintos de corte lusitanos.
Não estranha por isso ela ter sido o tema da Discover Touriga Nacional, uma degustação realizada por ViniPortugal (organização interprofissional para a promoção dos goles lusos) em dezembro, na cidade do Porto. Na prova, os participantes tiveram a oportunidade de degustar 12 Touriga Nacional (100%, “em pureza”) escolhidos por um time de jurados internacionais como os melhores entre as 80 amostras inscritas na seleção.
O painel vencedor contou com integrantes dos quatro cantos da terrinha, deixando claro que a uva mostra suas qualidades nos mais variados terroirs do país, fazendo, aliás, jus ao sobrenome, Nacional. A ViniPortugal decidiu repetir a experiência fora de casa e organizou recentemente uma degustação similar no Brasil. Confira, a seguir, a performance de 11 dos Touriga Nacional servidos no Porto (faltou apenas um dos campeões, o Quinta das Marias, do Dão) na ordem que foram apresentados em São Paulo (por Ricardo Castilho, diretor de Prazeres da Mesa). As adegas que estão no Brasil têm o importador e (caso o vinho já esteja disponível por aqui) o preço indicados.

* Marquês dos Vales Grace 2008 (Algarve). Oriundo da Quinta dos Vales, uma propriedade do Algarve (área costeira no extremo sul do país) com pouco mais de 18 hectares de vinhas e dois craques do Alentejo como enólogos: Dorina Lindemann, da Plansel, e Paulo Laureano. Ele impressionou bem pela  fruta (cerejas) mesclada com toques florais, de couro e pimenta, tudo embrulhado por taninos finos e uma boa acidez (89/100, www.quintadosvales.eu).

* Alfaraz 2008 (Alentejo). Nasceu na Herdade da Mingorra, perto de Beja, no sul da região. Foi fermentado em lagares e passou 12 meses em barricas de carvalho francês. Encorpado, com boa textura, mostrou bom conteúdo de fruta temperada por pinceladas de madeira, tabaco e chocolate (90/100, R$ 110, Grand Cru).

* Herdade São Miguel 2008 (Alentejo). De Redondo, mais ao norte. Bem estruturado como o anterior, amadureceu também um ano em barricas gaulesas. Aparecem nele aromas de frutas muito maduras, junto a compotas e geleias e componentes tostados, que lhe dão complexidade (90/100, R$ 90, Cantu).

* Quinta do Cardo 2008 (Beira Interior). A Beira Interior está encravada no centro norte do país, entre o Dão, a oeste, e a fronteira com a Espanha, no levante. O tinto da Quinta do Cardo militou na prova no time dos mais encorpados, exibindo paladar com taninos firmes, marcado por cerejas, violetas e suave couro, com final longo e agradável (90/100, R$ 53,90, Interfood).

* Encontro 2008 (Bairrada). Da Dão Sul, proprietária em Pernambuco da ViniBrasil, produtora de uma ampla gama de vinhos nacionais. Vinho polêmico. Em algumas amostras, como a minha (e as de alguns vizinhos) apareciam aromas desagradáveis, pouco esperados. Copos de outros participantes mostravam certa fruta (sem avaliação, www.daosul.com).

* Pedra Cancela 2008 (Dão). O primeiro da região que para muitos é o berço original dessa cepa. O vinho foi fermentado em lagares de granito com temperatura controlada e estagiou por seis meses em carvalho francês. A versão 2008 mostra a elegância dos vinhos do Dão. Taninos finos moldam um paladar viscoso e com boa acidez, denso na fruta, longo (90/100, R$ 150, BrasiVini).  

* Munda 2008 (Dão). Os responsáveis por ele são os enólogos Joana Cunha e Francisco Olazabal (que zela no Douro pelos goles da Quinta do Vale Meão). O Munda (18 meses em carvalho novo francês) tem paladar vivaz, com boa acidez, marcado por fruta concentrada, tons florais e de baunilha que dominam o final (91/100, R$ 150,10, Vinci).

* Quinta da Pedra Alta (Douro). Partimos do sul, chegamos ao norte, o eterno Douro. A Pedra Alta está no Cima Corgo, parte central da região. A quinta iniciou a produção de vinhos de mesa em 2001 (e além de bons rubros tem um espumante espetacular). O Touriga da casa, macio, com taninos doces, exibiu a fruta típica da casta junto a toques minerais no seu sabor persistente (90/100, R$ 185, Ribeiro e Vivone). 

* Churchill’s Estate 2008 (Douro). Para o Douro, a Churchill Graham, fundada em 1981, é uma empresa relativamente jovem. Duas quintas da casa no Cima Corgo, a da Gricha e a do Rio, foram a fonte das uvas desse tinto. Untuoso e amplo, ele tem sabor delicioso (ameixas, incenso, alcaçuz, especiaria) que perdura por muito tempo na boca (92/100, R$ 138, Expand).

* Inquieto 2008 (Douro). Se a Churchill é jovem, a dona do Inquieto, a Douro Prime, que foi criada em 2008, pode ser considerada um bebê. Esse é o primeiro Touriga Nacional da casa. Nada mal. Mais leve que os anteriores, mostrou sabor com boa complexidade (frutas vermelhas, café, chocolate, caramelo) e paladar redondo (90/100, www.douroprime.com).

* Quinta do Vallado 2008 (Douro). As vinhas da lindíssima propriedade se estendem por ambas as margens do Rio Corgo, perto da cidade da Régua. Francisco Olazabal modela também os vinhos da quinta. O Vallado foi o mais muscular do painel. Fruta, tons que lembram um Porto, leves pinceladas balsâmicas e de especiaria moldam seu sabor atraente e de boa persistência, bela chave de ouro para a degustação (92/100, R$ 175, Cantu).

* Jorge Carrara é colunista de vinhos do site Basilico.

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*Escreve também para o site Basilico

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