Prazeres da mesa

FAÇA UM FAVOR AO SEU FILHO: NÃO DEIXE QUE ELE ESCOLHA O QUE QUER COMER

Por: Prazeres Da Mesa | 19.mar.2018

- Batatinha, filho? Não!
- Bifinho, amor da mamãe? Não!
- Então um franguinho… só um pedacinho, filho. É nuggets, você gosta…

E a criaturinha se põe a berrar encostado no buffet do restaurante: eu já falei que não! Você é surda? Não vou comer nada disso. Nada, entendeu?

Arrepiou com essa cena aí em cima? Ela é verdadeira, juro. Vi acontecer diante dos meus olhos no último final de semana, em um restaurante desses que oferecem pelo menos umas 100 variedades de pratos, entre saladas, carnes, massas, queijos, e tantas outras variedades que a gente fica em dúvida se deve comer mais um pouco ou se está na hora de parar.

O garoto em questão tinha uns 9 anos. Gordinho, rosto fechado, ao lado da mãe que beirava o desespero pela recusa do filho e pela vergonha diante do restaurante lotado. Foi aí que ela se “desculpou” para mim: só quer saber de comer biscoito e tomar refrigerante. Não come nada. Nada!”.

Eu, muda, dei um tapinha amigo nas costas da coitada… que também foi a culpada junto com quem mais tenha ensinado essa criança a comer. Não vou aliviar, ok? Não me venha com essa conversa de que “não sabe o que aconteceu” porque a gente sabe, sim. E sabe bem o que acontece quando uma criança se dá ao direito de sair berrando que não quer comer.

É o mesmo que acontece quando ela chuta a canela do amiguinho na escola porque quer um brinquedo que o outro está usando. Ela acha que pode. E acha que pode porque alguém lhe permitiu pensar que podia.

Como nós, pais e mães, fazemos isso? Fazemos abrindo exceções. Nos desesperando quando o bebê fecha a boca, balança a cabeça, quando cospe a papinha… E nós, embebidos de desalento, saímos procurando o que possa agradar ao petiz.

Tirando o leite materno que por motivos biológicos é alimento que não desagrada a quase nenhum bebê, todos os outros alimentos são solenes desconhecidos. Estranhos querendo invadir aquela boquinha carnuda que, via de regra, repudia o estranho.

Dia desses, uma nutricionista me disse que as mães precisam insistir, pelo menos 15 vezes, até dizer que uma criança não gosta de algum alimento. E acontece de não gostar. Aqui em casa, a eleita foi a berinjela. Não vai. Mas de resto, eu simplesmente não deixei escolha. Nunca tive lá muita aptidão para o forno e para o fogão. Me esforço, mas não sou exímia nas panelas.

Me lembro da linha de produção nas sopas de beterraba. Não consegui fazer dois ou três potinhos. Fiz uma panela tão grande que meu filho passou o mês tomando aquela sopa estranha. O episódio se repetiu com o espinafre. E a cada careta, eu simplesmente dizia o que sempre ouvi mães mais velhas aconselharem a dizer: só tem isso.

Tenho um cunhado que me chama de general. Diz que meu filho come bem porque aqui em casa a coisa funciona como um quartel. Um certo exagero, mas há verdade na frase, sim. A medida que as crianças crescem, é obrigação dos adultos que a educam, apresentar as coisas do mundo. Não lhes presenteamos com o melhor da tecnologia? Não lhes oferecemos viagens aos parques da Disney? Por que, então, roubamos dos nossos filhos a oportunidade de conhecer um pepino, uma escarola, um aipo?

Nesse momento, aposto que tem gente aí elencando uma lista de argumentos de porque o filho come mal, porque resiste a experimentar coisas novas, qual a razão do cardápio restrito. Mas eu deixo aqui um desafio: você não acha que isso se resume a uma questão única, que é o excesso de liberdade com a qual uma criança não tem a menor habilidade para lidar?

INES Castro_pb

É jornalista, colunista da Rádio BandNews FM e autora dos livros Etiqueta da Beleza, A Moda no Trabalho e O Guia das Curiosas, pela Pandabooks. Em 30 anos de carreira, escreveu para as revistas Claudia, ELLE, Playboy, VIP e Marie Claire.

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